Relojoaria
Boutique dos Relógios: a olhar o futuro
Vinte anos não parece muito, mas foram suficientes para criar a maior rede de relojoarias do país. Aliás, da Península Ibérica.
Foi em 1997 que nasceu oficialmente a Boutique dos Relógios (BR), com a abertura da primeira loja no então recém-inaugurado Centro Comercial Colombo, em Lisboa. Mas, a história começa antes, e com um refugiado. Quando David Jaime Kolinski, judeu polaco, vem para Portugal no início dos anos 1930, vésperas da Segunda Guerra Mundial, conta-nos o filho, Salomão Kolinski, hoje à frente do grupo que o pai “foi muito bem acolhido, pelo que decidiu estabelecer-se e abrir o seu negócio”. Como era relojoeiro abriu uma pequena loja (num vão de escada da Avenida Duque de Ávila, em Lisboa) onde fazia consertos, e depois começou a fazer algumas vendas. Mais tarde, entrou no negócio da importação de relógios de parede, de mesa e despertadores.
Em 1977 (já agora, outra efeméride), e com apenas 18 anos, Salomão Kolinski assume a direcção da empresa após a morte do pai. Nos anos 1980 e 1990 consegue a distribuição exclusiva para Portugal de algumas marcas importantes, sobretudo dentro do Grupo Swatch, com nomes como Tissot, Longines, Omega ou Breguet. Em 1997 dá-se então a abertura da primeira loja no Colombo, à qual se seguiu em 1998 uma no Norte Shopping e, no ano seguinte, no Cascais Shopping.
Hoje, a Tempus Distribuição é inquestionavelmente líder no sector, com uma rede de 42 lojas, distribuídas pelo país inteiro, entre as quais sete lojas BRPlus, dedicadas à Alta Relojoaria. A facturação, o ano passado, foi um pouco superior aos 53 milhões de euros. Sendo que o ano passado foi o que eles chamam de “terrível. O pior de todos”
A herança familiar perdura e o grupo é dirigido por uma trindade: Salomão Kolinski, Cristina Kolinski e o filho de ambos David Kolinski. Existe mais uma filha, mas que escolheu ser veterinária “Gosta muito de animais e é essa a sua vocação”, diz Salomão Kolinski, antes de acrescentar que “conhece bem o negócio, porque também trabalhou nas lojas nas férias”. Tal como ele o fez antes. É um hábito de família…
Culto: Sempre soube que seria este o seu futuro?
Salomão Kolinski (SK): Sim, isso estava bem claro na minha cabeça. Quando acabei o liceu o meu pai chamou-me para ir trabalhar com ele. Sofria do coração e queria que eu aprendesse o negócio a fundo. Isto foi logo a seguir ao 25 de Abril e tinham criado o serviço cívico, por isso disse logo que sim. Não esperava é que ele me respondesse ‘óptimo, então começas amanhã’… Tinha dispensado dos exames e nem assim consegui ter férias.
Aprendi muito com ele. Sobretudo os princípios do rigor, da ética e do valor da palavra dada. Esses princípios foram essenciais ao longo da minha vida. Foram e são. E serão... Dou-lhe um exemplo: quando estava perto de fazer 18 anos pedi um carro ao meu pai e ele disse-me que tinha de ganhar dinheiro para o comprar, pelo que me dediquei a reparar relógios e despertadores, noite e dia. Quando juntei o suficiente o meu pai disse-me: ‘Vai-lá comprar o carro, que eu ofereço-te metade’.
O David teve a mesma experiência?
David Kolinski (DK): Tive, mas não com o carro – quando tirei a carta havia um carro velhinho e pude ficar com ele. Tive com o cão. Eu e a minha irmã tivemos de fazer uma série de tarefas, com um elaborado sistema de pontos, que tínhamos de juntar, até conseguirmos o cão.
Também sempre soube que queria seguir este negócio?
DK: Sim, eu nasci com relógios. Não tive a experiência do meu pai nos consertos, na parte técnica, mas também sabia o que era o trabalho. O retalho começou quando eu tinha oito anos e os meus Verões eram passados a trabalhar nas lojas Swatch do Colombo e do Vasco da Gama.
Quando tomou as rédeas do negócio tinha apenas 18 anos. Não teve receio, por ser tão novo?
SK: Estava no final dos meus 18 anos e foi obviamente uma situação nova, mas tive de pegar no negócio. Além de que o meu pai me tinha preparado bem. Depois fui ganhando experiência.
É fácil trabalharem juntos?
DK: Eu gosto. É muito menos burocrático, é mais fácil tomar decisões e existe uma lógica de longo prazo para o negócio, que é muito importante.
SK: E normalmente estamos de acordo. É claro que existem divergências, mas depois de cada um apresentar os seus argumentos, é fácil e rápido chegarmos a um consenso.
Conseguem separar o trabalho da vida pessoal?
SK: Fazemos um esforço para não falar…mas falamos. Se calhar mais do que devíamos, é um pouco inevitável. A relojoaria é um negócio especial, tem de ter um cunho muito pessoal, pelas histórias que traz e pelo lado emocional dos seus produtos. Por isso é que faz todo o sentido que seja um negócio familiar
DK: Em qualquer parte, é de tradição e está no ADN da relojoaria. O próprio grupo Swatch, que é o maior do mundo, é um negócio familiar…
Quais são as principais qualidades e defeitos que cada um vê no outro?
SK: O David é uma pessoa muito criativa e traz novas ideias, até porque viveu alguns anos em diferentes países, alguns mais avançados que os da Europa. É muito persistente e determinado quando fixa um objectivo.
E o defeito?
SK: Por vezes quer abarcar demasiados projectos ao mesmo tempo. Se calhar não é um defeito mas…
E para o David?
DK: Acho que o meu pai é o maior estratega que conheço. Para mim está anos à frente dos outros players. Além disso, é um comercial nato. Em termos de defeitos, é um puro workaholic. Isto é trabalho, é hobbie, é tudo. 24 sobre 24. Para mim é um defeito, mas se calhar o meu pai vai dizer que é uma qualidade.
Existe outra pessoa que não está nesta entrevista…
SK: Há muitos anos que a minha mulher tem um papel preponderante na empresa. É administradora do grupo Tempus. É interessante porque apesar de estarmos todo o dia no escritório, isso não prejudica a nossa relação. Pelo contrário, eu diria que o facto de termos construído este negócio juntos, ainda nos uniu mais. É claro que tivemos de fazer alguns ajustes e dividimos as áreas de responsabilidade. Com o David foi igual. Existem sempre decisões que temos de tomar juntos, mas ajuda podermos estar separados no dia a dia.
Não tem dificuldade em ir contra a opinião do seu pai ou da sua mãe.?
DK: De maneira nenhuma. Sempre me puseram à vontade. É mesmo uma política da empresa, com todos os nossos colaboradores. Gostamos de ouvir críticas das nossas equipas e não existe qualquer tipo de barreira. Entre nós é igual.
Porque sentiu necessidade de criar a Boutique dos Relógios?
SK: Foi numa altura em que o ramo estava a evoluir muito lentamente em Portugal. Eu via a forma como as lojas estavam a mudar lá fora, mais abertas ao público. Em Portugal continuavam fechadas, quem lá entrava sentia uma pressão enorme para comprar. Quisemos divulgar e democratizar a relojoaria. E foi também uma maneira de ganhar mais rapidamente quota de mercado, claro.
Quais consideram ser os momentos mais marcantes?
SK: A abertura da primeira loja no Centro Colombo, claro, e também a abertura das lojas e quiosques Swatch, que é uma marca muito importante para nós.
DK: E a abertura da primeira loja Plus (o que aconteceu em 2001, também no Colombo).
A aposta em lojas monomarca é para manter?
SK: Sim, para desenvolver, mais do que expandir. Para já, a nossa empresa é líder na relojoaria. Temos essa liderança há vários anos e vamos fazer o possível para a manter.
Como está Portugal?
SK: Teve um período de abrandamento, mas agora sente-se que está novamente melhor. Nomeadamente com o turismo. Felizmente Portugal está na moda e temos tudo – história muito rica, clima, paisagens lindas, mar, comida – para continuar assim.
Qual é o peso do turismo na vossa oferta em alta relojoaria?
DK: Cerca de 40%, talvez um pouco mais. Em linha com o que é normal noutros países. Para nós, naturalmente, concentra-se muito nas lojas da Av. da Liberdade.
Porque sentiu necessidade de criar as lojas Plus, tão pouco tempo depois da BR?SK: Porque havia uma oportunidade para fazer algo diferente na nossa oferta de alta relojoaria. Uma loja especial, com um atendimento diferenciado, mais privativo, com relojoeiro na loja, biblioteca... No fundo, dar ao cliente uma experiência no mundo da alta relojoaria. Como foi positiva, decidimos abrir mais algumas.
Qual o peso de uma e outra na facturação do grupo?
SK: A Plus representa já um peso importante, cerca de 40%. No geral, tem vindo a subir todos os anos, embora as crises externas causem muitas flutuações.
Entretanto têm vindo a diversificar a oferta com produtos que não estão ligados à relojoaria ou joalharia.
DK: Os nossos clientes apreciam a arte da relojoaria, mas também tudo o que é lifestyle, por isso completamos a nossa oferta, mas de uma forma diferenciadora, por exemplo, os telemóveis Vertu, ou os perfumes Creed, são exclusivos nossos, não se encontram em mais lado nenhum em Portugal. São brinquedos de luxo e tornam a nossa loja mais visitável. Procuramos também ter algumas marcas em regime temporário, uma espécie de pop ups. É o mesmo modelo de negócio da Colette em Paris.
Quais são os ingredientes essenciais para o sucesso de uma loja?
DK: Existem três. Primeiro as marcas que representamos. Sem elas, é obvio que as lojas não teriam o peso que têm. O segundo é a localização, em zonas de tráfego seleccionado, ou seja, em quantidade e qualidade de clientes que podem procurar os nossos produtos. O terceiro ingrediente é a qualidade das equipas.
Dão muita formação?
DK: Sim, mais de uma vez por ano. Vêm pessoas de fora dar formação, tanto na parte comercial como na parte técnica. Quando fazemos estudos de mercado, algo que os nossos clientes referem sempre é a qualidade do atendimento e do serviço prestado.
E como está a oferta de joalharia? Internacionalmente está a crescer a um ritmo maior que os relógios…
DK: Cá é igual. Em percentagem, a joalharia cresce mais, mas ainda não é significativa quando comparada com os relógios, que são o nosso core. Estamos de qualquer forma a aumentar essa aposta, tanto para mulher como para homem.
SK: O facto de sermos especializados em relojoaria também interfere, porque faz com que as pessoas nos procurem em primeiro lugar para comprar um relógio, porque sabem que aqui encontram uma grande diversidade.
E o negócio online?
DK: Fizemos agora uma renovação total do nosso site, e estamos em fase de teste. A tendência será para que o online cresça nos próximos tempos, mas é importante que exista uma estratégia conjunta entre online e offline, para podermos servir melhor o cliente.
Quais são os momentos que vos marcaram pela negativa?
DK: Os anos mais difíceis foram 2008 e 2016, sobretudo este último, que foi terrível. Mas a verdade é que se sofremos, como todos, também aproveitámos para fortalecer a marca, abrindo novos pontos, estruturando a aposta no online… No fundo para mostrar que estamos aqui para os próximos séculos. Ou, pelo menos, os próximos 20 anos.
Edições especiais
Desde cedo que a Tempus apostou forte no lançamento de modelos exclusivos. O primeiro foi um Tissot, em homenagem à cidade do Porto (em 2001). “Ainda é muito procurado, tem um valor alto entre os coleccionadores”, conta Salomão Kolinski.
Este ano a Tissot lançou um modelo especial para celebrar o centenário de Fátima. “É a primeira vez que fazemos um modelo também para senhora, além da edição masculina” aponta David Kolinski.
Na alta relojoaria, encontramos o Blancpain Cabo da Roca, um modelo Villeret, com o Cabo da Roca gravado na massa oscilante. Uma edição limitada a 18 peças.
Paralelamente (já não por iniciativa própria, mas por escolha da marca) serão também os únicos distribuidores da Edição Especial Hublot Sport Lisboa e Benfica. O Classic Fusion Chronograph SL Benfica, que estabelece a parceria entre a marca de relógios e o clube de futebol, terá uma edição limitada a 113 peças, tantas quanto os anos de vida do clube.