Nova biografia de Coco Chanel com ilustrações de Karl Lagerfeld

Há muitas vidas que dão um livro mas poucas vidas na moda dão tantos livros como a de Gabrielle Chanel, a criadora de moda francesa que revolucionou a forma de vestir das mulheres do século XX. Só na loja online Amazon, quando se faz uma busca por Coco Chanel, surgem 247 referências. "Coco Chanel: Sa vie (Steidl, 2011) é a mais recente biografia, lançada na vizinha Espanha e sem data prevista para Portugal.

Coco Chanel: Sa Vie (Steidl 2011) é a biografia mais recente, da autoria da jornalista inglesa Justine Picardie, que em 1997, ao visitar a casa de Gabrielle Chanel, despertou para o enigma, o mistério que era Coco Chanel. Inclui ilustrações do director criativo da marca desde os anos 1980, o designer de moda que melhor interpretou o estilo de Coco Chanel – o alemão Karl Lagerfeld.

Nesta biografia, ao contrário do que defende o jornalista Hal Vaughan, autor do recente livro Sleeping With the Enemy, Coco Chanel Secret War (Knopf, 2011), Chanel nunca foi a Mata Hari da II Guerra Mundial, afirmou Justine Picardie à revista espanhola Telva. Conclusão que tirou depois de ter investigado os arquivos militares, dos serviços secretos britânicos e também alguns da colecção documental de arquivos de Winston Churchill, em Cambridge. “Teve uma estreitíssima amizade com Winston Churchill e a influência do Reino Unido na sua vida foi crucial durante a II Guerra Mundial”, disse a autora.

Recentemente agitou-se a especulação em torno das actividades de Chanel durante a ocupação de Paris, aquando da Segunda Guerra com o lançamento de alguns livros, entre os quais os citados. Diz-se que manteve uma relação com um general alemão, mas a biógrafa frisa sim o papel importante que teve na vida do duque de Westminster. Chanel foi para Inglaterra por causa do duque de Westminster, que conheceu em 1933 – “há fotografias fantásticas, que descobri nos seus arquivos pessoais, de Chanel a receber o duque de Westminster e as suas amantes, facto totalmente aceite pela sociedade britânica dos finais dos anos de 1930, onde participavam duquesas e todas as grandes personalidades da época”.

Na moda, está convencida de que o tweed é um produto desta época, influência das largas temporadas que passou no Reino Unido. E diz que ela foi a feminista que através da sua moda proporcionou às mulheres a liberdade de movimentos e a comodidade de que só então os homens desfrutavam.

Como biógrafa, Justine Picardie teve acesso não só ao apartamento e aos arquivos pessoais, mas também o direito a pernoitar no apartamento de Chanel para escrever. “Na casa de Chanel, vazia e sem barulhos, as sombras parecem crescer, há uma espécie de presença fantasma. Tive a sensação que se me virasse com a rapidez suficiente conseguia ver a sombra dela reflectida num espelho”, refere num vídeo no YouTube.

A fase negra de Coco Chanel

Se hoje Justine Picardie tivesse oportunidade de perguntar algo a Coco Chanel seria sobre a sua infância, sobre a mãe que morreu de tuberculose quando ela tinha 12 anos e sobre o pai que a abandonou num orfanato – o lado negro da vida de Chanel, segundo Picardie. “Tinha vergonha de o admitir”, pode ler-se na Telva.

E a biógrafa, que durante as pesquisas para o livro também visitou o mosteiro onde Gabrielle Chanel foi abandonada, reparou nos desenhos que existem em algumas das janelas de vidro e que crê estarem na origem do duplo C que faz o logotipo Chanel.

Há uma fotografia de 1938 em que mademoiselle Coco está sentada no toucador do hotel Ritz, onde morreu aos 87 anos. “Envelhecer não é fácil para ninguém, mas Chanel que foi possuidora de uma grande beleza - ela foi o seu melhor modelo, a sua melhor publicidade - tinha dificuldade em olhar-se no espelho todas as noites, tinha imensos pesadelos, mas permaneceu heroicamente poderosa e continuou a desenhar até ao dia em que morreu”.

Durante a investigação para este novo livro, que se soma ao conhecimento adquirido com a preparação do anterior lançado em 2010, Coco Chanel: The legend and the life, Justine Picardie entrevistou amigos, funcionários e parentes vivos de Chanel. Um outro momento que a marcou foi quando, ainda para o primeiro livro, entrevistou a sobrinha de Coco Chanel, que nasceu nos finais dos anos de 1930 e que tem o nome da sua tia: Gabrielle. No final da entrevista não estava preparada para o que ela lhe propôs: abriu um guarda-roupa que estava cheio de roupas vintage de Chanel Couture e disse-lhe para as experimentar. Ficou sem palavras, conta no vídeo do You Tube. Mas ainda conseguiu perguntar se tinha certeza do que lhe estava a propor. Pegou então num casaco – um dos mais bonitos que já viu – de tweed, mas de um tweed tão suave que quando o vestiu e se olhou ao espelho foi o momento em que se sentiu mais elegante em toda a sua vida. “Havia algo incrível nas mangas – Chanel passou anos, décadas a aprender a fazer as mangas e os ombros perfeitos – e ao vestir o casaco percebi que as mangas faziam os braços parecer mais longos e elegantes”.

Depois experimentou outro casaco num tecido de tom creme que tinha a corrente típica das costuras dos casacos Chanel que fez parecer que como num golpe de magia lhe deu uma miraculosa boa figura. Justine Picarde destaca detalhes como o corte dos ombros, as mangas, os bolsos e os botões, todos no sítio certo. Todos eles pormenores que distinguem um casaco Chanel. Mas a sensação que teve quando colocou a mão num bolso de um dos casacos e encontrou um lenço, não resistiu a pegar-lhe para lhe sentir o cheiro. E até pensou estar a imaginar – uma vez que admite que neste momento deve ser a pessoa mais obcecada por Coco Chanel- cheirar Chanel nº5. A sobrinha disse que sim, porque a sua tia usava o perfume, que como ela se tornou mítico, todos os dias. E borrifava com ele luvas, lenços e outros acessórios. Aliás, até a lareira era borrifada com Chanel nº5.