• Alexis Tsipras à saída do Palácio Presidencial depois da cerimónia de tomada de posse
    Alexis Tsipras à saída do Palácio Presidencial depois da cerimónia de tomada de posse AFP/ARIS MESSINIS
  • Cerimónia de tomada de posse no passado dia 26 de Janeiro
    Cerimónia de tomada de posse no passado dia 26 de Janeiro Miguel Manso
  • Yanis Varoufakis na cerimónia de tomada de posse do Governo grego
    Yanis Varoufakis na cerimónia de tomada de posse do Governo grego AFP/LOUISA GOULIAMAKI
  • Alexis Tsipras com Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu
    Alexis Tsipras com Martin Schulz, presidente do Parlamento Europeu AFP/EMMANUEL DUNAND
  • Varoufakis recebe o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem
    Varoufakis recebe o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem REUTERS/Kostas Tsironis
  • Renzi oferece uma gravata a Tsipras que prometeu usá-la quando houver uma solução viável para a Grécia
    Renzi oferece uma gravata a Tsipras que prometeu usá-la quando houver uma solução viável para a Grécia REUTERS/Remo Casilli
  • O ministro grego a chegar a Downing Street com a sua camisa azul
    O ministro grego a chegar a Downing Street com a sua camisa azul REUTERS/Peter Nicholls
  • Foto de família do Governo grego, onde poucos ministros usam gravata
    Foto de família do Governo grego, onde poucos ministros usam gravata REUTERS/Alkis Konstantinidis
  • O primeiro-ministro grego com o homólogo italiano, Matteo Renzi, em Roma
    O primeiro-ministro grego com o homólogo italiano, Matteo Renzi, em Roma AFP/ANDREAS SOLARO
  • Ministro grego à saída do Banco Central Europeu, em Frankfurt, Alemanha
    Ministro grego à saída do Banco Central Europeu, em Frankfurt, Alemanha REUTERS/Kai Pfaffenbach
  • O primeiro-ministro grego com o Presidente francês François Hollande
    O primeiro-ministro grego com o Presidente francês François Hollande AFP/MARTIN BUREAU
  • Ministro das Finanças grego com o seu homólogo italiano Pier Carlo Padoan
    Ministro das Finanças grego com o seu homólogo italiano Pier Carlo Padoan AFP/TIZIANA FABI
  • Alexis Tsipras com o presidente cipriota Nicos Anastasiades
    Alexis Tsipras com o presidente cipriota Nicos Anastasiades REUTERS/Yiannis Kourtoglou
  • Varoufakis com o britânico George Osborne, á porta do n.º 11 de Downing Street, Londres
    Varoufakis com o britânico George Osborne, á porta do n.º 11 de Downing Street, Londres REUTERS/Peter Nicholls
  • O grego com o homólogo francês Michel Sapin
    O grego com o homólogo francês Michel Sapin REUTERS/Jacques Demarthon
  • Em Roma, Varoufakis encontrou-se com o homólogo Pier Carlo Padoan
    Em Roma, Varoufakis encontrou-se com o homólogo Pier Carlo Padoan REUTERS/Remo Casilli

Estilo

A gravata perdeu o poder?

A postura descontraída dos ministros gregos fez muitos levantarem o sobrolho. Há uma ideologia por detrás da nova escolha de vestuário?

De camisa azul-eléctrico por fora das calças e parka preta, o ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis chegou a Downing Street para se encontrar com o homólogo britânico George Osborne – este de fato e gravata.

O passo calmo, o sorriso para os jornalistas e as mãos nos bolsos – uma postura descontraída a condizer com a indumentária – fez muitos levantarem o sobrolho. Há uma ideologia por detrás da nova escolha de vestuário?

“Isto não é uma coisa propriamente nova mas é, sem dúvida, uma postura de desafio ao status quo e às normas instituídas”, diz ao Life&Style o politólogo André Freire. “Geralmente os políticos andam todos vestidos da mesma maneira. Esta abordagem é um sinal de inovação mas também de contestação”, acrescenta.

Na tomada de posse, o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, 40 anos – o mais jovem primeiro-ministro da Grécia – surgiu de fato escuro, sapatos escuros, camisa branca mas sem gravata. Brincou, aliás, com o tema, declarando que não vai usar o acessório masculino até conseguir renegociar a dívida grega.

“É um estilo que marca uma mudança na política”, disse Thomas Gerakis, responsável da empresa de sondagens Marc à AFP. “As pessoas estavam habituadas a ver os políticos do Syriza sem gravatas porque estavam na oposição e, por isso, agora não é tão chocante. Estão mais preocupadas com o resultado das negociações com a Europa”, acrescenta.

Três mensagens
Para Paulo Morais-Alexandre, sociólogo e professor de Dramaturgia do Figurino e de História do Vestuário e da Moda na Escola Superior de Teatro e Cinema, os novos elementos do governo grego querem transmitir três mensagens e tem tudo a ver com a origem social dos próprios membros do partido – “é uma média burguesia muito bem posicionada”.

A primeira mensagem “e a mais óbvia” é a de que “não são conservadores, são diferentes”; a segunda é a ideia de que não se preocupam com a indumentária – “o que é completamente mentira. Veja-se o caso do ministro das finanças Varoufakis. Ele é quase um dândi, a cor das camisas é exemplo disso”, explica Morais-Alexandre, frisando que há “uma leitura ideológica nas camisas desfraldadas”, uma vez que as usam por fora das calças mas usam fato. “Continua a ver um q.b. de formalidade e os próprios fatos do ministro das Finanças ou do primeiro-ministro são bons, têm bom corte”.

A terceira mensagem, explica o professor de História de Vestuário, está ligada directamente à gravata. “A gravata aqui funciona como os espartilhos para as mulheres. É constrangedora, ninguém gosta de a usar, aperta o pescoço. Isto é um facto. Eles querem associar a sua não utilização à libertação. A libertação da gravata depois de terem sido engravatados pela troika”, diz, sublinhando que “mesmo os ministros que habitualmente usavam gravata, agora já não vão usar”.

Em Julho de 2011, Assunção Cristas trouxe o tema das gravatas para o ordem o dia, com um despacho assinado enquanto ministra da Agricultura, do Ambiente, do Mar e do Ordenamento do Território a dispensar o uso de gravata dos seus cerca de 10.500 funcionários. A medida, a vigorar todos os anos entre 1 de Junho e 30 de Setembro, quer reduzir a sensação de calor e controlar a utilização de aparelhos de ar condicionado. Mas, salientou Cristas ao PÚBLICO na altura, nas ocasiões em que esteja em causa a imagem do Estado, a gravata volta a estar presente – uma regra que, salienta André Freire, confirma uma “anuência completa com as normas estabelecidas”.

Uma nova maneira de ser
Com a nova imagem do novo Governo grego a questionar os códigos estabelecidos – tanto os políticos como os de vestuário – levantam-se outras questões. A gravata perdeu o poder? Já não é símbolo de respeito? De status?

O Guardian elogia a escolha da cor azul eléctrico do ministro das Finanças grego mas diz que “qualquer pessoa que não ache a escolha de roupa de Varoufakis incongruente e um pouco estranha para a situação, está a mentir”. “O facto do seu look idiossincrático não chegar nem perto da alfaiataria conservadora tem de ser lido, pelo menos, como uma pessoa com uma atitude confiante”, aponta.

Iglesias, do partido espanhol Podemos, tem o cabelo comprido e também usa um visual mais descontraído. O mesmo se aplica aos restantes membros daquele partido. “Em Portugal, temos o exemplo dos deputados do Bloco de Esquerda, que também não costumam usar gravata”, aponta André Freire.

Também Morais-Alexandre diz não ter sido capaz de não comparar a situação grega ao espectro político português. “O PCP, que é conservador, anda de gravata. CDS e PSD também. Na juventude socialista mais à esquerda, há um ou outro que não usa gravata. Mas o mais semelhante [ao caso grego ou espanhol] acaba por ser o Bloco de Esquerda”, compara. Embora, ao contrário dos cabelos compridos de Iglesias, os gregos andem sempre de cabelo aparado. “Como que a dizer ‘Atenção, nós não somos descuidados!’. É exactamente o contrário. Eles parecem informais mas são francamente formais e isso reflecte-se também no seu comportamento político”, realça.

Por ocasião da visita do ministro das Finanças grego ao Reino Unido – e da sua escolha de guarda-roupa –, o jornal britânico Telegraph fez uma fotogaleria a compilar os 16 políticos que se vestem de forma “radical”. Entre eles, além de Varoufakis e da sua camisa “de um azul eléctrico nada conservador”, está José Mujica, Presidente do Uruguai; Evo Morales, Presidente da Bolívia; Hugo Chavez, antigo líder da Venezuela; os elementos do partido espanhol Podemos ou Nelson Mandela e as suas “camisas coloridas”.

Gravata, símbolo de conservadorismo
O sociólogo Morais-Alexandre considera que a gravata não perdeu poder. Houve, no entanto, uma alteração a nível simbólico. “De símbolo universal de formalidade, a gravata passou a ser um símbolo universal de conservadorismo. É o símbolo de uma política que é sempre igual e a primeira maneira de contrariar isso é deixar de a usar”, diz. Um símbolo, frisa, essencialmente ocidental.

“Acontece a mesma coisa com os líderes do Irão. Eles não usam gravata porque esta é um símbolo do mundo ocidental, do liberalismo americano, contra o qual eles lutam. Lá, querem substituir esse liberalismo pelo estado religioso e passam a usar vestuário regional e camisa apertada até ao último botão, para manter a formalidade. No caso do Syriza, há um abandono do símbolo para propor uma nova maneira de ser”.

Freire concorda com a alteração do simbolismo. “Mas as convenções são para serem questionadas. Acho que esta é uma nova imagem que não está a ser muito bem recebida, junto com tudo o resto. Mas vai acabar por ser integrada. O mais importante é que eles têm um mandato popular e estão a levá-lo para a frente”, diz Freire.