Na Covela pode fazer uma prova de vinhos
Na Covela pode fazer uma prova de vinhos DR

Há vinhos frescos para experimentar na Quinta de Covela

O século XVI está nas ruínas da Casa de Covela onde se pode jantar e experimentar os vinhos da quinta que pertenceu a Manoel de Oliveira.

Na rota dos vinhos verdes, com o Douro a correr ao fundo, está a Quinta de Covela, em São Tomé de Covelas, Baião, que quer ser mais do que uma propriedade onde se produzem vinhos.

“Há males que vêm por bem” é um ditado que os sócios Tony Smith e Marcelo Lima, um ex-jornalista britânico e um empresário brasileiro, respectivamente, podem citar quando olham para o seu investimento naquela região. Aquela quinta, que outrora pertenceu à família do realizador Manoel de Oliveira, passou por outras mãos que não fizeram os melhores investimentos.

Três enormes modernas casas de linhas direitas revelam o enorme investimento feito pelos antigos donos da Covela. Vivendas com dois pisos, quatro suites, pátio, garagem e piscina, que nunca foram vendidas pelo preço expectável. Ao comprar os 49 hectares da Quinta de Covela, os dois sócios adquiriram também estas casas – uma para cada um e a terceira para receber convidados, de compradores de vinhos a grandes especialistas, passando por sommeliers e jornalistas. Tony Smith confessa que já pensaram em usar a casa para turismo, mas que não é um projecto prioritário.

Agora, os sócios estão apostados nos vinhos. A quinta já era conhecida pela sua produção de qualidade, com prémios ganhos no estrangeiro e, por isso, quando em 2011 a Lima&Smith, assim se chama a sociedade, comprou a Quinta de Covela, readmitiu todo o pessoal entretanto dispensado, conta Tony Smith. Uma das primeiras medidas foi dar salários iguais a homens e mulheres – elas ganhavam menos do que eles.

Assim que se passam os portões da quinta, vê-se do lado direito a antiga Casa de Covela, datada do século XVI, uma ruína de paredes fortes. Ao lado, a capela, da mesma altura.

De vez em quando, aparece uma seta informativa. As portas da quinta estão abertas e quem quiser pode visitá-la. Mas o ideal é marcar uma visita guiada em que, além das ruínas, do moinho ou do ribeiro, é possível fazer uma prova de vinhos, almoçar, jantar ou mesmo piquenicar. Os programas podem ser adaptados. Por exemplo, com o tempo quente pode ser feito um jantar nas ruínas da antiga casa. Smith conta que já houve jantares com música ao vivo.

Mas quem visita a Covela também “quer beber o silêncio”, acredita o proprietário. Por isso, pode fazer a visita sem guia e descobrir sítios bucólicos ou subir até ao topo onde está uma espécie de miradouro de onde se vê toda a propriedade como se fosse um anfiteatro que desce até ao rio. “As pessoas saem daqui muitos felizes”, certifica, acrescentando que a quinta tem espaços que “se descobrem românticos”, diz com o seu sotaque de português do Brasil. 

Ao longo do caminho que leva à antiga casa do caseiro – agora recuperada e que deu lugar a um pequeno núcleo de casas, entre elas a adega onde o vinho é engarrafado – há muitas árvores de frutos, dos limoeiros aos marmeleiros, das macieiras às cerejeiras, passando pelas pereiras. A vinha ocupa 17 hectares.

Os vinhos para o Verão

Em tempos, a Quinta de Covela foi agrícola e produzia milho – daí o moinho que se vê, junto ao ribeiro que corre pela propriedade. Hoje é uma quinta orgânica, orgulha-se Tony Smith que não é religioso, mas compreende por que o são as pessoas que vivem da agricultura.

Num jantar com os jornalistas na Fundação Eça de Queirós, em Tormes, Smith recorda 26 de Julho de 2012, o dia em que veio uma nuvem de Espanha e que em quatro minutos o granizo levou 50% da produção. “Nada a fazer.” Este ano também perderam a uva que daria origem ao vinho branco, “foram duas manhãs de geada”, conta, servindo um Avesso 2013, o vinho que “fez a reputação da quinta” desde a década de 1990 – o granito típico da região dos vinhos verdes, bem com o clima mais continental são determinantes para esta casta que precisa muito de sol, explica. “Não aparece noutras regiões do mundo”, assegura.

É também de uma indústria “a céu aberto” que fala Rui Cunha, o enólogo responsável pela Quinta de Covela, durante a apresentação dos vinhos que se podem beber este Verão.

O enólogo pega numa garrafa de Avesso de 2015 (9,50 euros) e serve-a aos jornalistas. É um vinho mais jovem e com maior acidez do que o de 2013, reconhecemos. O avesso é a casta “rainha do vale”, diz, tem acidez, boa estrutura e “potencial de envelhecimento na garrafa”.

“Quando se pensa no vinho verde ou se vai logo para o norte para os alvarinhos, ou para Ponte de Lima com vinhos pouco alcóolicos e com mais gás. De há seis ou oito anos para cá, começou a olhar-se para outras castas da região e ver quais são as mais específicas”, conta o especialista. Assim, no Minho temos os alvarinhos, no centro os loureiros, e em Baião que termina no vale do rio Douro, o avesso, continua.

Os consumidores de vinho verde estão a mudar, acredita Rui Cunha, “um amante da doçura e gás é um consumidor que está a desaparecer e a região está a apresentar vinhos mais característicos e próprios”.

O Avesso de Covela é um vinho de casta única – “fomos os primeiros a pô-lo no mercado”, orgulha-se o enólogo –, que pode ser bebido pré-refeição, com um queijo de cabra ou que acompanha bem uma refeição como as de cozinha asiática, sugere.

Segue-se o Arinto edição nacional 2015 (9,50 euros). É para quem gosta de beber entre dois mergulhos, imagina Rui Cunha. É um vinho leve, mas com potencial de envelhecimento.

Por fim, segue-se um Rosé (11 euros), também de 2015, feito com touriga nacional e com um perfil “mais elegante, austero, com acidez muito presente”, define Rui Cunha, depois de o provar.

Boavista vai chegar ao mercado

Depois da Covela, os dois sócios começaram a procurar um lugar onde pudessem produzir vinho tinto. “Em 2013 estávamos a negociar duas hipóteses”, recorda Tony Smith. As hipóteses eram a Quinta das Tecedeiras, que fica na margem esquerda do Douro; e a Quinta da Boa Vista, mais acima da Covela, ambas no coração da região demarcada do Douro.

A Boa Vista é uma quinta emblemática, datada de 1756 e associada ao barão de Forrester porque pertencia a um amigo dele e mais tarde foi comprada pelos filhos do inglês. Smith nunca pensou que a Sogrape a iria vender, afinal trata-se de uma quinta de onde nunca saíram vinhos próprios, mas cujas uvas faziam vinhos como o Porto Offley, continua Smith.

Os dois sócios nunca pensaram que a Sogrape vendesse os 80 hectares da Boa Vista, por isso, estavam a negociar as Tecedeiras. Acabaram por ficar com as duas. “Honestamente não estávamos à espera, nunca acreditei que iam vender. Na mesma semana tivemos de decidir e achamos que era melhor ficar com a Boa Vista porque ia ser comentado no mercado, era uma jóia e essas não aparecem muito no Douro”, lembra Smith.

A Boa Vista, perto do rio, entre a Régua e o Pinhão, tem os terraços mais altos do Douro e está disposta em anfiteatro. “É o Machu Picchu português! Aqui [Covela] é bonito, lá é monumental”, exclama Tony Smith.

Os primeiros vinhos, feitos em 2013, chegam ao mercado em Setembro, e Tony Smith está entusiasmado com o resultado obtido. Já nas Tecedeiras, a sociedade está a fazer um Porto Tawny Reserva, mas o objectivo é passar a fazer um Douro, basta vindimar mais cedo, explica Rui Cunha. Afinal, é mais difícil entrar no mercado do Porto. “Haverá sempre Porto para dar credibilidade ao projecto, mas não para comercializar”, diz Smith.

Entre as três quintas também há capacidade para fazer um champanhe, mas “não faz sentido”, acrescenta.

Depois do Douro, em 2014, a Lima&Smith avançou para a internacionalização com a compra de uma participação na Maison Champy, o negociante mais antigo da Borgonha, em França.

A Fugas viajou a convite da Lima&Smith

Quinta de Covela
São Tomé de Covelas, Baião
Tel.: 
254 886 298
E-mail: info@covela.pt

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