Dirk Niepoort (esq) e João Carlos Paes Mendonça
Dirk Niepoort (esq) e João Carlos Paes Mendonça Fernando Veludo/nFactos

Brasil-Portugal no Douro

João Carlos Paes Mendonça, brasileiro, dono de shoppings foi ao Douro, comprou uma quinta e decidiu torná-la no palco de um projecto de autor. É aqui que Dirk Niepoort entra.

O empresário brasileiro João Carlos Paes Mendonça gosta de se instalar num terraço da casa e olhar uma parte da sua quinta que se estende encosta abaixo e o troço do rio Douro que corre lá ao fundo. Quando comenta o que vê, os patamares onde a vinha está plantada, a mansidão do rio, as oliveiras, as flores primaveris dos pequenos bosquetes, não se lhe descobrem palavras que apontem para a riqueza ou para o valor incalculável daquele património.

O milionário que ganhou a vida a montar redes gigantescas de supermercados (a revista Forbes atribuia-lhe uma fortuna de 4.1 mil milhões de euros em 2013)  encontra ali uma espécie de lado B da sua vida empresarial. O Douro e a sua Quinta Maria Izabel “não podem dar prejuízo” porque, sublinha, “o troféu do empresário é o lucro”, mas o enorme investimento que Paes Mendonça fez é para ele mais um gesto “de emoção”, “de prazer” com o qual espera diluir a pressão dos negócios que mantém no Brasil.

Paes Mendonça sabe medir a beleza do vale ou a harmonia dos patamares que sustentam filas de videiras nas encostas acidentadas, mas para ele o vinho é um mundo novo. Ele sabe apreciar um bom tinto, tem opinião formada sobre algumas das principais marcas portuguesas, reconhece que o ciclo do vinho, desde a plantação à vindima e à adega é “bonito”, mas tudo isso é muito pouco para quem investiu milhões de euros numa quinta. Mal chegou ao Douro, o empresário tentou a todo o custo falar com Dirk Niepoort. Dois anos mais tarde conseguiu envolvê-lo como consultor técnico do seu projecto. Desde então, Dirk tornou-se o seu amparo, o seu selo de garantia, a certeza de que para lá de uma bela vinha também pode sonhar em fazer um belo vinho.

Se Paes Mendonça foi um dos gurus da moderna distribuição no norte e no nordeste do Brasil e é hoje um dos empresários que melhor domina o negócio dos shopping center (tem 12 espalhados por vários estados brasileiros), Dirk é uma espécie de Rei Midas do Douro actual – o seu toque tem o condão de transformar vinhos bons em vinhos excelentes. Descendente de uma família holandesa que se estabeleceu no Porto em 1841, Dirk herdou a escola da Niepoort na interpretação das vinhas e dos vinhos, embora ele seja hoje mais um homem do vinho do Douro do que do vinho do Porto, ao contrário dos seus antecessores. Quando soube do interesse de Paes Mendonça em falar com ele, suspeitou naturalmente que o que estava em causa era mais uma proposta de consultoria, como outras que recusa a cada passo. Não, havia mais qualquer coisa.

O caso de Paes Mendonça com o Douro é fulminante. Um dia ouve falar do Douro no restaurante Solar dos Presuntos, em Lisboa, e quer ir ver o vale com os seus próprios olhos. “Fiquei encantado”, recorda. Depois, num outro restaurante, o DOC, pergunta com displicência sobre se havia quintas à venda naquela zona. Havia. Pelo menos uma que ficava a cinco quilómetros daquele local. No dia 23 de Abril de 2012, Pais Mendonça mete pés ao caminho e vai à procura da então chamada Quinta da Fonte do Toiro. Gostou do que viu e, por mais de uma vez, voltou a namorar a propriedade. Poucas semanas mais tarde adquiriu-a. Mais por impulso do que em resultado de uma reflexão profunda, o empresário viu-se dono de uma quinta com 135 hectares (uma área enorme para a média do Douro), dos quais 70 hectares são vinha e 15 olival.

Mandar refazer a casa, erguer novos muros, refazer a estrada ou plantar aciprestes não era para o empresário uma dificuldade de maior. Fazer vinho de classe, era. Se tivesse comprado um shopping no Douro, “teria ido à procura de Belmiro de Azevedo ou de Alexandre Soares dos Santos”, como se tratava de uma quinta, sentiu-se impelido a ir ao encontro de Dirk Niepoort. Na carteira levava-lhe um projecto. A quinta seria rebaptizada com o nome de Maria Izabel (“com ‘z’, que tem mais impacte”), a parte da viticultura seria entregue à supervisão do consagrado Nuno Magalhães, Gabriela Canossa seria a enóloga residente e Dirk tinha mãos livres para desenvolver ali um projecto de autor. Dirk confessa que chegou a pensar que fazer um vinho para um patrão, pensado para o “mercado” (um palavrão que Dirk detesta) talvez lhe fizesse bem. Gabriela Canossa lembra-se desses primeiros contactos e de lhe dizer: “Vais fazer o que te apetecer”.

Nesta atitude de Paes Mendonça há algo de estranho e inusitado. Não sendo ele um homem do vinho mas um empresário que aposta no vinho por impulso, seria de esperar que fosse à procura de um enólogo consensual, que fizesse vinhos bons mas padronizados, redondos e conformados. Dirk é o oposto desse registo. Para ele, o vinho é uma interpretação pessoal de um lugar (um terroir) que tem como suportes a frescura, a elegância e a aptidão para a mesa. “Nunca fiz nada para ninguém (para o mercado, para os portugueses, os brasileiros ou os asiáticos). Fazemos o que fazemos o melhor possível e depois explicamos isso às pessoas”, nota Dirk. Curiosamente, era esse lado distintivo, quase rebelde, que Pais Mendonça mais procuarava. “O Dirk faz coisas diferenciadas e eu acho que o vinho tem de ter a cara do pai”, justifica.

Havia, assim, sintonia de princípios, mas o empresário e o enólogo precisavam de acertar detalhes da sua relação. Dirk é um enólogo de agenda cheia – para lá de fazer os vinhos da sua casa e de os vender em intermináveis viagens mundo fora, dedicou-se nos últimos anos a explorar o potencial da Bairrada e do Dão. Para aceitar o repto precisava da cumplicidade de Gabriela Canossa e de empatia com Paes Mendonça. “Fui ter com ele ao Recife, passei com ele uns dias e fiquei a gostar dele”, conta Dirk. Porquê? “Ele é um grande psicólogo, sabe como chegar ao sucesso pela sensibilidade, respeito e abertura para com as pessoas à sua volta”, nota o enólogo. Pais Mendonça olha embevecido para Dirk, passa-lhe a mão no braço e fica-se facilmente a perceber que entre o empresário tradicional e o enólogo vagamente libertário há de facto sintonia.

Começa então o trabalho conjunto. Dirk não participa na primeira vindima, a de 2012, embora tenha sido o responsável pelos lotes finais do tinto que está prestes a chegar ao mercado. Como é dono de uma quinta que não fica longe dali, a Quinta de Nápoles, sabe quais são as vantagens de dispor de vinhas voltadas para Norte, que conseguem resguardar-se mais da inclemência do sol no Douro e produzir vinhos mais finos e elegantes. Nos trabalhos de replantação das vinhas que entretanto foram feitos, Gabriela Canossa pôde dar lastro ao projecto diferenciador que Paes Mendonça criou e em vez da trilogia habitual das castas durienses (Touriga Franca, Touriga Nacional e Tinta Roriz) plantou na propriedade 16 variedades diferentes, algumas das quais quase esquecidas no Douro moderno, como a Touriga Fêmea.

A Quinta Maria Izabel, um nome pensado “para homenagear as mulheres portuguesas e brasileiras” que invoca a herança da imperatriz que mandou publicar a Lei Áurea que em 1888 iniciou o fim da escravidão, é hoje uma propriedade modelar. Da estrada que segue junto ao rio Douro, sobram apenas umas escassas de metros para se chegar lá. Na pequena aldeia ribeirinha da Folgosa vira-se em direcção ao monte, sobe-se uma primeira encosta sinuosa e de repente o cenário muda. Os muros de xisto novos, a existência de plantas e arbustos meticulosamente plantados em pequenas áreas onde não cabem videiras destacam pelo zelo os limites da quinta. Quando se vencem os últimos metros da encosta chega-se a uma casa e as bandeiras hasteadas à porta de Portugal, do Brasil e do Pernambuco são uma segunda nota de surpresa neste trecho do Douro que por tradição e herança da História sempre foi propriedade de portugueses e de britânicos.

A quinta tem sete hectares de vinhas velhas e 23 hectares com plantações de há 25 anos, a base da produção para os próximos anos. Dirk conhece bem este potencial e guarda segredo de algumas experiências. Sabe que pode correr riscos, que Paes Mendonça só cobrará por resultados mais tarde. “Ser diferente não se consegue à primeira. Demora tempo”, diz o enólogo. “Temos por isso de fazer as coisas de cima para baixo. Primeiro vamos fazer vinhos de terroir e perceber depois até onde podemos ir”, acrescenta. Ao seu lado, Paes Mendonça concorda: “Queremos qualidade e não quantidade, não vamos ser um grande produtor. Não temos pressa”, avisa.

No princípio da aventura entre o empresário e o enólogo, é já possível vislumbrar alguns sinais para o futuro. O tinto de 2012 não tem a cara de Dirk – excepto talvez numa secura no final de boca que o recomendam para a mesa. Mas o Quinta Dona Izabel branco de 2014 é já um indício do que aí pode vir. Um branco cheio de nervo e graça, com uma riqueza aromática notável e uma profundidade muito interessante. Lá para meados do próximo ano, chegará a hora da prova dos 2013, esses sim já feitos à imagem de Dirk, e aí ver-se-á melhor até onde a liberdade criativa que Paes Mendonça concedeu a Dirk e à equipa pode ir.