Vida em 10 fotos

A minha vida em 10 fotos

Teresa Ricou: A mulher que viveu duas vezes

  • África (Angola), 1957, onde cresci: o calor, a terra ocre, a intensidade dos odores, a exuberância das etnias, a linha do horizonte a arder no fim de tarde. Só as crianças circulavam em liberdade. Fugia para as farras e dançava descalça na terra batida!
  • Espectáculo em Miranda do Douro, 1976. A festa em que o Circo envolve as crianças e os adultos das populações mais envelhecidas é uma memória que não me deixa duvidar de que o circo é a mais universal, a mais inclusiva das artes do espectáculo. Com o apoio do Museu de Miranda do Douro, ocupámos velhos celeiros que transformámos em espaços de cultura. O museu (até então desactivado) era dirigido pelo arquitecto Pedro Vieira de Almeida com o apoio da artista plástica Luísa Correia Pereira e cobertura fotográfica de Nuno Calvet.
  • Viajei por Portugal, vinda do exílio em França, descobrindo o país mais profundo nesta carrinha. Estamos em 1976. Quis mostrar a estas gentes, tão isoladas e de rostos tão tristes, que a vida podia ser diferente. E assim nasce a primeira Tété, uma palhaça de saia rodada e sotaque provinciano.
  • Com a galinha Mariana e a minha amiga Elsa Galvão (a partenaire Eli), em ensaios de N'ovo de N'Ovo, apresentado na Gulbenkian, em 1984. Gosto de rir e de fazer rir. À medida que me envolvia no mundo artístico, a figura do Palhaço, patético redentor, surge como a síntese do que quero ser – um generoso subversivo.
  • Com João Lagarto, em 1987. O princípio desta aventura na Costa do Castelo, onde uma casa de reclusão de raparigas se transformou numa casa de cultura para todos! Acção Social, formação e cultura são os três pilares que sustentam o projecto Chapitô. Desenvolvemos acções e práticas de inclusão e intervimos junto de jovens em situação de vulnerabilidade. Animamos e ensinamos (circo), numa casa onde as paredes falam a língua de quem as habita.
  • O meu pai, Eduardo, com quem vivi o sentido de missão desde cedo. Levou-nos para África, onde assistimos ao seu empenho no tratamento da lepra. Nem o estigma da doença, nem o perigo de contágio o demoveram, e nunca nos impediu de conviver com os doentes.
  • Estava em cena com um espectáculo do Fernando Gomes e o meu filho Nuno surpreendeu-me com a visita do meu neto. O Nuno foi sempre a minha bússola na caminhada de vida que escolhi. Ele, que me fez pensar em tantos outros meninos e meninas por esse mundo fora, foi quem me alertou para a realidade de uma outra vida: a daqueles que não têm afectos nem oportunidades.
  • A mim, o brilho fascina-me. E as pessoas estão a perder o brilho. É preciso iluminar os olhos das pessoas. O palhaço cumpre a sua função...
  • O Chapitô é circo, é redondo, é multicultural, é fantasioso! É real e vinculativo nas solidariedades. As principais armas de combate são as artes. O campo de combate é o mundo na sua diversidade e nos seus paradoxos.
  • Em 2009, a Fundação Calouste Gulbenkian atribuiu o Prémio Gulbenkian Beneficência ao Chapitô, por todo o trabalho em prol do equilíbrio social. Toda a equipa do Chapitô (120 pessoas) está de parabéns - mais uma vez, a partilha do sucesso. Estas manifestações são testemunhos públicos de que é possível, orgulham-nos e permitem-nos abrir cada vez mais portas para novas parcerias.

Teresa Ricou é uma mulher com orgulho da sua vida. E do modo como a viveu, grande parte como Teté, a mulher-palhaço que a tornou numa referência para as artes do circo em Portugal. Mas esta força da natureza, responsável por um dos mais importantes projectos de inclusão social e educação pela arte, o Chapitô, é também pedagoga, activista e profundamente humanista. A história da sua vida confunde-se com a história de um país democrático, que quis ver na cultura um modelo e um pilar estruturante. Porque não desiste, é incansável no cruzamento de olhares, de modos de pensar, de agir e de fazer.