Vida em 10 fotos

A minha vida em 10 fotos

Gonçalo Cadilhe, escritor viajante

  • Final dos anos 1950, Porto Os meus pais, ainda na universidade. Casariam em 1964, proposta de emprego na Figueira da Foz em 1967, onde eu nasci em 1968. Sem eles, como poderia falar de mim?
  • 1983 Um “fogo de concelho” num acampamento de escuteiros nas lagoas de Quiaios, com amizades que ainda hoje frequento. É fácil identificar-me: já agarrado à viola, paixão que se mantém na minha vida.
  • 1983, S. Pedro de Moel, com o meu pai e o meu irmão. Também outra paixão que se mantém ainda hoje: o surf.
  • Madeira, hoje. Uma foto recente a surfar no Jardim do Mar, pensando sempre que é aproveitar enquanto ainda tenho fôlego para estas ondas grandes, pois a idade começa a pesar.
  • 1990, África do Sul: ainda na universidade, a primeira viagem sozinho, com as poupanças. Pensei que nunca mais voltaria a viajar, que nunca mais teria dinheiro e que Portugal nunca teria lojas de surf — voltei carregado como um burro: cinco pranchas, dois fatos térmicos, etc…
  • Final anos 1990, Itália Técnica pé-descalço: trabalhar num país rico durante a temporada alta (aqui num restaurante na Riviera), viajar o resto do ano pelos países pobres do sul do mundo. Uma técnica que só abandonei quando os livros tiveram sucesso q.b.
  • 2004, Afeganistão: durante a volta ao mundo sem aviões, a que está descrita no livro Planisfério Pessoal, tive que atravessar o Afeganistão. Propus esta foto para a capa do livro, claro que a proposta não foi aceite!
  • 2006, Fronteira Congo/Gabão: durante a viagem que deu origem ao livro África Acima. À boleia nas traseiras desta pick-up, oito horas de pó e cacimba. O resultado é confuso: de que raça é a cor da pele deste viajante?
  • 2008, Namíbia: durante uma expedição da agência Nomad, a servir o cafezinho ao grupo, depois da pausa para o almoço. Já sei que para um português nenhum dia está completo sem este pequeno prazer, mesmo no meio de África.
  • 2011, Hanói: encostei a ponta dos dedos polegar e indicador, que em Portugal significa “cortar pouquinho”. A menina olhou para os meus dedos e entendeu “cortar curtinho”. Quando reparei, tinha levado a maior carecada da vida… e ainda só ia no lado direito.

O convite ao mais célebre escritor viajante português para que revelasse as dez fotos da sua vida foi feito com segundas intenções. Queríamos ser surpreendidos. E fomos. Se a primeira foto começa com a ternura nostálgica do preto e branco apanhando ainda os pais na Universidade do Porto, depressa Gonçalo Cadilhe nos leva para outras paragens. De África do Sul a Itália, do Afeganistão ao Congo, o autor cujo novo livro se intitula Viajar é fácil mostra-nos dez fotos que provam isso mesmo. Ainda que hajam sempre alguns percalços pelo caminho (veja-se a última foto), Gonçalo Cadilhe enfrenta-os com senso de humor e, talvez por isso, mais do que pelas companhias aéreas lowcost e pelo Tratado de Schengen, viajar lhe seja tão fácil.