Nelson Garrido

Portugal e os passadiços: amor à primeira vista?

Os passadiços do Paiva trouxeram para a ribalta essas estruturas de madeira que se erguem por entre a paisagem permitindo usufruir dela de ângulos antes impossíveis. Há projectos acabados de estrear, outros ainda a começar a construção. Começamos hoje um percurso por alguns destes passadiços: para um Verão na natureza e em forma.

Em 2015, Arouca, concelho encaixado na serra da Freita, saltou para o palco mediático. Os passadiços do Paiva tornaram-se a grande coqueluche do turismo nacional, atraindo multidões de todo o país que vinham caminhar na margem esquerda do rio Paiva – com o atractivo extra de passear “por zonas impossíveis”, zonas “onde se calhar nenhum humano tinha andado antes”, nota Nuno Martins Melo, o arquitecto responsável pelo projecto.

Esta é, na opinião do arquitecto que viu o seu projecto dos passadiços do Paiva vencer o Prémio Nacional de Arquitectura em Madeira de 2017 (PNAM’17), atribuído no final de Junho (e que já tinha ganho os World Travel Awards como projecto mais inovador da Europa), a “mais-valia” destes passadiços. “Muitas vezes dizem-me que a parte mais interessante do percurso é quando se anda pelo passadiço”, conta, “porque dá uma sensação diferente.” “Apesar das rotas e trilhos que já existem há muito tempo, são os passadiços que emprestam uma dimensão diferente à experiência.” Uma experiência indelevelmente ligada à natureza: a ideia nestes passeios é caminhar por zonas sem intervenção humana e, quando esta existe, deve ser para potenciar a experiência ou para proteger a própria natureza, diz. “Como nos passadiços mais habituais, aqueles à beira-mar pelas dunas”, explica.

Sim, em Arouca não se inventou a roda, ou seja, o conceito dos passadiços de madeira. Eles já existiam um pouco por todo o país e, sim, estamos habituados a vê-los a insinuarem-se pelas formações dunares ou resvés areais unindo praias, mas também em percursos junto a rios, por exemplo. Contudo, algo mudou com os passadiços do Paiva. Há projectos entretanto concretizados que se tornaram ícones – veja-se o da Foz do Arelho, da arquitecta Nádia Schilling que tem apenas 800 metros e foi escolhido para integrar o Atlas of World Landscape Architecture – e outros anunciados com uma ambição que vai além do que já conhecíamos. Os exemplos dos passadiços de Castelo de Paiva, 14 quilómetros ao longo do rio Douro cujas obras deverão estar a arrancar, os do Pulo do Lobo (sobre o rio Guadiana, em Serpa) também com obras prestes a começar e conclusão prevista para o final do ano, e os do Mondego (Guarda), 11 quilómetros a inaugurar total ou parcialmente em 2020, são eloquentes. Curiosamente, também é Nuno Melo o autor do projecto dos passadiços do Mondego e ainda de outro passadiço que nascerá em Vale de Cambra, bem perto de Arouca, no rio Caima. Os princípios serão os mesmos, fazer percursos de um determinado sítio a outro: na existência de rotas e trilhos, não intervir; em zonas impossíveis de andar, criar zonas de madeira que o permitam (“esse é o grande repto”). O que vai diferir é a a concretização. “Os desafios, as zonas, as características são diferentes. Não podemos replicar o mesmo projecto por todo o país”, avisa.

Nuno Melo não estabelece um antes e um depois dos passadiços do Paiva. Mas, reflecte, parece que depois dos do Paiva “a própria palavra passadiço ganhou outra força”. Isso talvez tenha sido porque “o conceito em si mesmo dos passadiços do Paiva era diferente”. “Pela dimensão, pela imagem e pelo marketing da câmara de Arouca.” Não sabe se estes passadiços são os maiores (não são), mas os desafios topográficos eram grandes; sabe que “houve um investimento maior no desenho do passadiço” (“o PNAM’17 é um próprio ao próprio desenho”, sublinha) e na promoção da autarquia, “desde o conceito até à abertura”. Foi, aliás, a câmara que deu o nome, “passadiços”, ao projecto, que no concurso público surgia designado como “várias infraestruturas ao longo do rio Paiva”, discriminando-as depois. “É a gestão de rótulos.”

A gestão parece ter sido exemplar e muitos parecem pensar: “Se resultou ali, por que não aqui?”. Não surpreende Nuno Melo, que recorda que a região de Arouca estava praticamente esquecida e a partir do momento em que os passadiços entraram em funcionamento ganhou nova projecção. “Faz toda a diferença. Há necessidade, em determinadas regiões, de rentabilizar o território, criar postos de trabalho, gerar riqueza.” Em Arouca, essa necessidade de novos investimentos uniu-se às novas tendências das corridas, das caminhadas. E à ideia de sair para a natureza para fazer exercício físico. “Juntou-se tudo.”

Se é para continuar, tudo dependerá de vários factores. A afluência poderá diminuir, os novos passadiços podem não ter a frequência dos do Paiva. Mas isso só daqui a alguns anos se poderá avaliar. Por enquanto, pelo menos, parece que os passadiços estão na moda – e recomendam-se. Por isso, a Fugas inicia hoje uma minivolta a Portugal através dos seus passadiços: para um Verão na natureza e em forma. Começamos com os de Esmoriz, inaugurados formalmente no primeiro fim-de-semana deste mês.