O tempo perguntou ao tempo quanto tempo se tem na Tailândia

Dois dias em Banguecoque e seis em praias de postal ilustrado, com escolhas difíceis para fazer: um mergulho na praia ou na piscina privada? Não somos donos disto tudo, mas somos praticamente donos do tempo. E isso é tão bom que quase levitamos.

Já podemos ter ido ao Brasil, Cabo Verde e São Tomé; ao Peru, à Polónia e ao Paraguai, até mesmo à Tailândia, há quatro anos. Só que nunca (ou muito raramente, é melhor assim) conseguimos viver os lugares, senti-los como se impõe, comer o que comem (e onde comem) os que lá vivem, deambular sem regras nem pressões do relógio. Quem faz este tipo de viagens sabe que o problema é sempre o mesmo: tempo. Ou falta dele.

Desta vez, porém, a proposta era diferente: Banguecoque ia saber-nos a pouco, dois dias mal contados não chegam para nada numa megametrópole de 12 milhões de habitantes; Koh Samed, a ilha-recreio da capital tailandesa, seria uma experiência de transição, a preparar-nos para desligarmos a ficha; e em Koh Kood, finalmente, seríamos donos do nosso tempo.

“Esta é uma viagem de experiências, de sentimentos. Primeiro vamos à confusão de Banguecoque e quando chegarmos a Koh Kood queremos que sintam o que é não ter mais nada para fazer senão relaxar”, explicara Rosário Louro, representante da Autoridade de Turismo da Tailândia em Portugal. Primeiro estranhámos, depois entranhámos. Porque não? Fomos em busca de tempo.

Se em Banguecoque sentimos que de facto o dia precisava do dobro das horas, em Koh Samed já demos por nós com dilemas deste género: mergulhamos na praia ou na piscina da nossa villa? Vamos ver o pôr do sol ou fazer uma massagem? Em Koh Kood: fazemos meditação ou comemos gelados artesanais? Ioga pela manhã ou corremos já para o mar? Pequeno-almoço na copa das árvores ou um passeio pela ilha?

É fácil apanhar o jeito para fazer estas escolhas. Não somos os donos disto tudo, mas somos (mais ou menos) donos do nosso tempo. E foi assim que, durante seis dias, tivemos tempo para estar na praia com gente e sem gente; para ficarmos a boiar e a olhar para as nuvens; para decidirmos sair do mar porque a pele já estava engelhada e desistirmos no último segundo, quando já só tínhamos água pelos tornozelos e quisemos mergulhar mais, boiar mais, nadar mais.

Tivemos tempo para contar as almas que estavam na praia às 17h — e éramos só quatro, mais os empregados do hotel que varriam (ajeitavam é mais o termo) a areia; para sairmos do mar e nos enrolarmos numa toalha azul, subir ao quarto, meter a chave na fechadura, deixá-la ficar assim, pendurada na porta, e dar só mais um mergulho, só mais um, na piscina praticamente privada que temos à disposição. Também tivemos tempo para ler na varanda e na praia a adivinhar o pôr do sol; para ir ao spa fazer uma massagem, beber um chá antes e outro depois. E o tempo ainda chegou para voltarmos ao quarto, tomar um duche sem pressas e jantar na praia a olhar as estrelas.

É tudo uma questão de tempo, realmente. (E dinheiro, claro.) Agora sobra-nos tempo para contar como foi.

Koh Samed, tempo

Tinham-nos dito, lembram-se?, que esta era uma “viagem de sentimentos”. E o medo é um sentimento, logo estamos a cumprir o programa.

Acordamos às 4h50 com um dilúvio. E, pouco depois, os trovões começam a estourar sem dó nem piedade. Debaixo da rede mosquiteira que protege a nossa cama, ainda resistimos alguns minutos a ir ver o espectáculo, mas o som acaba por tornar-se magnético. Corremos as cortinas e pensamos que toda a água do mundo deve estar a cair aqui, uma senhora tempestade. No céu riscam-se relâmpagos atrás de relâmpagos. E sempre aquele “cabruuuum” que até faz estremecer a nossa villa. Se calhar não é medo, é respeito, voltamos para os lençóis mas damos voltas e voltas até pegarmos no sono de novo. “Cabruuuuum”. 

Duas horas de pestana aberta. E sentimos que acabámos de adormecer quando o despertador toca, às 8h15. Continua a chover, mas muito menos.

Estamos no Paradee Resort, na ponta sul de Koh Samed. Pela sua proximidade com Banguecoque — umas duas horas e meia por estrada até Rayong, mais uma travessia marítima que dura entre 20 a 30 minutos, consoante o barco que se apanhe no cais de Ban Phe —, esta ilha é muito popular como destino de fim-de-semana para quem vive na capital tailandesa e arredores. É também muito procurada por mochileiros, que alugam os bungalows com vista para o mar ou camuflados na floresta, que aqui é densa e protegida — Samed está inserida numa reserva nacional. Há uns 20 ou 30 anos, não havia hotéis nem estradas.

A ilha, com 13 quilómetros quadrados, é um protótipo das ilhas tailandesas: um mar quente e parado (esta costa encontra-se no golfo da Tailândia), praias de areia branca, coqueiros e palmeiras e pouco mais. Apesar de ser um destino importante para os jovens de Banguecoque, que muitas vezes a escolhem como viagem iniciática logo depois de terminarem os estudos, Samed parece ainda não ter sido grandemente descoberta pelo turismo de massas internacional (a afluência é sobretudo nacional; entre os estrangeiros, destacam-se os chineses, o mercado europeu, por exemplo, ainda está muito pouco explorado). Está a léguas das hordas de turistas de Koh Samui, também no golfo, ou de Phuket, no mar de Andamão.

Até porque, apesar de reunir todos os clichés de postal ilustrado, sai ainda mais ou menos ilesa da indústria turística. Há vários hotéis — só o grupo Samed Resorts, que detém o Paradee, tem mais seis —, restaurantes e bares, mas a uma escala relativamente comedida. “As autoridades preocupam-se com a sustentabilidade da ilha, são muito cuidadosas no licenciamento de novos empreendimentos”, há-de dizer-nos Pornthep Hantrakarnpong, o director do Paradee.

Uma volta rápida pela principal vila da ilha, Nadan, na ponta norte de Samed, aonde aportam a maioria dos ferries que chegam do continente, permite perceber várias coisas: há poucos carros, mas muitas motas; alguns bares que servem comida pouco exigente, mas com música sempre nas alturas, não fosse esta, já se disse, a ilha-recreio de Banguecoque, que dista daqui 220 quilómetros; as lojas que se distribuem pela Main Street, nome pomposo para uma rua pequena que se percorre em menos de cinco minutos, vendem o básico dos básicos — comprar souvenirs, por exemplo, não é nada fácil, a não ser que se queira optar por vestidos de praia ou chinelas que tanto podiam ser compradas aqui, na China ou em Portugal.

É certo que estamos na época baixa (a nossa viagem decorreu em Julho, temporada das chuvas) e alojados num dos mais exclusivos resorts da ilha, mas ainda assim, pelo que vimos, Samed pode muito bem ser um reduto de tranquilidade — sobretudo se estivermos, como estamos, na ponta sul, muitíssimo mais resguardada da ocupação hoteleira. Comprovamo-lo nesta manhã que se vai limpando das marcas da tempestade. Pelas 10h, quando andamos a conhecer os cantos à casa, alguns empregados varrem a praia Kiew Na Nok, como que a pôr no sítio certo cada grão desta areia que é mais fina que farinha. De resto, mais ninguém. Ao mar ainda lhe falta aquele tom Photoshop, mas dêem-lhe tempo: mais umas duas horas e estará num esplendor azul-turquesa que quase cega.

Por agora, vamos em volta tirar as medidas a este Paradee, um resort com 40 villas que se espalham pela frente de praia e pelos jardins luxuriantes onde contamos espécies que vão dos jacarandás às helicónias — e mais não sabemos nomear. A mais impressionante de todas é, claro, a Suite Villa, mas a nossa, uma Garden Villa, mais do que dá para os gastos: no exterior, um alpendre com mesa e duas espreguiçadeiras com vista para a piscina que partilhamos com os vizinhos do 305; dentro de portas, uma sala com um sofá encostado à janela e uma cadeira de vime tailandês.

O quarto é enorme e domina-o o tecto alto de madeira de teca, à volta da cama uma rede mosquiteira absolutamente essencial (o clima é propício aos insectos e outra sorte de bichos…). A casa de banho merece nota: a banheira, de tamanho XL, lembra o ambiente de um hamman, mas é o chuveiro ao ar livre que mais se destaca. Ainda em Rayong, quando esperávamos pelo barco que nos levaria à ilha, pudemos escolher, nos escritórios do grupo Samed Resorts, as fragrâncias que queríamos no quarto: pedimos ambientador de lavanda e sabonetes de chocolate negro, e cá estão eles.

São detalhes como este que fazem a diferença num hotel, nota, durante a conversa que mantemos na biblioteca, o director do Paradee, Pornthep Hantrakarnpong, ele que faz questão de escrever, à mão, uma carta de boas-vindas e de despedida a cada hóspede. “Dear khun [senhora] Sandra, my warm welcome to Paradee…”

Há outros pormenores que Pornthep não deixa ao acaso: sempre que pode, está na praia a receber os clientes que chegam. Ele e outros elementos do staff, entre os quais o pessoal da cozinha, das relações públicas ou da limpeza. Quando chegámos, ainda do barco vimos umas dez pessoas alinhadas no areal com sorrisos rasgados. E quando o cais improvisado, puxado por um tractor, entrava na água para nos permitir a saída, já ouvíamos sawaddee ka, o cumprimento mais usado na Tailândia, num coro bem afinado. “Os negócios correm melhor se os hóspedes estiverem satisfeitos”, diz Pornthep que, aos 68 anos, já acumulou experiência em vários hotéis de renome, na Tailândia e fora dela.

Nascido em Banguecoque, estudou Belas-Artes nos Estados Unidos, para onde se mudou aos 21 anos. E foi lá que teve o primeiro emprego no ramo da hotelaria, num Sheraton. Começou como bagageiro. Quando regressou à Tailândia, trabalhou no icónico Mandarin Oriental, primeiro como recepcionista, e depois progrediu na carreira. Foi no Mandarin que aprendeu a “estar atento a todos os detalhes”, a “conhecer os hóspedes pelo nome”. Teve outros empregos, passou por outros hotéis, até que chegou ao Paradee, um resort com o tamanho ideal (alberga um “máximo de 80 hóspedes”, explica) para poder trabalhar e fazer o que gosta: “Estar com as pessoas”, sorri. Não raras vezes, aproveitando a sua formação em Belas-Artes, retrata os hóspedes e depois manda entregar-lhes os desenhos no quarto. Ri-se de novo e pega no telemóvel para nos mostrar alguns desses seus trabalhos, caras esculpidas a lápis em folhas brancas.

Despedimo-nos de Pornthep e entretanto já parou de chover. Olhamos em volta e pensamos: quem diria que, depois desta noite, o mar ia obter esta tonalidade e o sol ia queimar desta forma? Abriu por volta do meio-dia e foi a essa hora que nos esticamos na espreguiçadeira protegida dos raios pela sombra de uma árvore a escutar o embalo bem suave da única ondinha que rebenta junto à praia. De vez em quando, vemos o barco com hóspedes que chegam ou partem, os funcionários a dizerem-lhes adeus.

Para além de nós, só cá estão mais sete pessoas, sobretudo de molho na água. É para onde vamos, sem pressas de qualquer espécie. Entramos e saímos as vezes que queremos. Vamos almoçar com o biquíni molhado porque não lhe damos tempo para secar. E estamos de novo na praia, um olho num livro e outro simplesmente a ver este tudo que é tão pouco (ou será o contrário?): sol, mar, uma ilhota no horizonte. Dizem-nos que para o outro lado da ilha, na praia Kiew Na Nai, o pôr do sol é imperdível. Basta-nos cruzar o resort de uma ponta a outra para lá chegarmos. Três ou quatro minutos. Viemos cedo de mais, mas temos a vantagem de não estar cá vivalma. Sentamo-nos numa cadeira no deck, fechamos os olhos e deixamo-nos ficar longos minutos. Marcámos uma massagem sueca com a terapeuta Yaree que nos há-de deixar nas nuvens, mas ainda temos tempo para isto. O tempo, aqui, corre a nosso favor.

Koh Kood, tempo e espaço

Já praticamente sem memórias do bulício de uma cidade, deixamos Samed para trás e vamos esconder-nos na selva de Koh Kood, a quarta maior ilha da Tailândia (162 quilómetros quadrados) mas uma das menos populosas: dados de 2007 apontavam para pouco mais de 2000 habitantes. A viagem ainda é longa: 20 minutos de barco até Rayong, duas horas e meia por estrada até Laemsok, na província de Trat, (trânsito, buzinas, engarrafamentos, socorro!), e daqui mais uma hora a sulcar as águas azul-turquesa do golfo da Tailândia. Entretanto, bem-vindos ao Soneva  Kiri. Ou, se preferirem, welcome to the jungle.

Koh Kood, lêramos no Lonely Planet, é uma espécie de refúgio de uma elite que procura a experiência do isolamento. Assim que desembarcamos percebemos porquê, mesmo que só tenhamos tido ainda um relance da ilha: a vegetação é densa, floresta tropical húmida; as águas cristalinas antecipam experiências memoráveis e, mais do que tudo, parece até que as villas deste Soneva Kiri, a derradeira experiência do luxo ecológico na ilha, sempre estiveram integradas na paisagem. Dá a impressão de termos toda uma ilha para nós, como se à volta não estivesse mais ninguém. Ao tempo que nos prometeram, juntaram-lhe espaço.

Chegamos ao Soneva numa hora de sol forte, o que ajuda a dourar o cenário: a areia fina resplandece, faltam-nos adjectivos para o azul do mar e o verde da vegetação parece ter sido retocado de propósito. Não vemos a hora de cair na água, de boiar de olhos bem abertos para este céu que não acaba. Antes, porém, vamos conhecer a Amp — “De amplifier”, ri-se ela —, que nos recebe descalça no deck sobre o mar. Só mais tarde percebemos a ausência de sapatos. A filosofia do resort, que abriu em 2009, é esta: no news, no shoes. Isto quer dizer que os hóspedes também são convidados a andar de pé descalço (não, obrigada) e que a televisão do quarto, escondida numa enorme mala de viagem, só funciona com vídeos pedidos na recepção. Internet há, mas não em todo o lado, e a rede de telemóvel também não é universal.

Ficamos alojados na villa 61, composta por quatro quartos e uma piscina comum. A vista para o mar é incrível e depois ainda há uma infinidade de salas: duas ou três no segundo andar, uma de bilhar, uma pequena copa e um ginásio, e na volta ainda não vimos tudo. Algumas casas de banho são praticamente ao ar livre, resguardadas por uma paliçada de bambu, material que, aliás, está em grande destaque neste eco-resort de 150 hectares por onde nos deslocamos de buggy (também podemos optar por bicicletas). Se é um eco-resort, isto quer dizer, claro, que há aqui bichos com fartura, mas preferimos não pensar nisso, pelo menos por enquanto.

Ou pelo menos até que Amp decida informar-nos da presença de uma cobra. Sobressaltamo-nos, mas ela, a rir, explica que é verde e que “está tudo bem”. “Verde ou vermelha, ok; se for preta, grite!”. Definitivamente, não estamos mais descansados, Amp. Não temos, portanto, outro remédio que não seja entrar neste espírito Robinson Crusoe completamente assumido: até os mordomos à disposição de cada uma das villas se chamam Mr./Ms. Friday. Amp é a nossa Ms. Friday, certo.

Algumas das 36 villas do Soneva Kiri têm acesso directo ao mar, mas “a” praia está a uma curta travessia num barco sempre à disposição dos hóspedes. Bastam menos de cinco minutos para chegarmos ao idílio. Escolhemos uma espreguiçadeira protegida do sol por uma fiada de coqueiros e corremos para a água, quente que quase nem refresca. Tínhamos prometido boiar e é o que fazemos, olhos fixos num céu azul pontilhado por algumas nuvens (ainda há-de chover forte enquanto aqui estivermos, mas não é agora e na verdade a chuva não vai incomodar, antes pelo contrário). Ficamos dentro de água a pensar que esta imensa piscina cristalina, onde de vez em quando vemos cardumes de peixes listados, nos pertence por inteiro: há pouco, os quatro outros hóspedes do Soneva Kiri apanharam o barco, deixando-nos sozinhos nesta praia do Norte. Bom, na verdade somos nós e meia dúzia de galinhas esguias que esgravatam a terra, mais dois cães que dormem à sombra das árvores.

Perdemos a noção do tempo, mas estamos no mar até que os dedos das mãos quase desapareçam de tão encarquilhados. Os três funcionários que connosco permanecem na praia servem-nos água fresca e espetadas de fruta. Precisaremos de mais?

A não ser que nos ofereçam uma massagem no spa e, a seguir, uma aula de meditação que nos mostra que, afinal, talvez seja possível levitar.

Quando subimos as escadas de madeira que nos levam à sala camuflada pelo arvoredo já Vinay Kaushik está sentado no colchão. Imitamos-lhe a postura e ouvimo-lo explicar que o que hoje vamos praticar é ioga nidra — um estado de consciência entre o sono e o despertar que permite um relaxamento total do corpo. Deitamo-nos no colchão e a partir de agora simplesmente obedecemos à voz do indiano Vinay. “Fechem os olhos e concentrem-se na respiração.”

O canto dos pássaros e o restolhar das folhas das árvores torna-se cada vez mais longínquo e a voz suave mas firme de Vinay encaminha-nos para o lugar certo. “Concentrem-se no lado direito do vosso corpo”, pede o professor — e não é que o corpo obedece e quase se levanta sozinho? “Pensem no vosso joelho direito”, e o joelho parece ter vida própria e erguer-se ao comando de Vinay. O mesmo com o braço, o cotovelo, o ombro. O que é que se passa aqui?

Passamos ao lado esquerdo e a experiência é praticamente a mesma. Quando Vinay pede para olharmos para o nosso corpo como um todo, é realmente quase como se o estivéssemos a ver de fora. Repetimos: alguém sabe explicar-nos o que é que se passa aqui?

Ninguém sabe, por isso arriscamos nós uma resposta: talvez tenhamos tido, finalmente, tempo para sair do nosso próprio casulo. Dito isto, estamos preparados para o que o tempo ainda tem para nos oferecer. Por exemplo: esta noite, depois de assaltarmos a gelataria e a chocolataria do Soneva (ambas quase imorais de tão boas, os chocolates então…), ainda iremos à Lua, cortesia do observatório do resort onde, graças a um potente telescópio, a conseguimos ver grande, redonda, próxima, linda no seu esplendor quase cheio. E também vemos Saturno, mais pequenino, mais distante, emoldurado nos famosos anéis. Mais tarde, porém, iremos do céu praticamente ao inferno, quando quisermos abrir a porta do quarto e tivermos à espera um gigantesco (bom, isso dependerá do medo de cada um…) lagarto, aos nossos olhos seguramente uma ameaçadora iguana. Resta-nos gritar por ajuda, que chega na forma de um companheiro de viagem (obrigada, Nuno!) que monta guarda à porta e se certifica que o visitante não entra no quarto. Pela primeira vez desde que chegámos à Tailândia, dormimos com o ar condicionado a bombar — dizem-nos que assim os bichos se afastam. Fechamo-nos na rede mosquiteira e, quase heresia, subimos o edredão até às orelhas. Amanhã é outro dia.

Despertamos cedo, quase a tempo de ver o sol levantar-se. Temos a piscina só para nós, convidativa — ela e um escorrega ao qual não conseguimos resistir. Só uma descida. E outra, depois outra, que não há duas sem três. Ainda nos esticamos na espreguiçadeira a ler e a olhar para o mar e as palmeiras de filme. Tudo isto antes do pequeno-almoço na copa das árvores. Entramos numa espécie de ninho de bambu gigante, com capacidade para quatro pessoas, que sobe a uma altura de uns 10 metros puxado por cabos. A comida — fruta fresca, sumos, salmão, pães diversos, croissants, queijos — há-de chegar às costas de um funcionário que se desloca entre as árvores de slide. Nós só temos de comer e apreciar a paisagem esmagadora. Nada mal para começar o dia.

Vista daqui, do refúgio do Soneva, a ilha parece perfeita — mas e o resto? Queremos conhecer (espreitar, pelo menos) Koh Kood para além dos resorts onde se vivem dias de sonho. Kanya é o nosso motorista e praticamente não fala inglês. Vamos desbravando a estrada aberta no meio da vegetação densa e vendo casas com tijolos a descoberto, algumas guest houses, um cabeleireiro, um campo de futebol. Kanya aponta-nos a biblioteca, a escola secundária, o hospital onde trabalha um médico. A custo, lá percebemos que o banco chegou à ilha há quatro meses.

Continuamos até Ao Salad, na costa nordeste de Koh Kood. É uma pequena vila piscatória, palafítica, e aqui nota-se bem a vizinhança: bastam poucos minutos junto ao mar para perceber que os habitantes, poucos, são uma mistura de tailandeses e cambojanos — o Camboja é mesmo aqui ao lado. Praticamente todas as famílias vivem da pesca ou de actividades que gravitam à volta dela. Mal chegamos, damos de caras com umas redes azuis onde seca o camarão — e daqui a pouco vemos camarão seco à venda dentro de frascos por 460 bahts (cerca de 11 euros). Há quem lave búzios com escovas de dentes e sorria, e quem não levante sequer os olhos das redes que vai reparando à medida que nos aproximamos e perguntamos se podemos fotografar. Os miúdos entretêm-se a saltar para a água.

Fora da linha de mar, Ao Salad é praticamente nada. Há um buda gigante a rasgar as árvores e quando nos aproximamos percebemos que o templo ainda está em construção. De resto, um restaurante que serve peixe e marisco e um cartaz amarrado a um poste de electricidade anuncia um bungalow por 500 bahts (12,70 euros) “com casa de banho privativa e chuveiro com água quente”. Há também uma pequena mercearia, que vende desde o inevitável Tiger Balm a frutas secas, passando pelos búzios que vimos há pouco. O site explorekohchang.com descreve Ao Salad, e também Ao Yai, outra vila piscatória, esta no sudeste da ilha, como “uma janela para a vida local nesta parte do globo” e cruza os dedos para que o turismo, que “felizmente” ainda é pouco, não lhe altere muito a fisionomia. 

Voltamos ao resort. Estamos no nosso último dia na ilha, levantamos voo daqui a poucas horas no avião privado do Soneva Kiri (há seis voos por dia para Banguecoque a partir do minúsculo aeroporto; o aparelho, com capacidade para oito passageiros e dois tripulantes, leva uma hora para chegar à capital tailandesa e pelo caminho sobrevoa as ilhas e os imensos arrozais), mas ainda vamos acompanhar Martijn van Berlo numa visita pelo ecocentro. “Esta ainda é uma ilha remota, de natureza intocada”, explica o biólogo holandês que trabalha no Soneva como “naturalista” desde Fevereiro de 2015. Saiu-lhe uma espécie de sorte grande: estava em Banguecoque, de mochila às costas, quando conheceu “alguém” que lhe ofereceu trabalho em Koh Kood. “Foi o meu primeiro emprego a sério.”

Hoje é ele o responsável pelo ecocentro do resort, onde, por exemplo, se procede à transformação do óleo usado nas cozinhas em biodiesel. “Uma das grandes preocupações do Soneva é manter e melhorar a sustentabilidade”, garante Martijn. Mais um exemplo: “Esta ilha tem um elevado número de cães, que, não sendo maltratados, também não são muito cuidados pela população. Estavam a reproduzir-se de forma descontrolada e nós, em articulação com uma equipa de veterinários de Phuket, procedemos à sua esterilização. Eram cerca de 800 cães, 750 já estão esterilizados. É o melhor para todos”, refere o biólogo.

Despedimo-nos de Martijn e daqui a pouco despedimo-nos do Soneva, de Koh Kood, da Tailândia dentro de algumas horas. Mas ainda queremos comer mais um gelado (chocolate negro e limão, por favor) e dar os derradeiros mergulhos. Teremos tempo?

O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo o tempo tem.

Banguecoque, pouco tempo e muito para ver

Uma viagem de Portugal para a Tailândia implica quase sempre uma paragem em Banguecoque. Mesmo quem tem como objectivo principal descobrir as praias do golfo da Tailândia ou do mar de Andamão deve aproveitar a escala para descobrir a capital. A jornada será tão mais longa consoante os dias que se dediquem a Banguecoque, uma metrópole onde vivem 12 milhões e com muita coisa para ver.

Desta vez, naquela que foi a nossa segunda visita, nem dois dias inteiros ficámos em Banguecoque. Não dá para nada, nem para a cova de um dente. Fiquemo-nos, então, pela visita ao mercado de Chatuchak — que, nem de propósito para quem tem tão pouco tempo, é um dos maiores mercados de rua do mundo. São 14 hectares de tendas e lojas, perto de 10 mil, onde se vende tudo. Pense, por exemplo, em cães, gatos, peixes e tartarugas: estão lá; em sabonetes artesanais, também; em antiguidades, idem; em roupa, livros, calçado; em ananases bem pequeninos vendidos em sacos de plástico; em flores e plantas; em inaladores de ervas para as vias respiratórias; em música; em bijuteria; em imitações de marcas finas mais ou menos perfeitas. Chatuchak, o mercado que há 66 anos funciona aos sábados e domingos das 9h às 18h, tem tudo e um par de botas. E se estas  estiverem a magoar os calos, também tem massagens aos pés, 30 minutos por 150 bahts, não chega a quatro euros, numa tenda climatizada e com Wifi.

Portanto, só tem mesmo de se fazer à estrada e seja o que os deuses quiserem. Todos os guias dizem que é bom chegar cedo, que Chatuchak pode ser um inferno (há dias em que passam por aqui 200 mil pessoas), mas a nossa experiência foi bem mais tranquila. Chegámos pelas 10h e o calor era o que mais oprimia. O mercado está dividido por secções, para tornar mais fácil a orientação de quem vai às compras com objectivos específicos, mas tem mais graça deambular pelas ruelas a deitar o olho às bancas. Regatear é obrigatório, mas também é uma arte. E se porventura comprar mais do que devia e se acabarem os bahts, os vendedores, mesmo que não tenham um terminal, arranjam uma maneira (segura) de pagar com cartão.

Também há comida em Chatuchak, mas neste particular tem muito mais interesse o vizinho mercado de Or Tor Kor, que é um regalo para os olhos. As frutas compõem uma paleta bem colorida, e entre elas contam-se cocos, mangostões, melancias e durian, uma espécie de fruta nacional da Tailândia. Olga, a nossa guia, comenta que hoje está muito caro, o durian. “Cento e oitenta bahts por 100 gramas”, 4,60 euros. Também há arroz, todo um sortido de especiarias, uma miríade de frutos secos, fios de ovos, herança da presença portuguesa na Tailândia no século XVI, carne grelhada, peixe frito.

De resto, em Banguecoque é também obrigatória uma visita ao Palácio Real, residência oficial da família real tailandesa mas que é, antes de tudo, um notável conjunto de templos e edifícios. A não perder o Wat Phra Kaew, onde está o famoso Buda Esmeralda, e o Wat Pho, onde se encontra o Buda Deitado (46m de comprimento, 15 de altura). Está bem de ver que o complexo é um formigueiro de turistas, razão pela qual é aconselhável chegar cedo e com roupa apropriada — grande parte destes lugares são considerados sagrados, pelo que pernas e braços à mostra não são permitidos.

GUIA PRÁTICO

Quando ir

A melhor altura para viajar para a Tailândia é entre Novembro e Fevereiro. De qualquer forma, a estação das chuvas (de Julho a Outubro) pode não ser tão má quanto isso, sobretudo dependendo da zona da Tailândia para onde se viaja: há com certeza menos turistas, os preços são mais acessíveis e nalgumas partes do país a vegetação é ainda mais luxuriante. Certo, certo é que apanhará sempre calor.

Como ir

Há no mercado várias hipóteses para voar até Banguecoque. A Fugas viajou com a TAP até Roma e, daqui, com a Thai Airways até Banguecoque (cerca de dez horas de viagem). Uma simulação feita para os primeiros dias de Outubro devolveu preços a rondar os 950 euros.

Onde dormir

Em Banguecoque, experimentámos (e mais do que aconselhamos) o Okura Prestige, que tem quartos e suítes para todos os gostos. Os quartos Deluxe Corner, como era o nosso, no 26.º andar, oferecem uma panorâmica incrível sobre a cidade, graças a janelas que se rasgam em todas as paredes. Quem quiser pode dormir e acordar com Banguecoque aos pés — e à cabeça. A cereja no topo do bolo deste hotel de um grupo japonês é, contudo, a piscina infinita no 25.º andar. Um duplo Deluxe Corner com pequeno-almoço pode reservar-se por cerca de 160 euros.

The Okura Prestige Bangkok
57 Wireless Road, Lumpini, Pathumwan
Bangkok 10330
Tel.: +66 (0)2 687 9000; fax: +66 (0) 2687 9001
Email: info@okurabangkok.com
www.okurabangkok.com
Em Koh Samed, experimentámos, como já se disse, o Paradee. Até 31 de Outubro, as Garden Villas custam cerca de 570 euros por noite (duas pessoas). A partir dessa data, os preços sobem mais e mais. Nalguns períodos, são exigidas pelo menos três noites de estadia. Para pacotes de uma semana, por exemplo, os valores serão reajustados.

Paradee Resort
76 Moo 4, Tumbol Phe, Amphur Mueng, Rayong 21160
Tel.: +66 038-644 285-7; 061-4138465; 061-4138466; 061-4138467; fax : 038-644 282
Email : rsvn@paradeeresort.com
www.samedresorts.com/paradee

 

Já o Soneva Kiri, em Koh Kood, tem preços a começar nos 802 euros por noite nas acomodações mais pequenas, para o período de 12 de Maio a 30 de Setembro do próximo ano. Este valor refere-se ao alojamento para duas pessoas e pequeno-almoço. Mas os preços podem içar-se até aos 3200 euros, para estadias de 20 de Dezembro até 13 de Janeiro.

Em todos os casos, deixamos apenas preços indicativos. O melhor mesmo é contactar directamente os hotéis.

 

Soneva Kiri
110 Moo 4, Koh Kood District, Trat 23000
Tel.: +66 (0) 82 208 8888; fax: +66 (0) 3961 9808
Email: reservations@soneva.com
www.soneva.com/soneva-kiri

 

Onde comer

Na Tailândia a resposta só pode ser uma: praticamente em todo o lado. A gastronomia do país é muito rica e afamada e a qualidade da comida de rua, embora varie muito, naturalmente, é de recomendar. Os preços, para as bolsas ocidentais, são bastante comportáveis: na rua consegue comer um pad thai, o prato “nacional” feito com noodles, por menos de três euros. Depois há o reverso da medalha: os muitos restaurantes que elevam a cozinha tailandesa a um patamar de estrelato.

Em Banguecoque, há várias dessas moradas. As que experimentámos incluem o Long Table, instalado num 25.º andar com uma vista soberba para a cidade, e que serve refeições de antologia (preço médio por pessoa: 30€). Tem a particularidade de ter aquela que se assume como a “maior mesa de refeições” de Banguecoque (25 metros) e tem também um nome completo interminável — The Long Table of Krung Thep Mahanakhon Amon Rattanakosin Mahinthara Ayuthaya Mahadilok Phop Noppharat Ratchathani Burirom Udomratchaniwet Mahasathan Amon Piman Awatan Sathit Sakkathattiya Witsanukam Prasit — que mais não é do que a utilização do nome completo da capital tailandesa. Isso mesmo: Banguecoque tem inclusive direito a recorde do Guinness por ser a cidade capital com o nome mais comprido. A tradução dará qualquer coisa como isto: “A cidade dos anjos, a grande cidade, a jóia eterna, a inexpugnável cidade do deus Indra, a cidade feliz, a grande capital do mundo que tem nove pedras preciosas, entre as quais pontifica um enorme Palácio Real que se assemelha à casa celestial onde reina o deus reincarnado, a cidade dada por Indra e construída por Vishnukarma.” Não admira, claro, que a designação oficial da cidade nunca seja usada — já agora, informa por email a Destination Asia, os locais raramente se referem à sua cidade como Banguecoque, preferindo a fórmula original abreviada: Krung Thep.

O Issaya também vale muito a visita. Pela qualidade da comida, claro, mas também pelo próprio espaço, onde se destaca a sala principal, sim, mas igualmente as do andar de cima, mais pequenas, que permitem, por exemplo, refeições mais privadas (preço médio: 40€ por pessoa).

Já o Sra Bua by Kiin Kiin é de outro campeonato. Fica no Hotel Kempinsky e é a extensão em Banguecoque do Kiin Kiin de Copenhaga — e este restaurante na capital dinamarquesa é “o único” tailandês no mundo com direito a uma estrela Michelin, lê-se na sua página online. Obra do restaurateur Lertchai Treetawatchaiwong e do chef Henrik Yde-Andersen, também júri no conhecido programa de televisão Masterchef, o Kiin Kiin abriu em 2006 e ganhou entretanto o reconhecimento dos inspectores do Guia Vermelho. Em Banguecoque, o Sra Bua estreou-se com a abertura do hotel, em 2010, e em 2014 foi considerado um dos 50 melhores restaurantes da Ásia. Provar ao que sabe esta comida de base tailandesa vestida de nouvelle cuisine não é barato — 2900 bahts, a que acrescem 10% de taxa de serviço e outros 7% de imposto, o que há-de perfazer uns 90 euros por um menu de degustação de 11 pratos que pode durar três horas —, mas a experiência, podemos garantir, vale cada euro investido.

Em Koh Kood, aconselhamos pelo menos uma refeição no Benz, um restaurante do Soneva Kiri que toma o nome da cozinheira que Sonu e Eva, os fundadores do grupo, encontraram por acaso há 15 anos quando pediam indicações num café de beira de estrada. A comida de Benz cativou-os de imediato e a tailandesa passou a fazer parte da comunidade Soneva. Primeiro trabalhou no Soneva Fushi, nas Maldivas, agora está em Koh Kood. Tinham-nos dito que a melhor hora para visitar o seu restaurante era ao pôr do sol, mas fomos negligentes e deixámos passar a oportunidade. Já era noite cerrada quando nos sentámos na esplanada rodeada de água a provar o tempero tradicional tailandês de Benz e a experiência valeu muito a pena. A não perder.

 

The Long Table
48 Column Tower, Fl.25
Soi Sukhumvit 16, Klongtoey noe, Wattana, Bangkok 10110
Tel.: +66 2 302 2557
www.longtablebangkok.com

 

Issaya Siamese Club
Chuea Phloeng Rd, Thung Maha Mek, Sathon, Bangkok 10120
Tel.: +66 2 672 9040
www.issaya.com

 

Sra Bua by Kiin Kiin
Siam Kempinski Hotel /9, 991 Rama I Rd, Pathum Wan, Bangkok 10330
Tel.: +66 2 162 9000
www.kempinski.com

 

A Fugas viajou a convite da Autoridade de Turismo da Tailândia e da Destination Asia