Jorge Guerrero/AFP

Em Málaga também pode chover

Cidade antiga, cuidada, aprazível e com uma enorme riqueza cultural e patrimonial, Málaga surpreende pela vivência e dinâmica do centro histórico e cultura gastronómica. É claro que nunca chove, mas se essa raridade acontecer é só para lembrar que é muito mais que um destino de sol e praia.

Se alguma vez lhe disserem que em Málaga nunca chove, pode garantir que não é verdade. Nós mesmos o testemunhámos, numa tarde de sexta-feira, em inícios de Maio, quando em menos de uma hora caíram mais de 100 litros por metro quadrado. No dia seguinte, as notícias davam conta que a quantidade de chuva derramada sobre a cidade naquela hora correspondia, nem mais nem menos, a cerca de um quarto do total de chuva que chega à região durante todo o ano.

O episódio, raro como se vê, serve não só para atestar o carácter de absoluta excepcionalidade da chuva, mas ajuda também a perceber que Málaga é muito mais que o destino de veraneio que se tornou popular nas décadas mais recentes. Para lá do sol e praia, há uma cidade antiga, cuidada, aprazível e com uma enorme riqueza cultural e patrimonial.

Não fosse berço de Pablo Picasso, habitada desde as primeiras idades do homem e morada para as mais importantes culturas mediterrânicas. Aqui se instalaram longamente fenícios, gregos, romanos e árabes, e Málaga foi também uma das cidades mais importantes no tempo da expansão marítima, um dos mais activos portos do Mediterrâneo, e, mais recentemente, um marco industrial na Espanha moderna.

Ao esplendor histórico, a cidade junta um assinalável património construído, com a vantagem de que tudo isto forma um conjunto abordável e fortemente vivenciado pelos seus habitantes e visitantes. Há de tudo dentro do núcleo histórico da cidade. Do Teatro Romano às construções medievais, da alcáçova aos conventos e catedrais, até aos pomposos palacetes e casas solarengas do século XIX.

O mais palpitante é que nada disto cheira a museu ou tem apenas vida passada. Num entramado de ruas e ruelas em grande parte preservada ao tráfego automóvel, há vida, actividade, comércio e muita animação. Ao final da tarde, esta é como poucas uma cidade onde o estilo de partilha e convívio que caracteriza a sociedade espanhola melhor espelha essa movida.

Igrejas e museus misturam-se com a infinidade de bares, tascas e tabernas, a vida e a animação fervilham por entre pedras e calçadas que são testemunhos da história. Sempre num estilo muito próprio e com o orgulho local a manter bem vivas todas as tradições culturais e gastronómicas.

Neste último aspecto, a vida da cidade é até capaz de surpreender, já que a cultura gastronómica é tão fort,e e de tal maneira vivenciada, que estranha não ser essa faceta tão conhecida como o é no caso de outras capitais espanholas, como San Sebastian, Bilbao, Barcelona ou Compostela.

Para o visitante, o melhor é deixar-se perder ao final de tarde por essas ruas e ruelas, orientando-se pelo ondular do movimento dos passeantes, pelo cheiro a petiscos, o tilintar de copos ou o som das castanholas que aqui e ali atravessa os umbrais. E nem sequer será uma aventura, já que por todo o lado domina o ambiente de partilha e convívio de desfrute e conversa.

Comece por onde começar, sempre se há-de cruzar com a Porta do Mar, a Rua Nova, a comercial Marquês de Lários, as praças El Siglo, Uncibay ou La Merced, que são algumas das referências maiores dentro da parte histórica.

As linhas mais antigas de Málaga estão à vista de todos no Teatro Romano. Em grande parte preservado até aos dias de hoje e recuperado por escavações, fica de frente para a pedonal rua Alcazabilja, que se assume assim com um privilegiado varandim sobre o monumento. As bancadas foram construídas aproveitando a encosta do monte Gilbralfaro, onde está a alcaçova árabe com os seus cuidados pátios e jardins andaluzes.

A curta distância está a catedral, ou seja, “La Manquita”, como sarcasticamente os locais costumam referir-se ao templo. Esta é uma das estórias mais pitorescas da história contemporânea da cidade, contando-se que foram então desviadas para a guerra da independência dos Estados Unidos as verbas que estavam destinadas à obra de conclusão da segunda torre sineira do monumento, que está, assim, ainda hoje por concluir.

Por perto, e com isto queremos referir o máximo de uma centena de metros, está o Museu de Pablo Picasso, que sempre desejou vê-lo instalado na sua cidade mas que o franquismo nunca permitiu dada a sua reconhecida oposição ao regime. Diz-se ter sido esta a razão porque nunca quis voltar à cidade. Ocupa todo Palácio do Conde de Buenavista, com claustro e pátio andaluz, que alberga uma exposição permanente com cerca de duzentas obras do artista.

Numa cidade que se orgulha de albergar 34 museus, basta caminhar mais um pouco até atingir a Praça de La Merced, onde está a também musealizada casa onde nasceu Picasso.

É por esta zona que está uma das mais icónicas, e concorridas, tabernas da cidade. Além do evidente ar do tempo, há pipas por todo e lado e sevilhanas de bandeja na mão. Na Bodega El Pimpi há um pátio interior em cujas paredes crescem trepadeiras e a tradição flamenca emparceira com vinhos e petiscos.

Entrando pela rua Puerta Del Mar, há que parar logo na praça Felix Saenz, em cuja embocadura está a histórica Cafetaria La Malagueña. Foi recentemente recuperada, com o cuidado de manter o mobiliário e a traça de sempre, e cidade reconhece-lhe o mérito de preservar a tradição dos churros de Málaga. Ou seja, de Tejeringo ,o que significa qualquer coisa como seringa.

O mestre churreiro Juan Jesus está disposto a levá-lo à cozinha para explicar que são feitos com uma massa mais leve e delicada, que são mais finos e que a sua principal característica está no facto de serem salgados. Sim, não são doces, que é para serem embebidos no chocolate quente.

Quase em frente está a loja Ultramarino Là Mallorquina, uma das clássicas mercearias onde se encontra a melhor variedade de enchidos, queijos, conservas, frutos secos e um aroma irresistível que se desprende da variedade de presuntos que preenchem o tecto. Há também criteriosa selecção de vinhos e azeites, e até bacalhau da melhor cura. De Portugal, claro!

A um quarteirão está o La Recova, um bar que mistura o ambiente de tasca e mercearia onde é possível petiscar. Ambiente de moda, hipster, toda a espécie de objectos e artesanato retro, onde o vinho é servido à caneca, há potes de barro com moscatel e bagaço e a a tabuleta indica a “retrete”. O espaço é amplo, dividido por duas salas, mas parece estar permanentemente esgotado. Do pequeno-almoço à ceia.

Se o giro for matinal, a não perder a visita ao Mercado Atarazanas, nome que herdou do antigo estaleiro naval do tempo em que o mar por ali andava. Hoje recuou umas centenas de metros. É um mercado exemplar, recuperado, mas com o ambiente e todas as funcionalidades de sempre. Tradicional, farto e sem cedência a modas ou modernices. Limpo, asseado e a fervilhar de actividade, é o espelho da diversidade e riqueza de produtos que alimentam a cozinha local e também do gosto e culto que os locais prestam à gastronomia.

Estará, provavelmente, já cansado e com apetite. O melhor é acolher-se em Los Patios de Beatas, um bar e clube de vinhos que, pelo seu critério e representatividade, é por muitos designado como o único e verdadeiro museu de Málaga. Propriedade de um conhecido e premiado sommelier local, Julien Sanjuan, proporciona refeições com acompanhamento vínico, provas de vinhos e de azeites e a possibilidade de provar os mais 60 vinhos que são servidos a copo. O foco é a região de Málaga, mas há vinhos de todas as regiões de Espanha e de algumas das mais afamadas do mundo.

Está cansado e quer voltar ao sossego de casa ou do hotel. Para que não perca pitada da animada e divertida vida de rua, o melhor é fazê-lo a pé, já que as distâncias são sempre pequenas. Não se preocupe que não há-de chover e se por raríssima coincidência isso acontecer, não se preocupe que é só para lhe fazer notar que Málaga é muito mais que um destino de sol e praia.

Zurrapa, peixe frito e sardinhas no espeto

Petiscar é talvez a actividade mais praticada e popular na região de Málaga. A gastronomia assenta desde sempre nos peixinhos fritos, com forte implantação em bairro de tradição pescadora, como é o caso dos povoados de El Palo e El Pedregalejo. É certo que as casas de pescadores cederam o lugar a bairros turísticos ou residenciais, mas abundam ainda os chiringuitos (bares de praia) especializados em peixe frito.

Merecem um culto especial as sardinhas no espeto, cuja peculiar forma de as assar se transformou numa espécie de ícone da região. Método artesanal outrora utilizado pelos pescadores na chegada à praia, está hoje popularizado e vê-se até na montra de bares e restaurantes. É na praia, no entanto, que tem toda a sua magia e significado.

O braseiro é feito com lenha de oliveira, sendo as sardinhas colocadas num espeto de cana. O segredo está na arte de elaboração do espeto, com a navalha, e na forma como as sardinhas são trespassadas, para evitar que se rompam e caiam na areia quando começam a ficar cozinhadas. O espeto é colocado na areia, na vertical, a uma distância do calor que permita lenta assadura, e do lado de onde sopra o vento, para evitar que as sardinhas apanhem os aromas fumados.

Já todos ouvimos falar de zurrapa espanhola, mas a que se usa em Málaga não tem nada que ver com vinhos e a sua qualidade. Trata-se de um petisco à base da carne de porco, que é usado para apaladar o pão ou em saborosas tostas para, aí, sim, puxar um copo. A carne, do lombo, é assada e desfiada, sendo depois envolvida por uma massa com banha e pimentão. É com esta zurrapa, tradicionalmente guardada em alguidares de barro, que se vai apaladar o pão. Se torrado tanto melhor, para desfazer a banha e acrescentar sabor.

Caminito del Rey
Passadiço em madeira a 100 metros de altura

A menos de 50 quilómetros de Málaga está um dos spots mais procurados, um destino desafiante que mistura aventura e natureza e ao qual poucos conseguem resistir. Trata-se do Caminito del Rey, um trilho pedestre que tem uma história de mais de um século, mas que na conformação que rapidamente se tornou famosa tem pouco mais de um ano. Foi inaugurado em Março de 2015, e poucos meses depois era eleito pela influente Lonely Planet como um dos melhores sítios do mundo para visitar no ano passado.

O trilho está enquadrado numa área de paisagem natural protegida, tem uma distância total de 7,7 km, que se faz sem dificuldades de maior, mas conta um troço muito especial de 2,9 km. Trata-se de um passadiço de madeira que está garrado a uma parede vertical a altitudes que chegam a rondar os 100 metros. Além da altura, o que o faz tão especial e atractivo é o facto de acompanhar um estreito desfiladeiro no fundo do qual serpenteiam as águas azuis de um rio, num cenário verdadeiramente deslumbrante e desafiador.

O clímax está na parte final, com uma ponte suspensa a 105 metros de altura e a saída a uma altura idêntica, agarrada a um impressionante bloco de rocha voltado ao vale imenso. É como caminhar no céu a olhar a Terra.

O desfiladeiro dos Gaitanes, onde encaixa esse troço de 2,9km, liga duas barragens e um sistema de produção de energia resultantes de complexas e arrojadas obras levadas a cabo nos finais do século XIX. Necessitando de uma ligação que permitisse aos operários circular entre as duas barragens com materiais e para obras de manutenção, em 1901 a empresa decidiu construir um caminho precário cavando rocha e construindo passadiços ao longo do desfiladeiro.

Quando, em 1921, o rei Alfonso XIII se deslocou à região para inaugurar a nova barragem, terá percorrido pelo menos parte do trilho, que a partir de então ficou a ser conhecido como o Caminito del Rey.

Com o passar do tempo e a falta de manutenção, o percurso acabou por ruir em muitas secções, tornando-se perigoso e ameaçador. Ora, foi precisamente essa ameaça que virou desafio para amantes da aventura de todo o mundo, que a partir dos anos 1990 o converteram num dos mais procurados destinos de aventura.

Era conhecido como o percurso mais perigoso do mundo e as autoridades decidiram até destruir a parte inicial para impedir o acesso e estabelecer pesadas multas para quem se aventurasse. Ora, aquilo que pretendia ser um obstáculo acabou por funcionar como incentivo, fazendo aumentar a fama de perigosidade e o consequente desafio para os amantes da escalada.

Foram vários os acidentes mortais, até que as autoridades resolveram lançar-se num projecto de recuperação. Um investimento de cinco milhões de euros na construção de um passadiço em madeira, com resguardo integral em redes e cabos de aço.

O efeito é espectacular e aliciante e, tirando alguma sensação de vertigens em troços mais verticais, o percurso pode ser feito por qualquer pessoa sem grandes dificuldades e em perfeitas condições de segurança. Depois de uma fase inicial em que as pessoas se cruzavam, o trilho é agora feito apenas na direcção descendente, a que apresenta menor dificuldade.

O acesso à zona do passadiço está sujeito prévia marcação e compra de bilhete, havendo autocarros que fazem a ligação entre o final do percurso e o ponto de partida.

Embora o percurso seja acessível, absolutamente seguro e não exija qualquer especial preparação, a empresa adverte que “pode causar impacto nos utilizadores mais impressionáveis”. Mas esse é precisamente um dos maiores atractivos do Caminito del Rey.

Museu Automobilístico
Tesouros portugueses para turista apreciar

Pode-se estranhar entrar num dos museus com maior visibilidade de Málaga e encontrar um recheio em português. É o que acontece com o Museu Automobilístico, que exibe uma colecção com cerca de 100 veículos, através dos quais se pode compreender e admirar a evolução da indústria da construção automóvel.

Quase todos exibem matrículas portuguesas, o que se explica pelo facto de se tratar de uma colecção de um português, que terá encontrado na cidade de Pablo Picasso as condições que entendeu serem as ideais para exibir ao público as suas jóias. 

E até teve reconhecimento real, já que na zona de recepção se vê documentada em grandes fotos a presença dos reis de Espanha, tanto Juan Carlos como o actual, em visita ao museu na companhia do coleccionador português.

João Magalhães é herdeiro de um importante industrial do têxtil nortenho de meados do século passado, cujo gosto pelos automóveis o levou a coleccionar exemplares de grande valia e raridade. Ao gosto do pai, João juntou a atracção pela alta costura e, a par com as viaturas, o museu exibe também uma colecção de vestidos das casas Chanel, Yves Saint Laurent, Lanvin e Dior, através das quais melhor se entende o espírito da época e o conceito e objectivos dos construtores de automóveis.

Entre a quase centena de veículos, há carros com história e outros exemplares raros que fazem a história da indústria automóvel. Criteriosamente arrumada por épocas e estilos, começa com o veículos da Belle Epóque, onde se apreciam exemplares de finais do século XIX e o início da I Grande Gruerra.

Seguem-se os “Dourados Anos 20”, com exemplares de rara beleza e impacto, como um Hispano Suiza, um Lancia de 1921 ou um Studebaker americano. Na secção de “Carros Populares” há o primeiro Fiat 500 (1936), um Austin Seven ou o estranho e raríssimo Fuldamobile (1955, com apenas três rodas que, pelas suas formas arredondadas, ficou conhecido como “o ovo”.

Há ainda exemplares fabulosos do período Art Deco, como o modelo da Lancia que era utilizado por Mussolini nas paradas militares, ou o Packard branco que era então a viatura oficial da Casa Branca. Entre os “Carros de Desenho” está o elegante Peugeot Eclipse (1937), um Panhard et Levassor (França, 1938) ou um imortal Citroën Boca de Sapo descapotável.

Há também “Carros de Sonho”, como um Cadillac de 1947 ou o Chrysler que foi a viatura oficial do presidente Craveiro Lopes; carros de “Edição Limitada, onde desponta o Rolls-Royce decorado com cristais Swarovski, até protótipos pioneiros na experimentação de energias alternativas, um raro Ferrari 250 GT Speziale e o lendário Mercedes 300 SL “Asas de Gaivota”.

O museu ocupa um amplo e restaurado edifício na zona marginal da cidade, espaço das antigas instalações da Fábrica de Tabaco. No final do catálogo da exposição pode ler-se um caloroso “agradecimento da Colecção Magalhães “pela colaboração do município de Málaga”, o que deixa antever quão remotas serão as possibilidades de os portugueses terem por cá tão interessante e valiosa colecção. Mais um pretexto para a viagem a Málaga.

A Fugas viajou a convite do Turismo da Andaluzia