Na ilha Koh Chang
Na ilha Koh Chang

A Tailândia como nunca a vimos, como sempre foi

Entre montanhas, florestas e canais na Tailândia mais natural. Um mergulho no verde incessante do sudeste do país, com epicentro em Trat e na rota de comunidades turísticas em busca de equilíbrio ecológico.

No casario, junto, tão junto que parece cosido por um artesão minucioso, destaca-se a cúpula dourada do minarete, ortogonal e branco, elegante nos seus dois andares  rasgados por janelas em arcos e rodeados de varandins. Umas horas depois iremos ser surpreendidos pelo adhan, a chamada à oração, quando atravessamos a estranha ponte, em arco ogival que sobe perigosamente e une os dois lados do canal – o barulho do motor do barco que passa faz-nos perceber rapidamente o porquê desta forma excêntrica: têm a ponte alta, apesar do tamanho reduzido das embarcações que utilizam este e outros canais para chegar ao mar e regressar com o resultado da faina.

Ban Nam Chiao podia ser mais uma das aldeias que se espalham por toda a província de Trat – e estamos no sudeste da Tailândia, a uma hora de avião da capital, quatro de carro, o que a torna um destino popular de fim-de-semana –, mas aqui budistas e muçulmanos convivem em harmonia há séculos, partilhando saberes e em comunhão com a natureza.

Há alguns anos, decidiram abrir-se ao mundo e tornaram-se um exemplo (premiado) do chamado community based tourism (CBT): turismo comunitário, de e para a comunidade, baseado no princípio da sustentabilidade – ambiental, social e cultural. Nós viemos a Trat no rasto deste CBT, o turismo “verde” da Tailândia que é uma porta de entrada directa para o âmago deste país – mergulhamos no mundo rural e no seu modo de vida, descobrimos segredos antigos da natureza de que estas populações continuam guardiães, aprendemos a cozinhar pratos locais e vamos à pesca com os pés, passeamos de barco por rios lamacentos que rasgam a selva e fazemos sabonetes de mangostão – partimos de chapéu de folhas de palmeira na cabeça com passagem por uma ilha onde viramos as costas ao mar e enveredamos pela meditação (ou pelas massagens, vá lá).

Tangme krop e ngop

Não sabemos bem quando entramos em Ban Nam Chiao, sabemos que a nossa primeira paragem é num dos quatro bairros da comunidade, o do canal. Para chegarmos até ele, até à água, é um emaranhado de ruelas, que não têm mais do que a largura de um passeio, que percorremos. A sala principal da mesquita está aberta (e deserta), as outras casas fechadas. Não se passa o mesmo quando chegamos ao canal: ele corre em baixo, nós seguimos ao nível do casario, mais acima, alinhado num passadiço de cimento – estreito, mas o suficiente para que passem várias motorizadas. Há minimercados, bancas de comida (e cozinhas) – são omnipresentes na Tailândia e nem estas comunidades mais pequenas (esta tem pouco mais de dois mil habitantes) passam sem elas – e casas escancaradas (espreitamos as salas, onde a televisão ligada é constante). Por todo o lado nos saúdam com o wai, o cumprimento tradicional tailandês com as palmas das mãos juntas como em oração, sempre acompanhado de um sorriso e da saudação saw wad dee ka ou krup, se é mulher ou homem, olá.

Estamos longe do caos de Banguecoque onde temos uma lição rápida de tailandês. Como escrever o que ouvimos? “Owwww”, por exemplo, é o equivalente a “adoro”, “di” é bom, “diiiiiiii” é muito bom; a regra é simples: quanto mais alongamos a palavra maior é a apreciação. A introdução a frases básicas há-de ficar na página que nos passam – memorizamos ainda kob coon ka, obrigada, a palavra que mais repetiremos em tailandês. Além do sorriso: este é universal, mas na Tailândia é quase uma forma de estar; longe de o vermos em toda a gente, a verdade é que o praticamos muito e quando a conversa não vai longe (e a verdade é que nunca vai longe pela barreira linguística que onomatopeias e gestos não conseguem superar) o conselho é dos próprios tailandeses – fazer um sorriso resolve tudo.

Estamos, então, muito longe de Banguecoque, aqui nas margens do canal que segue até ao mar rodeado de florestas de mangue. Seguiremos com ele, nele, a bordo de um barco pesqueiro, até trocarmos a água castanha pela água azul baço do mar. Acompanhamos os pescadores na sua labuta diária – desta feita é para turista ver mas a pesca ocupa 75% da população de Ban Nam Chiao. Não apanhamos mas vimos apanhar os hoi pak ped, “língua de concha” em tradução livre, lingula anatina de nome oficial, um braquiópode: duma concha achatada sai um corpo mole, como uma minhoca. Nestas águas baixas são apanhados com os dedos dos pés para terminarem à mesa, depois da passagem pelo fogão onde são cozinhados num caril de leite de coco com alho. Não passaram pela nossa mesa, mas percebemos, depois de os vermos no fundo do barco, que o que pensamos serem lulas nas bancas de comida era antes hoi pak ped. Nestas mesmas águas pouco profundas, junto à costa, plantamos um mangue sem precisar de entrar na água: passam-nos um pau e só necessitamos de o deixar cair na água, pois ele continua em pé e ganha raízes – imaginamos que seja um mangue-vermelho, como os que ladeiam a água, raízes aéreas a abrigar um habitat de crustáceos e alguns peixes.

Não é apenas um ritual para turistas, este. Desde que, há 11 anos, o turismo comunitário começou a dar os primeiros passos na comunidade, toda a população ganhou nova consciência da importância do ecossistema em que vive. Se antes os mangues eram abatidos indiscriminadamente, para a construção de casas, por exemplo, agora é necessária uma permissão especial acompanhada de um trabalho de replantação. “Disseram-nos: as pessoas vêm pelo que vocês têm, não pela coisas novas”, explica P’ Noy (o P’, ou phee, é comum porque antes do nome é sinal de respeito por alguém mais velho – literalmente é irmão ou irmã mais velhos, carinhosamente é uma espécie de “tiazinha”), a líder da comunidade, super-estrela do turismo comunitário na província – e este adjectivo é do guia-tradutor. Com o turismo, portanto, veio um novo apreço pelas coisas de sempre e novos hábitos, como o de não lançar o lixo para o canal, manter a “casa” limpa. “Não foi uma obrigação, seria impossível, mas todos começaram a perceber os benefícios do turismo.” Mesmo os jovens, continua P’ Noy, que antes se dedicavam “a roubos e ao consumo de drogas”, perceberam que conseguiam arranjar trabalho nesta área. “Agora, alguns estão a tornar-se líderes.” E alguns vêm televisão deitados no chão das casas, as tais portas abertas permitem vê-los estendidos, no fresco, indiferentes a quem passa.

Voltamos costas à baía de contornos caprichosos e montanhas para lá de leve neblina. Na sala de visitas do “bairro do canal” almoçamos e temos aulas de culinária. Primeiro, tostas de arroz frito, à falta de melhor tradução do inglês rice chips. É Ki Ew quem faz a demonstração e dá as indicações aos neófitos: a farinha de arroz já está misturada com água e sal, com uma concha retira-se o líquido e coloca-se sobre uma chapa quente, com uma espátula retira-se a massa, finíssima, e estende-se num tabuleiro – tudo dura meio minuto. A “bolacha” é colocada ao sol durante dez minutos para ficar estaladiça, e por cima coloca-se o “acompanhamento”, no caso, um camarão com coco, salgado e doce na combinação comum da cozinha tailandesa. P’ Kai, lenço negro na cabeça e saia colorida comprida, é a “formadora” seguinte e a sua “especialidade” é uma sobremesa, tangme krop, caramelo crocante, muito popular na comunidade (e com vendas para todo o país), tanto entre budistas como muçulmanos, sobretudo no período do Ramadão, como um snack que se come ao longo de todo o dia e que, ultimamente, começa a ser utilizado no café em vez do açúcar. A mistura que inclui leite e xarope de coco e açúcar é cozinhada num wok grande até ganhar uma certa consistência. Depois é pendurada e constantemente mexida com um pau em movimentos largos e constantes para não cair – no momento certo é retirado um grande troço que é imediatamente dividido em pequenas porções, antes de secar e se tornar estaladiço: o resultado tem a textura de um tronco fino e a doçura exacta.

Exactas e firmes são as mãos que tecem os ngop, os chapéus de folhas de palmeira nipa, abundantes nos mangues circundantes. Mas isto é o que imaginamos: um imprevisto no nosso barco impediu-nos de assistir ao workshop – e de fazer o passeio de bicicleta por entre campos onde se descobrem altares inesperados, contam-nos – deste que é um dos produtos mais emblemáticos de Ban Nam Chiao, descendentes dos chapéus de bambu chineses utlizados pelos antigos comerciantes que andaram por estas paragens. Ficamos, porém, com um chapéu, que é bom para o sol e para a chuva (apropriado para o clima destes dias abafados e húmidos) como recordação – agora tens de plantar um arrozal, brinca alguém. Parece-nos justo, pensamos, quando sobrevoamos Trat no regresso a Banguecoque e miramos o território plano e alagado – sempre a cor de lama – com aldeias como ilhas. Ainda não o fizemos. E também ainda não saímos de Trat.

Em busca dos rubis perdidos

O Camboja está mesmo ali, no horizonte montanhoso. Trat está encostada ao vizinho, mas nunca estaremos tão perto como hoje, em Bo Rai, distrito que já foi uma espécie de Oeste americano quando o Oeste americano andava à procura de ouro. Aqui, o ouro eram rubis. E já quase desapareceram. É por isso que hoje estamos nas traseiras deste edifício cor-de-rosa e branco que alberga o Museu das Pedras Preciosas – e, claro, são todas rubis. Mas na verdade não vemos muitos, este é um museu de cariz, sobretudo, etnográfico, que conta a saga da descoberta, auge e decadência do garimpo nestas paragens. Aqui fora, é a decadência que se revela em toda a sua esplendorosa tristeza: a maquinaria, rudimentar, que servia para fazer a separação do cascalho repousa abandonada e enferrujada junto ao lago que brotou no sítio onde antes se extraíam rubis. No interior, é todo o processo de descoberta, garimpo, venda e compra de ouro com os lucros (e até truques comuns para “aperfeiçoar” os rubis e fazer o preço subir), que vemos passar diante dos nossos olhos, em cenários que se sucedem com figuras tão reais que não evitamos os sobressaltos a cada nova sala onde entramos, tão reais que confundimos pessoas verdadeiras com eles.

Na realidade, todas as figuras aqui apresentadas têm o seu correspondente “real”: foram feitas à imagem dos verdadeiros pioneiros dos rubis de Bo Rai, que ainda hoje transitam por estas estradas rurais. Uns mantêm-se abastados, outros já perderam tudo, alguns têm cargos públicos. Foi entre 1990 e 2005 que os rubis fizeram a fortuna neste canto da Tailândia, conhecida mundo fora pelas suas pedras preciosas, e atraíram habitantes de outras regiões que acabaram por fixar-se aqui. Contudo, passado o boom, passada a depressão, espera-se que a preservação da memória desta “febre dos rubis” traga nova bonança, com a atracção de mais turistas: aberto há dois anos, o museu teve 10 mil visitantes – mil estrangeiros (um número que pode aumentar significativamente quando, em Dezembro, as fronteiras com o Camboja forem abolidas e o livre-trânsito de pessoas entre os 10 países da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) se tornar uma realidade). Há, no entanto, muito trabalho pela frente, até para conquistar o público doméstico. “Mesmo na Tailândia há muita gente que nunca ouviu falar dos rubis de Bo Rai, conhecem os de Chanthaburi”, explica B’, que sempre viveu aqui e sabe distinguir os rubis das outras pedras. Já encontrou algum? “Tenho uma pedra em casa” – faz o gesto de quem a tem escondida e esboça, claro, um sorriso.

Nós vamos em busca deles no Khlong Aeng (canal), sem sucesso. É P’ Samnao quem nos guia por estas andanças, “à moda antiga”, a única permitida hoje em dia após a proibição governamental do uso de máquinas (as pedras estavam a acabar) – e é assim que nos vemos no meio do rio com uma peneira na mão a olhar pedrinhas minúsculas. A corrente está forte e a água está lamacenta (e iremos ver outra cor?), consequência das chuvas fortes dos últimos dias (a época da monção já se instalou no país), que ajuda a arrastar detritos montanhas abaixo. Com eles chegam as (escassas) novas pedras preciosas, como aquelas que protagonizaram a última grande descoberta na região: duas, de oito e 12 quilates, sendo que cada quilate vale 100 mil bahts, cerca de 2500 euros.

Terminamos sem rubis, mas aprendemos a fazer diques artesanalmente, uma vez mais recorrendo materiais naturais (folhas de palmeira e paus) e temos direito a um banho de lama branca. Estas são algumas das experiências proporcionadas pelo Ecomuseu ao Vivo de Chong Changtune que, como o nome o diz, é um museu com vida, a vida dos Chong, os anfitriões. Têm como lema “o que retiramos da natureza temos de repor”, que agora está ao serviço do turismo. E da própria região que, depois de anos a ser esventrada em busca de rubis, viu a sua natureza recuar e a seca instalar-se: os Chong, vivendo numa zona que é fonte de água e com o conhecimento do ecossistema que herdaram dos seus antepassados, são vistos como uma espécie de manuais vivos do convívio equilibrado com o meio natural. Esse saber é transmitido de geração em geração e partilhado com os forasteiros: vemos como de plantas e ervas endémicas se faz um bálsamo (tipo Vicks) e sentimos na pele como uma terapia ancestral para as grávidas recuperarem dos partos se pode transformar numa sauna idiossincrática. “Como tínhamos medo que os turistas não aguentassem fizemos um buraco para a cabeça”, diz P’ Samnao. O resultado é uma espécie de cesto gigante, feito de bambu e folhas de palmeira, dentro do qual uma panela de pressão produz o vapor: nós estamos lá dentro, sentados num banco com a cabeça de fora, afagada por toalhas. Chamam-lhe “gaiola de galinhas” e nós sentimo-nos a ser cozinhados lentamente lá dentro. Mas este spa rústico, ao ar livre – e pouco tranquilo, já que estamos no epicentro do complexo do museu – ainda nos reserva uma massagem. Escolhemos a tailandesa.

E quando partimos, uma recordação de que a família real tailandesa tem um estatuto quase divino. Um mural num velho edifício representa a segunda filha do rei, que completou 60 anos recentemente. Em Banguecoque tal é assinalado à exaustão, com os retratos da princesa a preencherem as principais ruas da cidade, sempre envoltos em roxo, a cor do seu dia de nascimento, um sábado. Está a dividir o protagonismo do seu pai, o rei Rama IX, que nos saúda amplamente no aeroporto e depois parece seguir-nos por todo o lado – em Trat, já o “vimos” várias vezes também. “Há duas coisas que os tailandeses respeitam acima de tudo: a monarquia, adoramos o rei, e a religião”, ouvimos de vários tailandeses. Agora, que ele tem 84 (sete ciclos na religião budista, cada qual correspondendo a 12 anos) anos e está no hospital, o país ainda se preocupa mais com o monarca que “promoveu a distribuição gratuita de leite pelas famílias mais pobres e a criação de campos experimentais de arroz para ajudar a combater a fome”, descrevem-nos. Há quem o leve junto ao peito, em medalhas, e quem ousar falar mal dele ou da sua família tem a prisão como destino certo.

Declinações da natureza

No meio da floresta tropical, sem o rei ou a família real à (nossa) vista, o edifício de dois andares quase não tem paredes ou portas. Tiramos o calçado antes de subirmos ao primeiro andar, o espaço “nobre”, digamos assim, em sinal de respeito, onde somos recebidos com rang jiud, um chá que aqui é bebido a toda a hora, quase como uma vacinação natural. Estamos na sede do Grupo de Ecoturismo Huai Raeng, onde a comunidade tem a sua vida presa umbilicalmente ao canal – à água, não fosse esta uma região fértil, onde se cruzam três ecossistemas aquáticos: de água doce, de água salobra e de água salgada. O canal é a auto-estrada destas paragens e navegamos nele para perceber como a natureza que nos rodeia tem um papel primordial no quotidiano destas populações.

O ar está húmido e pesado à medida que avançamos no canal a rasgar a densa floresta que se banha nele – e o sol é inclemente: mas temos guarda-chuvas para nos abrigarmos. Há mil e um ruídos que vêm da selva e um canto persistente que se distingue – é um pássaro que avisa da mudança da maré. Quando os franceses ocuparam Trat, tomando a província como um protectorado no final do século XIX (durante a Guerra da Indochina, os franceses voltaram a assediar Trat, sem sucesso), as árvores foram vistas como um tesouro, sobretudo as Khrai Yoi, a que chamaram Cruz – exemplares de raízes nodosas, mergulhadas na água e formando um ecossistema marinho à parte, abrigo de várias espécies. Aproximamo-nos das margens não pelos animais, mas pelas folhas de palmeiras, cada qual com a sua utilidade. Cho, o guia, vai cortando e explicando os vários níveis de desenvolvimento que equivalem, então, a diferentes utilizações: as de nível um, mais suaves, são usadas para fazer cigarros; as seguintes, flexíveis, embrulham arroz e sobremesas e têm no seu interior uma espécie de filamento que dá sabor; as de nível três são as mais tesas e servem para os telhados, por exemplo. O fruto desta árvores também é dissecado: uma mistura de pinha e ananás, muito grande, guarda em cada alvéolo uma porção gelatinosa esbranquiçada.

Cho é pescador, como quase todos são pescadores aqui – a pesca é de sobrevivência e quando sobra o mercado é o seu destino. Cada família tem a sua pequena represa nas margens onde os peixes e os camarões, se entram, já não saem; quando a corrente é forte, estendem-se redes. Na outra margem há um barco e um barqueiro que se aproximam de uma destas “armadilhas”, depois vem até ao nosso barco e mostra um “camarão-rei”: não é meigo, ataca o pescador e corta-o (a cauda abre e fecha como uma faca) – no mercado vale 200 bahts (mais ou menos cinco euros) por quilo. Estão na mesa do almoço, acompanhados de muitas outras iguarias.

Novamente na sede da comunidade, é a nossa vez de “trabalhar” numa tradição que esteve adormecida durante 50 anos. Mas durante a II Guerra Mundial, sem nada mais, era a rotina de todos os que trabalhavam e estudavam fora – todos os dias se fazia a marmita: não apenas a comida, como a “embalagem”, de folhas de palmeira, claro, como uma pequena bolsa que se pendura ao ombro.  P’ Pathee, uma das líderes da comunidade, lembra-se desses tempos e foi ela que teve a ideia de ressuscitar os betel quando o projecto da comunidade sustentável começou a ganhar forma. A comida já está preparada, em várias taças de madeira: arroz, peixe frito, ovos salgados (cor escura, depois de estarem em água salgada durante sete dias) e  ananás. Nós temos uma folha de palmeira, verde, onde servimos a nossa porção, que embrulhamos; o “complicado” vem depois, com nova folha e fios de palmeira, desta feita seca, que temos de entrelaçar até termos a bolsa, com colher de madeira pendurada. Tivemos bolsa e logo a seguir temos uma aula de cozinha, de khanom chak, uma sobremesa tradicional tailandesa, que, dizem, nunca sabe tão bem como aqui. Leva farinha, coco, leite de coco e açúcar, tudo misturado e embrulhado em folha de palmeira que é depois cozinhada em carvão – não conseguimos confirmar se cebola doce entra na receita, mas o sabor, não demasiado doce, desta pasta escura e textura de chiclete parece revelá-lo.

Saímos da cozinha, mas continuamos entre tachos para aprender a fazer sabonetes artesanais. Já deixamos de contar quantos mangostões comemos, estão por todo o lado na Tailândia, mas aqui vamos vê-los serem transformados em sabonetes – a sua pele, pelo menos (um projecto seleccionado como um dos mais criativos pela Autoridade do Turismo do país) – em forma de cana de bambu cortada a meio, o pormenor distintivo. Mangostão, mel, vitamina E (comprada) e aromas, mais a glicerina: tudo junto, é “bom para a cara”, dá “suavidade e mata bactérias”. Depois do sabonete, o óleo de coco, para protector solar, para fortalecer o cabelo. Um quilo de coco (30 frutos) para um litro de óleo, partindo do leite do coco (misturado aqui mesmo, o miolo com água – aqui o miolo é extraído manualmente, nos mercados há máquinas que o fazem), que é depois colocado em sacos plásticos onde se faz a separação – três ou quatro dias depois esta é total, os resíduos no fundo e o óleo puro no cimo.

Na ilha desintoxicamos

Perdemos o ferry e isso significa meia hora de espera no porto de Laem Ngop, pequena aldeia piscatória que parece adormecida a meio da tarde. O sol aperta e quase ninguém sai dos carros que seguem para a ilha, o que deixa as bancas de comida e souvenirs abandonadas. O bom é que ninguém nos pressiona para comprar nada, ao contrário de Banguecoque, onde, por exemplo, uma viagem de tuk-tuk tem incluída a passagem por determinadas lojas (se recusamos, temos de estar sempre alerta: a rede de cumplicidades na cidade é estreita e o objectivo é sempre o mesmo, levar os turistas a comprar ou a fazer algo – connosco cismaram que devíamos ir ver budas em vez de ao Grande Palácio, que estava “fechado para cerimónias”). Aqui, diante da ilha de Ko Chang, a calma é total.

Ao nosso penúltimo dia, somos, finalmente, insulares na Tailândia. Continuamos na província de Trat, em Ko Chang, a segunda maior ilha tailandesa (a maior do Parque Natural Mu Koh Chang, um arquipélago de 51 ilhas), mesmo atrás de Phuket, e a sua costa ocidental parece percorrer os mesmos trilhos turísticos, com resorts que se sucedem à beira-mar, contra um cenário feito de montanhas verdes. Nestas praias paramos apenas para ver o pôr do sol – que hoje não é particularmente especial – porque o nosso programa “verde” quer mostrar que a ilha não se faz só de areia e águas quentes.

Na verdade, esta ilha, que se chama “ilha do elefante” (pela sua forma, eles não são indígenas daqui), é um grande maciço verde, sua alma e coração, onde sobressaem alguns picos mais altos, mas sempre cobertos de vegetação. Falam-nos de rios e cascatas, mas esses terão de ficar para uma próxima vez.

Nunca nos afastamos muito da costa, mas sentimo-nos engolidos pela floresta no The Spa Koh Chang Resort. Estamos na costa oriental da ilha (e para aqui chegar tivemos de voltar ao ponto de partida, ao porto do ferry, no norte, para seguir pelo outro lado: a estrada de alcatrão não dá a volta ao sul da ilha), a menos explorada, habitada por pequenas comunidades piscatórias. Se a maré não estivesse baixa, teríamos água do canal a rodear-nos, ao invés de lama e charcos, quando mais uma vez nos estendemos para receber uma massagem tailandesa, num edifício de madeira, aberto entre a natureza – todo o resort está dissimulado (e em harmonia) entre as árvores altas e vegetação intensa.

Nós fazemos massagens, deixamos o ioga e meditação para outra ocasião, e descobrimos que toda esta oferta é complementar à vocação genuína do Spa Koh Chang Resort, que são os programas “detox”, sublinha P’ Nook, a proprietária que foi dentista durante 25 anos e há nove decidiu abrir o hotel. “O nosso corpo tem mais capacidade de regeneração quando deixamos de ingerir, digerir e metabolizar comida”, explica. Nessa altura, continua, entramos em modo de desintoxicação, o que significa a remoção de parasitas, toxinas e até de células potencialmente cancerígenas. Por isso, os programas de “detox” oferecem uma dieta de bebidas de desintoxicação e sumos de frutos e vegetais e suplementos à base de ervas. Nós que não estamos em regime “detox”, e, portanto, à margem da dieta rigorosa de líquidos, temos direito a almoçar no restaurante do hotel, vegetariano e, “acompanhando a moda da nutrição”, com comida crua.

Bem diferente do banquete da noite anterior, com vista para o pôr do sol na embocadura de um canal com o mar. A esplanada do restaurante Phutalay é palafita, como as varandas de todas as casas, coloridas, que se alinham ao longo do canal, quer se olhe para poente, como para nascente, onde as montanhas verdes são o horizonte.

É uma imagem de postal e tem sido o cenário das últimas duas semanas de Sabine Schallenberg e Joachin Beekek, alemães de Tubingen, e Sabine e Christian Hackl, austríacos dos arredores de Viena. Conheceram-se há apenas três dias mas foi amizade à primeira vista. Afinal, partilham a mesma paixão por estas paragens: já vêm há muitos anos, tantos que entre os casais não chegam a datas exactas. “O que há para não gostar?”, pergunta de retórica de Christian, braço erguido a desfazer o cenário. Praia, trekking por montanhas, banhos com elefantes – nunca se aborrecem em Koh Chang e, portanto, para o ano voltarão. Este está a “terminar”: ficam mais dois dias, voam para Banguecoque onde ficarão mais três e regressam a casa. Nós que não vimos nenhum elefante, excepto como motivo decorativo (até de arbustos-separadores em estradas), que não fizemos trekking, nem nos banhámos nas águas de Koh Chang, gostaríamos de ter essa certeza.

A Fugas viajou a convite do Turismo da Tailândia

GUIA PRÁTICO

Como ir

A TAP e a Thai Airways partilham a rota para Banguecoque (saídas do Porto ou Lisboa e escala em Madrid), preços a começar nos 800 euros (com bastante antecedência).

De Banguecoque para Trat há voos da Bangkok Airlines – preços a rondar os 65 euros.

Onde dormir

Banguecoque
Pathumwan Princess Hotel
444 MBK Center, Phayathai Road. Wangmai, Pathumwan
Banguecoque 103330
www.pprincess.com

Trat
Hotel Toscana Trad
Nong Samet, Mueang Trat District, Trat
www.hoteltoscanatrad.com

Na Tara Resort
15/19 Moo 1 Tambon Koh Chang
Amphur Koh Chang, Trat 23170
http://natararesort.com

The Spa Koh Chang Resort
15/4 Moo 4 Salak Kok
Koh Chang Tai, Trat
Tailândia 23170
www.thespakohchang.com

KC Grande Resort & Spa
(White Sand Beach)
1/1 Moo 4, Haad Sai Khao
Koh Chang, Trat 23170
www.kckohchang.com

Onde comer

Banguecoque

Sala Rattanakosin Bangkok
39 Maharat. Rattanakosin
www.salarattanakosin.com

Thip Samai
(especialidade: pad thai, noodles – em 2014 o britânico The Guardian considerou-os a melhor fast-food do mundo)
313 Mahachai, Samranrat
Phra Nakorn 10200
http://thipsamai.com

Trat
Thio Tara
(peixe e marisco à beira-rio)
Ban Nam Chiao. Trat

Sangfah Kitchen
(comida de fusão thai-chinesa)
Sukhumvit Road, Trat 23000

Phu-Talay
(peixe e marisco)
4/2 Moo.4
Klong Prao Beach. Koh Chang. Trat