As uvas de Ervamoira destinam-se à produção de vinhos do Porto mas também compõem os afamados Duas Quintas
As uvas de Ervamoira destinam-se à produção de vinhos do Porto mas também compõem os afamados Duas Quintas DR

Tudo isto existe, tudo isto é Douro, tudo isto é mundo

O fado está na lista de Património Imaterial da UNESCO, três vivas ao fado! Dias antes de ter sido conhecida a decisão que pôs o país a cantar, o Público brindou noutras paragens: ao Alto Douro Vinhateiro, que é património mundial há dez anos

Preparem o púlpito. E agora silêncio, por favor, que se vai contar o Douro.

Não estamos a brincar: há um púlpito que nos acompanha ao longo de um fim-de-semana que começa à mesa do jantar, na sexta-feira, e termina com jazz pouco depois do almoço de domingo. Pelo meio, Douro no copo, nos olhos, na alma - que é, dizem-nos do púlpito, onde ele mais se sente.

A 14 de Dezembro de 2001 houve festa rija no Douro, com foguetes e brindes com vinho do Porto. Na noite anterior, o então secretário de Estado adjunto da ministra do Planeamento, Ricardo Magalhães, quase não conseguiu dormir. Era praticamente certo que a UNESCO classificaria esta paisagem construída a suor e lágrimas como Património da Humanidade (Paisagem Cultural, Evolutiva e Viva) mas ainda havia uma pontinha de dúvida. Hoje temo-lo aqui, à mesa no Castas e Pratos, na Régua, às voltas com um risotto de cogumelos e uma posta de vitela duriense, um copo de 100 Hectares Tinto Reserva 2010 e um sorriso de orelha a orelha. Estamos na região para comemorar 10 anos de um Douro que pertence ao mundo e não há senão motivos para sorrir.

Será?

É o que vamos ver durante estes quase dois dias - o Douro trouxe-nos ao Douro para tirarmos a prova dos nove (seria mais correcto dizermos a prova dos dez, destes dez anos pós declaração da UNESCO, mas não queremos desvirtuar o teste de validade do cálculo manual). Connosco veio um púlpito que se transporta de cenário para cenário dentro de uma caixa de papelão e um relógio para lembrar os que cá estão que têm cinco minutos, cinco, para falar desta região que é, orgulhosamente, parte do "reino maravilhoso" de Miguel Torga.

Os organizadores deste fim-de-semana O mundo no Douro chamaram a esta performance Take 5; as 15 intervenções de cinco minutos feitas ao longo do fim-de-semana foram compiladas numa espécie de documentário que servirá (também) para assinalar os dez anos do Douro Património da Humanidade - com um programa que arranca no próximo dia 14 e se manterá até meados de 2012.

Agora sim, silêncio, que nós vamos contar o Douro. Não em cinco minutos: temos alguns privilégios, calhou-nos um tempo moderato.

Uma região paradoxal

Acordamos no sábado antes das 8h, mais cedo que o combinado com o despertador. Corremos as cortinas e vemos o Douro vestido de Outono, matizes prováveis de amarelos, castanhos, vermelhos. Não foi à toa que ficámos alojados no Aquapura Douro Valley, uma das referências da região no que à hotelaria diz respeito. É um ambiente de puro luxo rodeado de Douro por todos os lados: é verdade que dispensávamos alguns daqueles prédios mais feios da Régua, mas o que dizer das vistas de rio e de vinhas em socalcos?

Uma neblina enfeita as encostas à nossa volta, uma amostra de sol espreita entre as nuvens. Disseram-nos ontem, ao jantar, que o Douro é mais bonito no Outono e queremos ver se é verdade. Estamos na EN 222, a caminho da Quinta do Seixo - "seguramente um dos melhores enoturismos da região", apregoa António José Teixeira, presidente da Associação dos Empresários Turísticos do Douro e Trás-os-Montes e da Rota do Vinho do Porto.

Os socalcos parecem-nos mantas tricotadas à mão, o rio corre esverdeado lá em baixo, sucedem-se as quintas do nosso lado esquerdo: Vallado, Apegadas, Dona Matilde. Já aqui passámos mil vezes, mas ainda nos assombramos com esta paisagem, que é ao mesmo tempo rude e sublime.

Para entrarmos na Quinta do Seixo (propriedade da Sogrape e de onde saem os Porto da Sandeman) precisamos de virar à direita quando encontramos uma placa a indicar o caminho para a Desejosa. Já estamos a subir, dir-se-ia para o céu, pelo meio de vinhas amareladas com vista para a Quinta do Porto, na margem direita do rio e da qual se diz ter sido a preferida da lendária D. Antónia - mantém, aliás, "tudo como ela deixou da última vez que lá ficou", precisa António José Teixeira.

Não sabemos se o Seixo é dos melhores enoturismos da região, mas o que vemos deixa-nos confiantes. Confirma-se: a vinha (aqui e ali salpicada por roseiras, que são as plantas mais sensíveis ao oídio e, por isso, plantadas para que possam antecipar eventuais pragas nas videiras) fica belíssima nesta época do ano e do alto da casa em tons de bege abarca-se uma imensidão de Douro. Há aqui sabugueiros, limoeiros, laranjeiras, medronheiros e oliveiras - e azeitonas verdes no chão. Na recepção da casa está Joana Pais, a relações públicas da Sogrape. E, claro, um homem da capa de carne e osso: "Este é o Don", ri-se Joana.

Entramos para uma sala com traves de madeira no tecto e chão de xisto e já estamos a ouvir pedaços da história da Sandeman, fundada em Londres em 1790. A imagem de Don, a silhueta negra com um sombrero espanhol e uma capa de estudante portuguesa, faz parte do nosso imaginário colectivo e é quase omnipresente na Quinta do Seixo, que se abriu ao enoturismo em 2007 e de então para cá já teve 15 mil visitantes, adianta Joana Pais, enquanto nos guia escadas abaixo para nos mostrar a adega.

Descemos no meio da penumbra, até que damos de caras com um seixo gigante. Joana explica que foi tomada a decisão de o deixar ficar neste sítio "para mostrar aos visitantes como é o solo do Douro", uma das chaves para o sucesso dos vinhos da região. Prosseguimos neste ambiente soturno, pipas de um lado, garrafas do outro, até chegarmos a uma sala ainda mais escura onde está uma grande tela.

Um curto filme explica-nos como é feita a pisa na Quinta do Seixo - "robots que associam o melhor da pisa tradicional ao melhor das novas tecnologias" - e quando os estores sobem e se abrem para a vinha percebemos realmente onde estamos: numa espécie de enorme varanda sobre os lagares que, na altura das vindimas, permite visitas sem interferências sobre o trabalho que está a decorrer.

Continuamos a descer e estamos já na sala de provas, imensa janela para o Douro dos socalcos. É uma sala de lareira acesa e confortáveis sofás, de livros temáticos e de uvas dentro de frascos - Tinta Roriz, Touriga Franca, Touriga Nacional, Tinta Barroca -, com decoração a cargo de Paulo Lobo. No copo teremos daqui a pouco um Vau Vintage 2003 e um Tawny de 20 anos. E no púlpito, de costas para a paisagem, estará Artur Cascarejo, presidente da Comunidade Intermunicipal do Douro. Vai falar sobre o rio Douro mas connosco fala já no meio das vinhas - e sobre o impacto da declaração da UNESCO.

Perguntamos-lhe primeiro o que é que mudou nestes dez anos. "A declaração da UNESCO serviu sobretudo para colocar o Douro no mapa. E os focos sobre nós fizeram com que as quintas, por exemplo, se abrissem e começassem a fazer do turismo a nossa vindima permanente", revela. "Alavancaram-se os investimentos na área das infra-estruturas hoteleiras", houve uma explosão ao nível das acessibilidades e registou-se "um maior desenvolvimento local" mas, ainda assim, a declaração da UNESCO não foi "uma panaceia para todos os males". Recuamos à noite de sexta-feira, quando ouvimos Nuno Fazenda, técnico de turismo da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte, e realmente vemos que não.

Nuno Fazenda em discurso directo: "255 anos tem a região demarcada vinícola mais antiga do mundo. 122 mil pessoas vivem no Douro e 260 mil no concelho do Porto - sendo que a região do Douro tem 19 concelhos. Perdemos nos últimos dez anos 16 mil pessoas e temos um índice de envelhecimento superior à média regional e nacional. O vinho é a base económica da região e o vinho do Porto exporta 85% da sua produção para mercados internacionais. Em termos turísticos, o Douro representa 5% das dormidas no contexto do Norte e 0,6% no contexto do país - destas, 23% são de estrangeiros e 77% de nacionais. Isto mostra-nos que o Douro é uma região paradoxal."

E mostra também que é "uma região com enorme potencial", que é preciso desenvolver, torna Artur Cascarejo. "O desenvolvimento que nos trouxe a classificação da UNESCO não foi avassalador, ainda temos um longo caminho a percorrer", defende o também presidente da Câmara Municipal de Alijó. "Há transformações económicas e sociais que ainda não atingimos. Temos aqui todos os ingredientes, mas ainda nos falta dar outro salto: transformar o turismo de actividade sazonal em actividade permanente. E isso pode ser feito, por exemplo, através do desenvolvimento do chamado turismo de congressos."

Ricardo Magalhães, hoje chefe de projecto da Estrutura de Missão para a Região Demarcada do Douro, recomenda alguma prudência na forma como se pede o desenvolvimento. Por email, considera à Fugas que a classificação da UNESCO "não foi apenas simbólica, embora isso por si só lhe bastasse, mas contribuiu decisivamente para defender o património classificado e transformar o Douro num destino turístico emergente". Mas, nota, "aqui não haverá nem explosões espectaculares nem posições consolidadas", o Douro "está votado a ser um destino turístico cultural e vinhateiro único, sustentável e de excelência".

"Existe uma margem de progresso assinalável pela frente que é preciso saber aproveitar (...) Não exageraremos se assinalarmos que o futuro do Douro passará pela valorização contínua do seu património autêntico e singular. A projecção da cultura (...) é um bilhete de identidade único e um passaporte para todo o mundo. O desafio dos próximos anos passará, pois, pela valorização dos seus factores específicos: os seus vinhos, o turismo, o património paisagístico, cultural e genético. Na agenda estará a conquista de novos e qualificados nichos de mercado internacionais, que procuram vinhos e destinos turísticos autênticos, distintos e superiores", considera Ricardo Magalhães.

Por este rio acima

É pena que tenhamos que correr para apanhar o comboio das 11h43 na estação do Pinhão. Chegamos mesmo à tabela, só temos tempo de entrar na composição amarela e arranjar o melhor lugar junto às janelas. A viagem de 68 quilómetros até ao Pocinho há-de durar uma hora, mais coisa menos coisa, ao longo de um Douro que a espaços se transfigura.

Estamos a cumprir um troço da Linha do Douro, que é, segundo a CP, "a maior extensão de via férrea portuguesa ladeada de água" e o convite à contemplação está naturalmente implícito. O que vemos lá fora é arrebatador e só temos a lamentar o cheiro a diesel que invade as carruagens. Daqui a pouco já não notaremos, quando António José Teixeira ("Pareço as hospedeiras da TAP", ironiza) começar a distribuir os covilhetes (espécie de empadas recheadas com carne maronesa) de Vila Real que vieram para nos reconfortar o estômago. Há para nós e para os (poucos) passageiros desta carruagem - e agora é ver-nos todos a brindar ao Douro com um Morgadio da Calçada Branco 2010, cortesia de Manuel Villas-Boas, que também nos acompanha por este rio acima. E ainda vêm cristas de galo, recheadas com doce de ovos.

Temos o rio à nossa direita, enfiado nos socalcos. Às vezes as vinhas parecem-nos searas, uma ilusão amarela, como a que temos agora junto à ruína da Quinta dos Aciprestes. Lá vai o comboio - e pára pela primeira vez na estação do Tua. Em poucos minutos perdemos os socalcos que deram notoriedade ao Douro e ele torna-se mais agreste e selvagem, há quem diga que ainda mais belo.

Ferradosa - e passamos a ter o rio à nossa esquerda; Vargelas - e as fragas entretanto voltam a ceder lugar às vinhas. No Vesúvio não resistimos aos ímpetos voyeuristas e queremos saber por quem espera, tão ansiosa, aquela mulher que vemos na plataforma - por um homem, a propósito. Os montes espelham-se pelo rio. Passamos pela Quinta do Lobazim, por pequenos ancoradouros, paramos em Freixo de Numão, às 12h40 chegamos ao Pocinho. O concelho de Vila Nova de Foz Côa recebe-nos com chuva - uma chuva persistente que vai encher de melancolia esta tarde de sábado.

Fujamos à água que cai do céu, portanto. Encontramos abrigo no jipe verde de Sónia Teixeira, responsável pelo enoturismo da Quinta de Ervamoira, onde temos almoço marcado. Entrar nos limites da quinta não é fácil, temos de cumprir meia dúzia de quilómetros por caminhos empedrados e sinuosos. Ervamoira está situada na margem poente do rio Côa (um afluente do Douro) e o acesso à propriedade de 200 hectares faz-se pelo caminho que vem da povoação de Muxagata, através da ribeira dos Piscos. Vamos cruzá-la daqui a pouco, água expelida por todos os lados à passagem do jipe, que esta é uma viagem com emoção, como diriam os brasileiros. Estamos em pleno território do Parque Arqueológico do Vale do Côa e aqui pertinho há mesmo um núcleo de gravuras.

Continuamos a subir aos solavancos e quando estamos quase, quase em Ervamoira, espécie de território mítico, Sónia prepara uma banda sonora a condizer. Mozart, 40.ª Sinfonia nas alturas, uma entrada triunfal num cenário difícil de descrever. A chuva cai sem dó nem piedade mas queremos sair imediatamente do jipe e abarcar com um olhar sem filtros este Douro que parece estar em fogo, tal é a paleta de cores das vinhas plantadas ao alto - Ervamoira foi mesmo a primeira quinta a recorrer a esta técnica de plantação e os talhões que aqui se vêem estão divididos por castas.

Não estamos ainda fartos desta paisagem ocre, mas a chuva incentiva a que procuremos abrigo na casa de xisto que se ergue, isolada, acima dos bardos. Numa esplanada coberta com vista para o que mais parece um mar de vinhedos, Sónia Teixeira dá-nos as boas-vindas com um Porto Reserva White, que acompanhamos com presunto, queijo, broa tosca e o "casamento perfeito", figos com amêndoa da região. Estamos a um passo de entrar no Museu de Sítio de Ervamoira - abriu portas a 1 de Novembro de 1997 para comemorar a suspensão da construção da barragem do Côa que, a acontecer, levaria por água abaixo a Quinta de Ervamoira -, mas antes disso Sónia pinta em traços largos a história da propriedade.

A antiga Quinta de Santa Maria foi comprada por José António Ramos Pinto Rosas em 1974, com o intuito de lá instalar vinhas que pudessem ser trabalhadas de forma mecanizada. Conseguiu-o com a ajuda do sobrinho João Nicolau de Almeida, administrador-delegado da Ramos Pinto, actualmente nas mãos dos franceses do grupo Roederer. O nome da propriedade foi alterado para o que ainda hoje mantém graças ao romance Ervamoira de Suzanne Chantal, que conta a saga da família Castro Avilez durante um século e meio, ligando-a à história do vinho do Porto e mesmo à História de Portugal (a autora é de nacionalidade francesa, mas casou-se com um português). Um exemplar do livro está, aliás, em exposição no museu, aonde já estamos há uns minutos.

São quatro as salas que expõem o que de melhor tem Ervamoira: dos aspectos paisagísticos às riquezas arqueológicas (em 1985 foi descoberto na propriedade um sarcófago, o que levou ao estudo da estação arqueológica romana e medieval existente nos terrenos próximos), passando pelas particularidades vitícolas ou pela história da marca que se conta pelos rótulos das garrafas.

Subimos as escadas atraídos pelo cheiro a lareira e não nos enganamos. Estamos numa sala com soalho e tectos de madeira e janelas de guilhotina. A mesa está posta sem grandes pretensões, lembra-nos a casa da avó. Comemos creme de cenoura e arroz de pato, que acompanhamos com um Duas Quintas Reserva Branco 2009 e um Duas Quintas Tinto 2009. Cinquenta por cento das uvas de Ervamoira destinam-se aos Porto, mas daqui também sai matéria-prima para os afamados Duas Quintas (Ervamoira e Bons Ares). Os gelados (deliciosos) de amêndoa e de figo servem-se com um Porto 10 Quinta de Ervamoira.

A prova de azeite

O púlpito, lembram-se dele? Está na esplanada de xisto de que há pouco falávamos e é de Alexandra Cerveira Lima, do Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade. De costas para o vinhedo, lembra-nos que o Côa "é um grande território de arte ao ar livre" e é ela quem dá mote para a grande viagem no tempo, supersónica, que vamos fazer a seguir.

Deixamos Ervamoira para trás e fazemos uma curtíssima paragem em Muxagata, onde está instalada a sede do Parque Arqueológico do Vale do Côa. Não se vê vivalma nas ruas empedradas, o Café Real está fechado, alegram apenas este cenário cinzento as pequenas romãzeiras carregadas de frutos minúsculos - roubamos um, haveremos de o provar mais tarde e é incomestível.

Bastam-nos uns dez minutos para chegarmos ao Museu do Côa, a grande pedrada no charco da região dos últimos anos. Sim, pedrada talvez seja mesmo a melhor expressão para descrever o bloco de betão que temos por baixo de nós. Chegar ao Museu do Côa é chegar ao parque de estacionamento e não ver praticamente nada. Tudo o que interessa está debaixo dos nossos pés - e aqui começam as surpresas. Na memória descritiva do projecto, a dupla de arquitectos (Tiago Pimentel e Camilo Rebelo) escreve que a ideia foi "enfatizar a imponente amplitude de vistas que caracteriza tão fortemente o sítio", evitando desta forma que o edifício se assuma "como obstáculo entre quem chega e a paisagem que o rodeia".

Temos então que a entrada principal no museu é feita por uma espécie de fenda descendente que nos leva ao ponto a partir do qual podemos entender o que aqui se passa. Museu à direita, vistas inesquecíveis à esquerda. Viramos à esquerda e só depois de abandonarmos a paisagem intensa, e que em dias de sol há-de ser luminosa, entramos na "realidade interior e escura da sala-gruta, que nos remete para um tempo primitivo", como a descreveram os arquitectos.

Não temos dúvidas que o edifício de betão com inertes e pigmento de xisto há-de ser, por si só, motivo de peregrinação, mas agora já estamos dentro dele, a olhar através de um espelho para a obra de Ângelo de Sousa (1938-2011), evocação de um animal pré-histórico que dá o mote para o que há-de vir. O museu está dividido em sete salas (de A a G) e a primeira, onde entramos agora, mostra a distribuição de arte paleolítica no mundo e a que existe no Côa, explica-nos, sucintamente, Dalila Correia, a arqueóloga que nos guia a visita, enquanto aponta para as representações em luzes de néon de tom azulado que enchem as paredes negras do espaço. "Cabra pirenaica, auroque, cavalo selvagem e veado."

As verdadeiras, as que foram gravadas na rocha, são sobretudo representações do Paleolítico Superior, ou seja, entre 40.000 e 10.000 anos. O que talvez alguns não saibam é que as rochas do Côa foram também "desenhadas" em épocas posteriores. "A segunda idade mais gravada no Côa é a Idade do Ferro, a partir de 800 a.C. - e aqui encontramos guerreiros, armas, cavaleiros", explica Dalila. A partir do século XVII, começam a aparecer também motivos religiosos - é o caso, por exemplo, de uma custódia de 1695 encontrada ao lado de representações paleolíticas. Mas não nos ficamos por aqui: foram também identificadas gravuras mais contemporâneas, como a datada de 1953 representando o castelo de Guimarães (hoje submersa pela barragem do Pocinho).

Já estamos a olhar de frente para uma réplica das gravuras autênticas que existem no Vale do Côa. É feita de um composto de resina e colas, mas uma boa reprodução do que se pode ver lá fora. Dalila faz luz sobre os contornos gravados na pedra: dois caprinos de perfil e também um bode com duas cabeças. Para vistas menos treinadas, não é realmente fácil interpretar as gravuras - e é por isso que as visitas ao vale são sempre guiadas, em grupos de oito pessoas. A olho nu, arriscamos dizer que os leigos não chegam lá - e comprovamos isso mesmo na sala E, onde as grandes atracções são a cabana de peles, que mostra de forma rápida como eram os acampamentos dos nossos antepassados, e a grande vitrina onde podemos espreitar, através de lupas gigantes, pequenas placas com gravações diversas. Ao lado está o decalque do que é suposto identificarmos, mas mesmo assim há casos em que o exercício não é nada fácil.

Estamos prestes a terminar a visita. Dalila Correia ainda faz questão de lembrar que o "verdadeiro museu" é o que está lá fora, nos núcleos da Penascosa ou da Canada do Inferno e da ribeira de Piscos. Temos pena, até porque nos quer parecer que fizemos o percurso pela ordem inversa: a maior parte dos visitantes costuma começar pelos núcleos das gravuras e fechar com chave de ouro no museu (que, sublinhe-se, desde que abriu, em Julho de 2010, já recebeu 289 mil visitantes). Hora talvez de recordarmos as palavras de Fernando Real, presidente da Fundação Côa Parque: "O museu e o Parque Arqueológico do Vale do Côa vieram dar valor acrescentado ao património natural da região."

Do Museu do Côa às Casas do Côro, já no concelho de Meda, não são mais de 20 minutos de carro. Estivemos cá há pouco tempo, o Outono ainda sabia a Verão, mas hoje é ainda mais prazenteiro entrar nesta sala de jantar que parece saída de um filme de época. A enorme lareira está acesa e a luz das velas vermelhas encavalitadas em castiçais altos dão a este espaço de paredes de granito um charme indiscutível.

Antes mesmo de nos sentarmos à mesa, tempo para um pouco mais de cinco minutos de azeite. Francisco Pavão, produtor, lembra que a região de Trás-os-Montes e Alto Douro conta com 84 mil hectares de oliveiras, ainda que a produção do precioso líquido seja "relativamente baixa" - 12 a 13 mil toneladas. Depois desafia-nos para uma prova, mas vamos concluir que ainda não estamos preparados para tanto.

Num copo de vinho do Porto - que não é, contudo, o mais indicado para a prova, refere -, serve-nos um azeite do Douro e incita-nos a cheirá-lo. É suposto sentirmos aroma "a rama de tomate", mas está visto que não fomos feitos para isto. Quando o levamos à boca, então, é a estranheza que toma conta do palato. Não sentimos o picante que se impunha - lamentamos, mas gostamos muito mais do sabor do azeite que experimentamos na bola que nos servem à mesa. Segue-se alheira de caça com ovos mal mexidos, creme de cebola e rolo de bacalhau no forno com puré tosco de verduras. Experimentaram-se o branco Casas do Côro Niepoort 2009 e o tinto Casas do Côro Grande Reserva. No capítulo das sobremesas, do buffet retivemos sobretudo o sabor da torta de amêndoa.

Em casa de D. Antónia

Douro, dia dois, 10h30. Bem merecemos este sobe-e-desce nas escadas da Quinta do Vallado, estabelecida em 1716 e uma das mais antigas da região - o que ontem comemos e bebemos exige algum desgaste. O dia acordou soalheiro e agrada-nos a luz que se reflecte nas placas de xisto que compõem a nova adega, que em 2010 recebeu uma menção honrosa no Prémio de Arquitectura do Douro (projecto de Francisco Vieira de Campos).

Temos mais uma Sónia a guiar-nos pela adega e pelos armazéns de estágio de vinho que cabem dentro deste bloco de xisto que, apesar da volumetria, pouco parece ferir a paisagem e mereceu, aliás, nota positiva da revista Wallpaper, que muito recentemente considerou que uma das 20 razões para vir a Portugal é precisamente a visita ao Vallado. Pela adega, pela paisagem salpicada de vinhas novas e velhas e, claro, pela qualidade dos seus vinhos, patente, por exemplo, no Touriga Nacional Colheita de 2009 que provamos agora.

Em Fevereiro do próximo ano, talvez possamos provar também o conforto dos oito novos quartos em fase de acabamentos. A Quinta do Vallado tem já disponíveis, no edifício ocre que nos transporta para os tempos da Ferreirinha, cinco quartos abertos a hóspedes. O novo hotel, construído no mesmo xisto da adega, será um complemento contemporâneo ao charme do passado.

É precisamente para este passado que olha a exposição que está patente, até ao final de Março, no Museu do Douro, na Régua. Chama-se D. Antónia, uma vida singular e é simplesmente imperdível. Entramos nestas salas do antigo edifício da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro e parece-nos que entramos em casa dos Ferreira. Sentimo-nos mesmo no seio da família: temos árvores genealógicas para não nos perdermos no meio dos Antónios Bernardos; espreitamos alguma correspondência e o registo paroquial de casamento de D. Antónia; cobiçamos-lhe os vestidos; recordamos o acidente do Cachão da Valeira, que vitimou o barão de Forrester; e surpreendemo-nos com o império construído pela família no Douro vinhateiro.

Esta é uma exposição temporária, alojada no edifício principal, mas ninguém deve passar ao lado da permanente do Museu do Douro, que tem morada no chamado Armazém 43. Memória da Terra do Vinho é uma excelente introdução à região. Mostra o que é e como é o território do Douro, exibe belas fotografias antigas da plantação das vinhas e das vindimas, explica as diferenças entre as principais castas, dá rosmaninho a cheirar e expõe utensílios diversos do tempo em que Régua se escrevia Régoa.

Está quase tudo contado - alguém sabe em quantos minutos vamos? Talvez nos tenhamos esticado ainda mais que José Duarte, que transformou os seus cinco minutos de jazz em praticamente dez. Perdido por dez, perdido por mil: já que aqui chegámos, ainda temos tempo para perguntar a Ricardo Magalhães com que vinho quer brindar aos dez anos de património mundial. "O vinho do Porto é um símbolo maior de criatividade, persistência e autenticidade. Escolho a colheita com a minha idade - 1952."

Saúde!

A Fugas viajou a convite do Museu do Douro

Castas e pratos
Rua José Vasques Osório
5050-280 Peso da Régua
Tel.: 254 323 290; 254 323 290; 962 673 327
Email: info@castasepratos.com
http://backlazer.publico.pt/wizards/fugas/www.castasepratos.com

Aquapura Douro Valley
Quinta de Vale de Abraão
5100-758 Lamego
Tel.: 254 660 600
Email: aquapuradouro@aquapuradouro.com
www.aquapurahotels.com
Preços a partir dos 300€.

Quinta do Seixo
Valença do Douro
5120-495 Tabuaço
Tel.: 254 732 800; fax: 254 732 349
Email: visitas.seixo@sandeman.eu
http://backlazer.publico.pt/wizards/fugas/www.sograpevinhos.eu

Todos os dias das 10h30 às 13h e das 14h às 18h30, de Março a Outubro; de Novembro a Fevereiro, apenas de quarta a domingo, das 10h30 às 13h e das 14h às 17h30. Preço das visitas: visita simples, com prova de dois vinhos do Porto, a 5€; a Vau Vintage Tour inclui a prova de cinco vinhos e custa 17€.

Quinta de Ervamoira
Vila Nova de Foz Côa
Tel.: + 279 759 229; 935 263 490; 932 992 533. fax: 223 775 099
www.ramospinto.pt/qervamoira
Visitas com marcação prévia.

Museu do Côa
Rua do Museu
5150-610 Vila Nova de Foz Côa
Tel: 279 768 260/1; Fax: 279768270
Email: museu arte-coa.pt
http://backlazer.publico.pt/wizards/fugas/www.arte.coa.pt

De terça-feira a domingo, das 9h às 12h30 e das 14h às 17h30. Encerra à segunda-feira.
Entrada: 5€; bilhete conjunto (museu e visita a um dos núcleos de arte rupestre): 12€

Casas do Côro
Largo do Côro
6430-081 Marialva
Tel.: 917 552 020; fax: 279 850 021
Email: info@casasdocoro.com.pt
www.casasdocoro.com.pt
Alojamento a partir de 125€ para duas pessoas. Refeições por marcação.

Quinta do Vallado
Vilarinho dos Freires, Peso da Régua
Tel.: 254 323 147; 939 103 591
http://backlazer.publico.pt/wizards/fugas/www.quintadovallado.com

Alojamento a partir de 125€ para duas pessoas. Visitas à quinta e adega a partir de 7,50€ (pode chegar aos 20€, com sete provas). De segunda a domingo, às 11h30 e às 17h.

Museu do Douro
Rua Marquês de Pombal
5050-282 Peso da Régua
Tel.: 254 310 190; fax: 254 310 199
Email: geral@museudodouro
http://backlazer.publico.pt/wizards/fugas/www.museudodouropt

Das 10h às 16h, as áreas expositivas encerram das 13h às 14h30. Fechado à segunda-feira. Bilhetes a 5€, com acesso à exposição permanente e às temporárias.