Paulo Ricca

As Flores e o Corvo à mercê do tempo

Foi, antes de mais, um jogo do gato e do rato com as nuvens. Tínhamos muita vontade de ver as lagoas que são dos principais ex-líbris das duas ilhas do grupo ocidental mas precisámos de paciência e persistência. Pelo meio, percebemos que há mais vida para além das lagoas e encontrámos lugares belíssimos, onde a vida corre devagar - e que pedem, por isso, estadias a condizer. Sem pressas, com tempo para aprender a ver

Empoleirados num muro branco na Rua Pedro Pimentel Cepo, Antiga Rua da Fonte, temos vista privilegiada para o anel de nuvens pesadas e gigantescas que sitia o Caldeirão. Estamos amuados, que ao fim de três dias já não temos paciência para os humores do tempo que nos tem furado todos os planos. A descida ao Caldeirão foi só mais um tiro que nos saiu pela culatra, já devíamos estar habituados.

Sentados no muro, dizíamos, vemos apenas um empregado da construção civil com um boné de Portugal na cabeça a assobiar para entreter o tempo (o das horas e dos minutos). De resto, ouve-se o vento, cães a ladrar e um ou outro pássaro. Há roupa a secar nas cordas - mas não avistamos os donos destas calças de ganga puídas nos joelhos, desta saia comprida florida ou desta t-shirt amarela. Parece-nos que estamos sozinhos no planeta, à deriva numa rocha que voga no Atlântico.

Dizer que a ilha do Corvo, nos Açores, é o fim da linha, o fim do mundo, está tão gasto que nos apetece não dizer - mas não podemos. Como também não podemos dizer, ao contrário do que chegámos a pensar nos últimos dias, que o tempo (o do sol e das nuvens) deu cabo da nossa viagem. Não deu: o tempo deu-nos tempo para observar, para estarmos dentro. Deu-nos tempo para esperar.

E mais um cliché, que o povo nunca se engana: quem espera sempre alcança. Nós esperámos, por vezes desesperámos, mas ao quarto dia as Flores colaboraram e mostraram-se aos nossos olhos de principiantes. Já tínhamos a vista cheia de pastos verdes, de hortênsias azuis e rosadas, de fajãs dramáticas a cair para o mar, de montes a recortar o céu carregado - mas faltava-nos a (quase) fantasmagoria das lagoas para compor o cenário perfeito. Como num passe de magia, a escassas horas de levantarmos voo, a névoa levantou-se também e deixou-nos entrar no reino encantado da Funda e da Rasa, da Negra e da Comprida, da Lomba e da Branca.

Agora temos todo o tempo do mundo para vos contar como foi.

Aqui acaba a Europa

Aterramos nas Flores debaixo de chuva, mas é de calor quase tropical esta manhã de Agosto em Santa Cruz. Quem se estreia num lugar tem o péssimo hábito de querer abarcar tudo ao primeiro olhar, mas percebemos logo que aqui as regras são outras. É preciso saber esperar e é isso que vamos aprender nos próximos dias.

Por enquanto vamo-nos familiarizando com Santa Cruz das Flores, a vila primeiro, o concelho depois (3789 habitantes, contaram os Censos 2011). Na Avenida dos Baleeiros, o Buena Vista Caffé, com vista de mar privilegiada, está com pouca freguesia. Contamos apenas duas mesas ocupadas - numa delas, duas mulheres francesas, mãe e filha, talvez, estão a ler e dir-se-iam indiferentes ao contexto. Daqui a nada, porém, é vê-las descer as escadinhas que levam às piscinas naturais de Santa Cruz e entrar na água tépida que se abriga entre as rochas. Devidamente equipadas com óculos de mergulho, vão passar vários minutos a nadar com os peixes - e a fazer inveja a quem as vê de cima. As piscinas, não temos dúvidas, serão um dos principais cartões- de-visita da vila onde vivem 1724 florentinos.

Que, no entanto, parecem estar todos sabe-se lá onde. Percorrendo as ruas de Santa Cruz em redor da Igreja de Nossa Senhora da Conceição (fechada aquando da nossa visita, para obras de recuperação do interior), não nos cruzamos com muitos locais. Há mais turistas - ainda assim poucos e a esta hora, perto das 13h00, concentrados na esplanada da Praça Marquês de Pombal. São sobretudo espanhóis - sabemo-lo porque falam alto e riem-se com vontade, praticamente indiferentes à chuva que recomeçou a cair. Com a igreja em obras e o Convento de São Boaventura, que alberga actualmente o Museu das Flores, fechado (pelo menos a esta hora), não temos muito mais para fazer além de ver a vila acontecer. De tão pacata, Santa Cruz é um daqueles lugares onde se pode andar no meio da rua ou até deixar o carro aberto enquanto se vai ao café. Já não será tanto assim, mas de repente lembramo-nos de Raul Brandão - e mais tarde consultamos As ilhas desconhecidas, que trouxemos na bagagem: "Vejo às janelas, por dentro das vidraças, fisionomias tristes de velhos que estão desde que se conhecem à espera de quem passa - e não passa ninguém."

Uma voltinha à vila há-de ficar completa com paragem no Centro de Interpretação Ambiental do Boqueirão, construído nos tanques onde se armazenava o óleo que era derretido na Fábrica da Baleia. Foi inaugurado em Novembro de 2009 e, convidando a um mergulho pelos mares dos Açores, pode ser uma boa ideia para ocupar os miúdos em dias que desaconselhem grandes jornadas ao ar livre. O espaço não é muito grande, mas tem informação detalhada sobre a fauna e flora do arquipélago, mais concretamente da ilha das Flores.

E é a ela que nos vamos fazer agora - mesmo que as nuvens que vemos lá em cima não augurem nada de bom. Arriscamos, ainda assim, e já subimos em direcção ao Pico da Casinha. Estamos a mais ou menos 400 metros de altitude, informa Marco Melo, da empresa de turismo de aventura West Canyon, que nos acompanha nesta viagem pela ilha, e começamos a sentir na pele (literalmente) o cliché que dá conta que nos Açores é possível ter as quatro estações num dia. Saímos do Verão de Santa Cruz e agora estamos praticamente no Inverno - e isto ainda é Santa Cruz.

Queremos acreditar que deste Pico da Casinha há realmente vistas fantásticas sobre o vale da Fazenda de Santa Cruz, mas esta névoa que nos persegue à medida que subimos deixa ver pouco para além do que temos imediatamente à frente dos olhos: muros forrados a hortênsias a delimitar os terrenos verdinhos, mais vacas do que pessoas e um silêncio quase fantasmagórico. Há outro miradouro ao virar da esquina - Arcos da Ribeira da Cruz, nas proximidades da qual se terão fixado os primeiros povoadores da ilha, no século XV - mas parar aqui serviria de pouco. "As nuvens nos Açores têm uma vida extraordinária", diz Raul Brandão no livro que nos acompanhará ao longo de toda esta jornada açoriana - e não podíamos estar mais de acordo.

Já percebemos que daqui não levamos nada, nem por sombras conseguiremos avistar as sete lagoas que são uma das imagens de marca das Flores. Descemos, portanto, e vamos fixar-nos mais perto do mar, onde as nuvens não parecem ter tanta vida. Antes, porém, paragem no miradouro do Portal: a Fajãzinha é uma manta de retalhos de campos verdes molhados de orvalho e tem a Aldeia da Cuada por cima; a cascata da Alagoinha, talvez o maior spot da ilha, hoje não dá mais a ver do que uns risquinhos esbranquiçados na rocha de vegetação compacta; lá ao fundo, a Fajã Grande e o ilhéu de Monchique, perdido no Atlântico.

É para lá que vamos agora, para a Fajã Grande, já nas Lajes das Flores, que exibe com orgulho o título de concelho mais ocidental da Europa. Foram-se as nuvens e voltamos a entrar no Verão. Junto ao mar, a Fajã Grande mais não é do que uma evocação da geografia. É nas Flores que acaba a Europa e começa a América e isto, só por si, vale muito. Quem não gosta de dizer aos amigos que já esteve no ponto mais ocidental da Europa? Que tecnicamente é, no entanto, o ilhéu de Monchique, um rochedo isolado no mar.

É também na Fajã Grande que tem morada o Poço do Bacalhau, uma cascata que desagua na lagoa com o mesmo nome e que no Verão funciona como complemento ao mar. Nós, porém, não trocamos as águas azul-turquesa por nada deste mundo e deixamo-nos ficar por aqui. Mesmo que apenas deitados em cima do muro a ouvir o barulho das ondas. Não se está nada mal, neste ponto mais ocidental.

O cúmulo do isolamento

A primeira coisa que se faz nos Açores ao acordar é correr para a janela e fazer figas para que o tempo esteja de feição. Ao segundo dia na ilha, abrimos as cortinas, espreitámos para cima e vimos a caminhada pelo maciço rochoso da Sé por um canudo.

Não somos malta de desistir facilmente e lá entrámos no jipe da West Canyon à espera de um milagre. Raul Brandão, mais uma vez: "Esta paisagem molhada e verde é como um sonho: entreabre-se, fecha-se, sorri e adormece..." Não tivemos sorte, porém: pelo menos a esta altitude, as Flores não se abriram para nós, mantiveram-se naquele estado em que "água, ar e bruma intimamente se casam". Ao volante, Marco Melo explica--nos que o trilho que estava previsto para esta manhã (convém que seja guiado, uma vez que não está marcado na sua totalidade) começaria na Fazenda de Santa Cruz e terminaria no Pico da Sé. "As vistas lá de cima são de cortar a respiração", afiança. Não duvidamos, mas praticamente não vemos um palmo à frente do nariz. Chegamos de jipe à zona dos Piquinhos e, além dos musgos na beira da estrada de terra batida, dos coelhos (tantos!) que saltam à nossa frente e das omnipresentes hortênsias, só esta bruma que nos dá cabo dos planos.

Parece-nos que nas Flores todos os caminhos vão dar ao nevoeiro - e dizemos isto em voz alta. Inconformado, Marco dispõe-se a provar-nos o contrário. Quem não tem cão, caça com gato: em poucos minutos entramos na Estrada Municipal do Galo, que dá acesso à Fajã de Lopo Vaz, perto das Lajes. Voltámos para a costa e o sol brilha agora com alguma intensidade. Olhamos para baixo e percebemos onde vamos ter de chegar, a pé. Às 11h15 começamos a cumprir o trilho da fajã.

Vamos descendo, com o vento a assobiar na vegetação (canas, conteiras) e o mar a rugir lá em baixo. É bonita, a paisagem, mas há-de melhorar não tarda. Vamos escutando os melros pretos e os tentilhões, observando as faias da terra (espécie endémica) empoleiradas na encosta rochosa e sentindo o cheiro a urze, que aqui se chama queiró. Em 15 minutos chegamos a uns degraus de pedra e deste ponto a vista para o mar pode ser vertiginosa para olhos mais sensíveis. E é daqui que vemos, lá em baixo, duas casas brancas - não, três, não, quatro, são quatro pontinhos brancos que sobressaem do negro basáltico das pedras que são o chão da fajã.

Continuamos a andar, ainda não passou meia hora, mas assusta olhar para cima e perceber que há este caminho pela rocha para subir de volta. Marco sossega-nos, habituado que está a palmilhar todos os caminhos das Flores, e diz que "é muito pior descer". A ver vamos. Por enquanto vemos a árvore da groselha e o araçazeiro - dá umas bagas muito utilizadas na ilha para fazer doce de araçá, que haveremos de provar e aprovar um destes dias. O vento amainou e o sol está agora muito mais aberto.

Passaram 45 minutos desde que começámos a descer e já temos a fajã debaixo dos pés. A primeira casa, que lá de cima era um pontinho minúsculo, ergue-se, branca, à nossa frente. Deixa ver alguns sinais de degradação, mas ainda assim percebe-se que cá esteve gente há pouco tempo, pelos vestígios de uma fogueira recente. A propósito, Marco explica que o acesso às casinhas plantadas na Fajã de Lopo Vaz é mesmo o que acabámos de cumprir, não há outro caminho - a não ser para quem chega pelo mar.

É para o mar, precisamente, que vamos agora. As ondas rebentam junto à areia e pedras negras, mas o azul, iluminado por um sol agora forte, enfeitiça. Não temos roupa para o mergulho, afundamos apenas as mãos na água para lhe confirmar a temperatura amigável. Olhamos em redor e vemos apenas dois turistas que também aqui chegaram a pé. De resto, somos nós, o céu e o mar azul, a areia negra e grossa e uma ou outra gaivota para garantir banda sonora. Rede de telemóvel não há e damos connosco a pensar, mais uma vez em voz alta, que isto deve ser o cúmulo do isolamento. Marco corrige-nos e garante que não.

A subida custa mais ou menos o mesmo que a descida - com a diferença que agora praticamente não falamos. Está calor, sentimos sede a cada passo e de repente estamos a beber água que escorre da rocha através de uma folha da qual improvisamos um copo. No último lanço de escadas, já conseguimos avistar o jipe, o que dá motivação extra para os metros finais. Estamos cansados, transpirados, esfomeados - há muito que uma simples sande de fiambre não nos sabia tão bem.

Com estas e com outras, já se passou a manhã. Porque somos persistentes, ainda jogamos, mais uma vez, o jogo do gato e do rato com as lagoas. Quase já sabemos de cor os caminhos que nos conduzem a elas. "Por vezes um fio de sol doira a névoa a medo", dizia Raul Brandão, mas ainda não foi desta - as nuvens continuam a montar guarda às lagoas, como se de um tesouro valioso se tratasse. Já não temos muito tempo, mas entretanto já aprendemos que é preciso saber esperar. Esperemos, então.

No Corvo, sem caldeirão

Flores, dia 3 - e também Corvo, dia 1. A manhã de sábado acorda prometedora, mas já sabemos que nos Açores isso não quer dizer muito. Às 9h35, quando entramos no barco semi-rígido que nos há-de levar ao vizinho Corvo (a ilha mais pequena dos Açores, que dista das Flores 13 milhas), o sol mais do que aquece os corpos, apesar dos pingos de chuva que caem a espaços. Somos 12 passageiros mais dois tripulantes e estamos a postos para galgar o Atlântico e desaguar no misterioso Corvo.

Antes, porém, temos direito a passagem panorâmica pela costa nordeste das Flores: ilhéus da Alagoa, de Álvaro Rodrigues (chegou a ter plantações de milho e exibe uma nascente natural) e Furado; Fajã da Ponta Ruiva, que ontem víramos de cima; as grutas da Catedral (imensa, com um eco extraordinário, daí o nome) e do Galo - a rocha é cortada, o sol incide na água e deixa à vista um pedaço de mar turquesa forte, tão cristalino quanto difícil de definir; a réplica marítima da Rocha dos Bordões, ex-líbris das Flores que (ainda) não lográmos ver em terra - um acidente geológico que se caracteriza pela solidificação da rocha basáltica em altas colunas prismáticas verticais.

Carlos conduz o barco para os recantos que se impõem e vai dando algumas dicas para olhos menos atentos. As hortênsias na escarpa, por exemplo, o pormenor da estratificação das rochas, o garajau comum que parece posar para as fotografias. (A propósito, ontem à noite ouvimos pela primeira vez o canto perturbador dos cagarros.)

A esta altura, navegamos devagarinho, quase ao sabor das (poucas) ondas. Mas entretanto Carlos distribui uns casacos amarelos impermeáveis, avisa que é possível que nos molhemos e que vamos começar a viagem a sério rumo ao Corvo.

Tinha razão: dali a pouco, alguns dos passageiros estão encharcados mas ninguém parece importar-se com isso. Meia hora depois, terra à vista - mas nem sombras do Caldeirão, que está devidamente emoldurado pelas nuvens do costume. A caminhada e posterior piquenique na cratera do antigo vulcão não passa de uma miragem neste momento.

Vista daqui, a vila do Corvo é um amontoado de casas brancas num canto da ilha. O resto é o vazio. Não há mais vazio do que isto, quer-nos parecer - e isso, para nós que vimos de visita, é simplesmente magnético. Raul Brandão também achou: "O Corvo tem alguma coisa de monástico, de convento erguido no meio do mar."

Aportamos às 10h55 e as indicações de Carlos são estas: "Se o Caldeirão abrir, saímos de volta às 16h00; se não abrir, saímos às 14h00."

O Corvo tem casas empoleiradas umas nas outras, ruelas apertadas -e não parece ter gente. Pudera: os Censos deste ano informaram que vivem na ilha de 6,5 quilómetros de comprimento por quatro de largura 430 pessoas. Ou seja, pensamos agora que vamos passeando na rua, os corvinos têm muito por onde se esconder.

Tantos anos depois - a viagem que resultou no livro As ilhas desconhecidas teve lugar em 1924 -, Raul Brandão ainda parece ter razão. No Corvo "acabam as palavras" e o mundo que conhecemos. "Neste tremendo isolamento", a "vida artificial está reduzido ao mínimo". Por exemplo: Lara, uma menina de uns dois, três anos no máximo, corta-nos os pensamentos. Vem a fugir da mãe, rindo - e percebemos pela conversa entre as duas que fez desaparecer "um saco com uma receita". Passa entretanto uma mulher carregada com maçãs verdes e diz bom dia - porque no Corvo quem passa na rua diz bom dia a quem encontra, e isto é a vida tal como ela é, simples.

Andamos mais uns minutos à deriva, com um gato enrolado nas pernas (chamamos-lhe Corvo, que apropriado), a tentar perceber verdadeiramente a que sabe o isolamento. A Paulo, por exemplo, um florentino que há 17 anos virou corvino, sabe bem. É de poucas falas, este funcionário "das obras públicas", e adivinhamos-lhe algum cansaço na temática. "Vim para cá e nunca mais saí. De vez em quando vou às Flores, mas não me custa nada viver aqui. Somos açorianos, já sabemos o que é viver longe de tudo, habituámo-nos e pronto." Pronto, não se fala mais nisso, Paulo. Já agora, agradecemos a boleia desde a estrada do Caldeirão, que no Corvo mandam regras como esta: quem encontra turistas a subir ou a descer pára e oferece ajuda. Para cima, fomos na caixa da furgoneta de Sandra, uma espanhola que há dois anos está na ilha a trabalhar num projecto de estudo e conservação das aves marinhas. O Corvo é, para quem não saiba, uma importante zona de observação de pássaros, sobretudo nos meses de Outubro e Novembro.

Subimos ao Caldeirão, contávamos, mas nada feito. Parece-nos que o nevoeiro daqui é ainda mais pesado que o das Flores. Apeamo-nos no topo de onde é suposto vermos a caldeira, mas o máximo que conseguimos são arrepios de frio causados pelo vento, que a esta altitude, mais de 700 metros, sopra forte. Sandra, ainda assim, vai guiar um grupo de amigos por um trilho próximo do miradouro da Fonte Doce e é aqui que nos deixa, para descermos, supostamente a pé, de volta à vila. Atravessamos zonas de pastagem para o gado, também elas delimitadas por muros de pedra forrados de hortênsias, e começamos a achar que não teremos tempo para chegar ao cais à hora marcada. Mas isto foi antes de apanharmos boleia de Paulo e o resto vocês já sabem.

De novo na vila, de novo debaixo de sol, ainda sobram alguns minutos para um café no bar dos bombeiros, ponto de encontro de muitos corvinos. Pedimos apenas café, mas arrependemo-nos de não ter pedido uma fatia daqueles aparentemente deliciosos bolos caseiros.

Estamos a despedir-nos do Corvo e levamos saudades para dentro do barco. Parece-nos que os que lá vivem já olham com enfado para os que olham para eles com uma certa condescendência. Admitimos: talvez não aguentássemos muito tempo neste grande rochedo vulcânico rodeado de mar (de nada?) por todos os lados, mas temos a certeza que saímos daqui com uma visão fragmentada da realidade. Queríamos mais do Corvo: queríamos ver o Caldeirão, a "grande fantasmagoria" de que fala Raul Brandão, e queríamos ajuizar por nós se ele é, de facto, "um grande desterro". Queríamos comer com os corvinos e esperar a chegada dos barcos que alimentam a ilha de tudo - ou do avião que cá vem três vezes por semana, assim o tempo o permita. Havemos de voltar, Corvo.

Flores, o fim de festa

Por enquanto voltamos às Flores, onde temos a base da nossa viagem ao grupo ocidental do arquipélago. O mar está agora mais alteroso e Carlos informa que o regresso será certamente mais molhado. Vamos de cabeça baixa, para evitar os salpicos de água salgada, até que ouvimos as palavras mágicas: "Golfinhos, golfinhos!" Lá estão eles, à esquerda do barco. Primeiro ao longe, primeiro poucos - mas depois quase coladinhos a nós e muitos, elegantes nos seus saltos acrobáticos. Tinham-nos dito que havia 90 por cento de hipóteses de os vermos e cá estão eles, para gáudio de todos os passageiros. Mais difícil, como se comprovou, seria avistarmos baleias, mas de vez em quando também aparecem.

O que aparece agora, ao fundo, é mesmo a ilha das Flores - e o recorte dos seus pontos mais altos apresenta-se muito mais nítido do que nos dias anteriores. Será hoje, finalmente, que vamos pôr a vista em cima das lagoas?

Na da Lomba, pelo menos. Apesar das nuvens, está completamente visível. Tem uma forma mais ou menos circular e está enquadrada por criptomérias e, claro, por belíssimas sebes de hortênsias. De momento não está cá mais ninguém. Ouvem-se os pássaros e o vento e agora o sol espreita por momentos, bate-lhe e torna as suas águas mais claras.

Embalados pela sorte, vamos em busca das que nos faltam no currículo. Correm as nuvens e corremos nós, a cruzar os dedos. Nada na Comprida, nada na Negra. Mudamos de lugar, sempre atrás dos prejuízos desta neblina que nos troca as voltas. Estamos há minutos à espera de poder ver uma nesga da lagoa Funda. Primeiro perdemo-la, por dez segundos. Pacientes, esperamos, que aqui aprendemos a esperar. E entretanto ela surge, uns metros apenas, que se escondem logo às mãos destas nuvens com vontade própria.

Estamos dentro de um jogo de paciência, que agora nos oferece um centímetro da Negra e um centímetro da Comprida. Andamos para trás e para a frente, ao sabor dos blocos de nevoeiro. De vez em quando, um ameaço de sol doura os campos molhados e renasce a nossa esperança. Marco, porém, conhece melhor do que ninguém estas "terras metidas nos vulcões" e chama-nos à realidade: por mais que esperemos hoje, não as veremos na plenitude que merecem. Resignemo-nos, então, a voltar para o continente com esta lacuna por preencher.

A não ser que...

A não ser que ainda não sejam 8h00 do último dia e que o telemóvel nos arranque do mundo dos sonhos - para nos levar para o mundo dos sonhos. "É o Marco. Está um dia magnífico. Se quiserem fazer um passeio antes voo, é pegar ou largar."

Pegámos, como é óbvio. Fomos subindo em direcção às lagoas debaixo de uma luz como nunca tínhamos visto a esta altitude. Já não era toldada, como nos outros dias, mas muito mais límpida - talvez a "poeira dourada" de que fala Raul Brandão. Ignoramos a entrada para a lagoa da Lomba, que ontem já tínhamos visto, e dirigimo-nos sem outras paragens para a Comprida. Uma súbita neblina ainda nos faz temer o pior, mas de repente fechamos os olhos e quando os abrimos lá está ela, completamente despida para nós.

O silêncio é enorme, deixamo-nos ficar num exercício de contemplação. Estamos a viver um momento quase solene, que interrompemos para avançar poucos metros a fim de conhecermos a vizinha lagoa Negra. É uma circunferência quase perfeita, rodeada de espécies endémicas por todos os lados: cedro do mato, louro, queiró. Tem mais de 100 metros de profundidade que, no entanto, não assustam devido à magia do cenário. Mais mágico do que isto só mesmo o que vemos em seguida, no varandim de um segundo miradouro. As duas lagoas, a Comprida e a Negra, praticamente lado a lado - ou, se preferirmos, de costas voltadas, numa sintonia descasada quase dramática. O sol incide sobre a Negra e deixa-nos ver-lhe melhor a tonalidade das águas. O momento é solene, já tínhamos dito - este canto da ilha é belíssimo, acrescentamos agora, sem receio de exageros.

Entramos no jipe com a alma cheia. E quando, em simultâneo, alcançamos com o olhar as lagoas Funda e Rasa, damos muito mais valor ao que está a acontecer. Era justificada a angústia dos últimos dias: não podíamos deixar as Flores sem levarmos connosco estas imagens de assombro e rendição. A lagoa Funda é de uma beleza extrema, quase trágica de tão verde. Por um rasgão nas nuvens, vê-se o mar lá ao fundo. Mas o impacto é muito maior, realmente, quando estão ambas no mesmo plano de visão.

Estamos absolutamente esmagados. Isto é imenso e misterioso, pena não termos mais tempo para fruir do instante. A contragosto, voltamos as costas a este reino encantado e vamos descer. De bónus, ainda levamos a visão longínqua da lagoa Branca. E finalmente o céu abre-se para nos mostrar a imponência da Rocha dos Bordões. Talvez hoje pudéssemos subir ao Pico da Sé e fazer a caminhada até ao Poço da Alagoinha.

A ilha, percebemos agora, é uma mulher prudente: não se mostra à primeira, gosta que lhe façam a corte sem pressas. Nós tivemos alguma pressa, reconhecemos. Mas havemos de voltar, Flores.

Quando ir

O Verão é, hipoteticamente, a melhor altura para uma visita à ilha das Flores, mas, conforme a Fugas constatou, não é garantia de nada. É de facto possível apanhar as quatro estações num mesmo dia. O conselho mais sensato que temos para dar é este: quem desejar realmente conhecer a ilha, deve optar por uma estadia mais ou menos distendida, para aumentarem as hipóteses de fintar os caprichos da meteorologia.

Como ir

Não há voos directos do continente para a ilha das Flores, nem tão-pouco para o Corvo. De Lisboa e do Porto, há várias hipóteses de escala. Com a Sata, a Fugas voou do Porto para Ponta Delgada e de lá para as Flores. O primeiro voo durou perto de duas horas, o segundo uma hora e um quarto. Dependendo da altura do ano e da antecedência com que se marcam os voos, o preço final rondará os 300, 350 euros. A TAP também voa de Lisboa e do Porto para as ilhas. Das Flores para o Corvo (e vice-versa), a viagem pode fazer-se de barco (30 euros o barco turístico, saída do cais do Boqueirão, Santa Cruz; 20 euros o barco de carreira, do Governo Regional, saída do Corvo para o porto das Poças, em Santa Cruz das Flores, duas vezes por dia, de manhã e de tarde). No Verão, os barcos do Governo saem todos os dias, menos à quarta-feira. Quanto ao avião, sai às segundas, quartas e sextas das Flores para o Corvo e os bilhetes, de ida e volta, andam à volta dos 50 euros. O voo dura 15 minutos.

Onde ficar

O Hotel das Flores, propriedade do Inatel, é a mais recente unidade hoteleira da ilha e oferece muito boas condições, confirmou a Fugas. Há quartos com vista de mar, que são os mais recomendáveis - e também, claro, os mais procurados. Destes quartos, em dias límpidos, é possível avistar o Corvo. Situado em Santa Cruz, a dois passos do Centro de Interpretação Ambiental do Boqueirão e do cais com o mesmo nome, pertíssimo também do aeroporto, tem uma piscina que parece prolongar-se no mar e um restaurante competente.

Hotel das Flores
Zona do Boqueirão, Santa Cruz
9970-390 Santa Cruz das Flores
Tel.: 292 590 420
Email: inatel.flores@inatel.pt
www.inatel.pt

Preços: 108€ quarto standard e 115€ quarto superior (duplos).

Onde comer

Sejamos francos: a restauração na ilha das Flores precisa de um impulso. A oferta não é muito grande e há lugares com fama de cobrarem muito por pouco - leia-se por comida que não é nada de especial. Se tivermos que recomendar um restaurante, recomendamos o Pôr do Sol, na Fajãzinha. O nome não engana e há quem diga que oferece o melhor ocaso da ilha. Instalado numa casinha de pedra, oferece um ambiente rústico e comida tradicional, sendo que a grande especialidade é a linguiça com inhame. Também serve feijoada e alguns peixes. No capítulo das sobremesas, destaque para os vários pudins, com nomes tão sugestivos como "pudim não sei". As doses começam nos oito e vão até aos 12, 13 euros.

Restaurante Pôr do Sol
Fajãzinha
9960-110 Fajãzinha
Tel.: 292552075

O que fazer

Para além dos passeios de mera contemplação da natureza, há variadíssimas actividades que podem ser feitas na ilha: caminhadas, passeios de jipe pelas estradas mais improváveis, canyoning nas mil e uma ribeiras. A West Canyon organiza diversos programas e adapta-se às características dos turistas que tem pela frente. A empresa também promove expedições ao Corvo.

West Canyon
Fazenda de Santa Cruz das Flores
9970-243 Santa Cruz
Tel.: 968 266 206
Email: info@westcanyon.net
www.westcanyon.net

A Fugas viajou a convite da Associação Regional de Turismo dos Açores