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O Outono/Inverno 2013 vai ser tão 1993

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    O grunge étnico de Vivienne Westwood DR
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    O desfile da Saint Laurent para o Outono/Inverno 2013 Gonzalo Fuentes/Reuters
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    Um look do desfile Givenchy DR
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    Desfile Prada na Semana da Moda de Milão Outono/Inverno 2013 Tony Gentile/Reuters
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    Uma das imagens do lookbook da Zara para a nova estação DR
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    Desfile Céline na Semana da Moda de Paris Benoit Tessier/Reuters
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    Um dos looks do desfile de Philip Lim DR
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    Uma das criações Céline para a próxima estação DR
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    Uma das propostas Christian Dior, na passerelle de Paris DR
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    O rosa pálido em Miu Miu DR
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    Desfile Louis Vuitton Outono/Inverno 2013 DR
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    Fendi DR
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    Christopher Kane DR
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    Um dos looks dos portugueses Marques'Almeida na ModaLisboa DR
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    Uma das propostas de Stella McCartney para a próxima estação DR
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    O desfile Gucci Outono/Inverno 2013 DR
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    Antonio Marras DR
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    Dolce&Gabanna DR
O Outono/Inverno 2013 vai ser tão 1993 Por Joana Amaral Cardoso Directório

As tendências são escolhas e a rua elegeu Courtney Love e Kurt Cobain como os reis do baile de Inverno.

As revistas de moda estão polvilhadas de letras de Nirvana. Miranda Kerr parece um híbrido límpido de Courtney Love e Kathleen Hanna no catálogo da Mango. O styling do desfile da Prada era uma sucessão de camadas de vestidos e camisolas, devidamente replicado no lookbook da Zara, onde não faltam o xadrez e casacos amarrados à cintura. Até Phoebe Philo fez da Céline uma versão luxo minimal dos sacos de compras das lojas chinesas com que carregamos a roupa da lavandaria. Marc Jacobs pôs as mulheres Vuitton de negligé e casacos protectores num ambiente que podia ser uma reinvenção 1990 dos boudoirs muito do it yourself. Há mulheres Hitchcock e casacos rosa pálido e azul bebé, ombros casulares e minimalismo, mas este Outono/Inverno é mesmo tão 1993. 

Em 1993, In Utero (Nirvana), Vs. (Pearl Jam) e Five Dollar Bob's Mock Cooter Stew (Mudhoney) chegavam às lojas e punham-se em cima das listas dos mais vendidos. Em 1993, Bill Clinton chegava à Casa Branca e o primeiro satélite português, o PoSAT-1, ia ao espaço. Em 1993, a imprensa atestava o que a cultura juvenil já sabia: o chamado grunge, que incluía tantas sonoridades diferentes, era dissecado e replicado em todas as suas versões. 

Em 1993, o então jovem Marc Jacobs era despedido da Perry Ellis por ter posto o grunge na passerelle. “Não havia este tipo de exploração de uma subcultura desde que os media descobriram os hippies nos anos 1960”. Seguir-se-lhe-ia o punk que, como vimos na última década, também foi diluído em passerelles e lojas com a maior desfaçatez. 

Em 1993, Nova Iorque era a quarta e última paragem do calendário principal das semanas de moda internacionais e o desfile de Donna Karan era elogiado no New York Times como “um exemplo da melhor organização de um desfile ao estilo europeu”. Agora, são os americanos que abrem o calendário oficial, um mês mais cedo do que há 20 anos e com mais poder comercial para o grande público. É um "americano" em Paris que faz uma das colecções mais influentes, ainda que sem muito de novo e com muita polémica com editores de moda poderosos à mistura, para esta estação – o atestado disso está, para o bem e para o mal, nas lojas de moda rápida. Ele que mergulhou nas bandas da Califórnia do Sul, ele que fotografa a toda a hora os cabelos desalinhados e as meias rotas dos miúdos que descobriram que Kurt Cobain morreu quando eles ainda não tinham conjugado o verbo nascer, ele Hedi Slimane.

Em 2013, Slimane fez com que se fizessem T-shirts a dizer que 'Ain’t Laurent without Yves' por ter tirado o primeiro nome à casa de moda que o contratou e fez uma colecção sem novidade mas que novamente pôs os anos 1990 na passerelle. Não foi despedido. Na mesma Paris, Riccardo Tisci trata dessa iconografia com flores e casacos reconstruídos com cortes e fechos para a Givenchy. Dries van Noten mistura sweatshirts com cabedal e xadrez, Antonio Marras ou Phillip Lim brincam com as flores e cores dos anos 1990. 

Em 2013, das passerelles portuguesas (Marques’Almeida, confessos dissecadores da estética low-fi dos anos 1990) às internacionais, ele é camuflados, flores e rendas, quadrados e pêlos, minimalismo, sapatos pesados de sola todo o terreno e as sobreviventes tachas, a dar cartas desde os anos 1970. 

Em 2013, claro que há mais. Os ombros arrendondados, o barroco dos estampados Vivienne Westwood e pedrarias Dolce&Gabanna, Christopher Kane camuflado, casacos Céline, as peles com rios flúor da Fendi, o rigor das mulheres à la 1950's. As tendências são escolhas e a rua fez a sua. O desenrolar das nuvens e do tempo frio trará as restantes ao de cima. (E levanta-se a questão: quando - e não se - é que esta versão de Courtney Love vai fazer uma plástica, ou várias, esgueirar-se para dentro de um vestido Versace de seda e oficializar o fim do grunge como subcultura - e dos anos 1990?)

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