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Cossery superstar

Foi-me impossível defender o espírito da garbosa figura de Albert Cossery e dos seus ensinamentos ociosos. Tinha (ainda) menos anos e (maior) tendência para a idolatria. Quando nos cruzámos – eu a ler sobre ele, ele sem saber de nada –, nomeei-o sem demoras grande-herói da mandriice internacional e continuei a falhar aulas, uma após a outra, mas a partir de então com o devido enquadramento literário e a reflexão cultural que só os livros permitem.

Vivo. Cossery ainda estava vivo e a habitar o mesmo quarto de hotel que ocupava desde 1945, em Paris (achava eu; na verdade, tinha-se mudado em 2002 do quarto 58 para o 77). Partilhávamos o presente, a Europa e a preguiça. Ele com mais de 90 anos, eu com mais de 20. Era uma história bonita. E projectava o tempo em que também eu cobriria o pescoço com um lenço de caxemira e em que escreveria apenas uma frase por dia. Um senhor – era o que seria.

Tantos anos e só oito livros. Um hino à preguiça. Cossery escrevia tão bem e tão pouco. Era um exemplo e com ele consegui reduzir ao mínimo os ímpetos adolescentes que me restavam. Comer e dormir – eis tudo. Aprendi-o em Mandriões no Vale Fértil, um daqueles livros que nos afectam a postura (no caso, não a verticalidade, mas a horizontalidade). Guardo com ternura a imagem de Galal, que só se levantava da cama para se servir do que oferecia a mesa posta.

O texto fez maravilhas pela minha autocomplacência naquele Verão de fim de curso, pré-estágio, pré-trabalho, pré-preocupações, pré-rotinas, pré-correrias, pré-tudo. Li-o na cama, em sucessivas tardes de sol, com as gaivotas a espantarem os gatos vadios e a espreitarem para dentro do quarto a partir do telhado do vizinho. Seria o último Verão de Cossery. Eu não o sabia e, entre capítulos, idealizava uma entrevista do jovem jornalista ao velho mestre.

Era uma reedição dos gloriosos momentos no relvado da Luz, ao lado de João Pinto e Rui Costa, com que a fantasia me havia animado anos antes. Mas armado ao culto blasé. Saía do quarto para a varanda do nosso apartamento de então, de mui cool localização, em Miguel Bombarda, no Porto, mirava as palmeiras e dava umas baforadas com o meu cachimbo imaginário. (Era um cachimbo pensante, claro, e cantava como o Boris Vian.)

Comprei os Mandriões no Pavilhão Rosa Mota (ou Palácio de Cristal, como lhe chamam os optimistas), na feira do livro daquele ano. Cinco euros. Fiquei maluco. Comprei logo o seguinte. A Casa da Morte Certa, salvo erro. Esse ficou mais caro. Ou não? Já não estou certo. Seja como for nunca gastei mais de dez euros num livro de Cossery – a boa literatura anda por aí tão escondida em preços de saldo que nem sabemos se lhe havemos de botar a mão.

O Jovem Törless, do Musil, foi outro banquete de marisco que paguei ao preço do tremoço. Há casos assim. Mas voltemos a Cossery, para fazer a ponte ferroviária Porto-Lisboa. Quando nos mudámos para a capital, como bom e bem-comportado aspirante a moço letrado, passei a frequentar a feira do livro cá do sítio. E o que sucedeu? Mais livros de Cossery a cinco, sete e meio, e dez euros. Pechinchas. A Antígona faz-nos o favor e nós aceitamos muito contentes.

A banca da Antígona é um ponto de paragem obrigatória. Não há ano em que não saia de lá com pelo menos um livro (que costuma ser acompanhado por outro, oferta da casa). Tanto que há lá em casa uma prateleira dedicada à editora: além do Cossery, o Anatole, o Orwell, o Sade, o Rámon Gomez, o Bukowski, o Jappe… até aos 6000 Anos de Pão, ao Ministros da Noite e a Os Bons Velhos Tempos da Prostituição em Portugal. Uma mina refractária em expansão.

Cossery é estrela, evidentemente. Mas continuam a faltar por lá alguns dos seus romances: aprendi com uma querida amiga que não deve ler-se mais do que um por ano, para que não se esgote rapidamente; de maneira que, para evitar tentações, temporizam-se as compras. De resto, tenho cumprido. Dou-me por bom aprendiz. Aplico até a mesma fórmula a Saramago. São os meus ases literários: este de copas, o outro de espadas. Cada um joga as cartas de que dispõe. Nem que seja para escarnecer dos trunfos dos outros. Uma arte que Cossery ensina muito bem e que dá bastante jeito para a nossa vida de pós-modernos. Isso e ouvir GNR.