Suor e Fantasia
A finíssima arte da preguiça
Uma das maravilhas da escola é o facto de aprendermos conceitos que nos permitem justificar os vícios e manter a cara séria. O meu preferido é a “zona de conforto”, que é um eufemismo perfeito para a preguiça de que padeço desde o início dos tempos. Melhor só quando aprendi que a inércia era uma propriedade física de estudo sério – ia rebentando de contentamento.
É bem mais reconfortante pensar nas diferentes forças que concorrem para nos manter ou alterar a rota, e a tarefa hercúlea que seria dominar tantas quantas fossem necessárias para afectar sequer a velocidade com que essa rota é percorrida, do que assumir que não temos um plano a cinco, a dez ou a 15 anos quando lemos um daqueles artigos muito populares sobre a impreteribilidade do planeamento profissional num mundo competitivíssimo.
Optar por uma bordoada – tretas! – não é completamente satisfatório porque, bem vistas as coisas, não percebemos assim tanto de psicologia e de gestão que possamos separar o trigo do joio nestes artigos. Podemos espatifar-nos na primeira curva: não temos certeza absoluta do que estamos a dizer. Reconhecer a existência de uma resistência natural, tal como dita a primeira lei de Newton, e apontar para a miríade de tarefas diárias é jogar pelo certo.
Nem sempre resulta. Em miúdo, ouvi um médico diagnosticar-me como um tipo ansioso. O que era uma oportunidade evidente: podia deixar de ser birrento para passar a padecer de achaques nervosos. Que piedosos pais se atreveriam a contrariar um filho assim? Um filho que tinha de ser acarinhado e amparado para se manter de boa saúde? Os meus. Fiquei muito chocado quando, logo a seguir à consulta, me contrariaram a vontade. Passei horas indignado.
Na idade adulta, a autojustificação para a inércia é um exercício de liberdade criativa (como esta expressão, de resto, que ficaria muito bem na capa de um best-seller de “não-ficção”). Quando decidimos dedicar os serões de semanas consecutivas a ver todo o Breaking Bad, é porque estamos a instruir-nos sobre a cultura popular. Quando passamos horas a rir com o Louie CK, ao computador, estamos a sorver a realidade de forma inteligente e acutilante.
O humor é o zénite da desculpabilização dos preguiçosos. Quase se legitima a si próprio. Quase dispensa o processo mental de justificação: ora, estou a ver o Ricardo Araújo Pereira porque nos denuncia os vícios, e fá-lo de forma eloquente e desassombrada, com frescura e respeito pela inteligência do interlocutor; afinal, quando foi a última vez que alguém citou Kant em horário nobre, aqui ou noutra parte do mundo? Além disso, faz cócegas na barriga.
Faz sempre boa figura quem consegue vislumbrar os Monty Python numa rábula televisiva (é como citar um tema obscuro do White Album numa canção de segunda linha de uma banda chamada ao Primavera Sound, dá para fazer pose). E dizer que estamos a rever o Seinfeld ou The Office também é respeitável. Ou assobiar o tema dos Simpsons. Ou partir de Uma Família às Direitas para um debate proto-académico.
Se, a determinada altura, conseguirmos pensar que o que estamos a ver é uma sátira à vida pós-moderna (sei lá, à terceira temporada de Girls), temos um jackpot nas mãos. Convém manusear com cuidado para não nos tornarmos pedantes, mas é de utilização imperiosa (como adjectivaria o pessoal na Quinta da Atalaia). O mesmo serve para o cinema, onde não vamos ver os filmes, claro, mas o que fizeram com as nossas queridas graphic novels.
A infância é um reduto importante. A sociedade reconhece-o e permite que, a espaços, a revisitemos – quer seja por saudade ou para nos certificarmos de que os capitalistas de Hollywood não a destruíram. Não pagamos bilhete para gostar de Watchmen, como é evidente… Não vamos ver o Batman: vamos fazer comparações entre o Nolan e o Tim Burton, entre o Christian Bale e o Michael Keaton, e entre o Jack Nicholson e o Heath Ledger.
Outras pérolas da auto-alienação são as comédias românticas inteligentes. Com os Smiths a tocar, não é pecado um jovem urbano estar completamente absorvido por (500) Days of Summer. Os filmes do Wes Anderson têm um efeito semelhante. Há quem chame a isto guilty pleasures, mas estão a levar tão a sério o que se foi aprendendo na escola que estão quase a dar a volta e a estragar o esquema que temos montado. “Culpado” de quê? Não percebo…
Na literatura, como o investimento é maior, todos os cuidados são poucos. É preciso ser criterioso. Temos de ser proprietários de uma edição de Dom Quixote de La Mancha e convencermo-nos que estamos ansiosos por a ler: haja tempo! Depois, podemos ir “aos russos”. O que significa começar pelas sátiras (ah!) do Gógol, completamente por acaso, e manter os restantes em carteira. Se, por alguma razão, o Tolstói se intrometer, o cuidado é novamente fundamental: o Guerra e Paz é grande, não cabe na boca e às tantas as nossas autojustificações estão cá fora a verter letradice e a ditar sentenças à juventude ignara.
Quando dermos por isso, estamos nos autores marginais, nos escritores malditos. A misoginia do Bukowski, o alcoolismo do Kerouac, o diletantismo do Pacheco, tudo é lido com um sorriso idiota, mas com a certeza de que estamos a sentir o verdadeiro pulsar do século XX. Não estamos a entregar-nos ao odioso ócio, não. Estamos a gastar todo o tempo livre a cultivar-nos, para sermos pessoas melhores. É isso que estamos a fazer. E até podemos anunciá-lo aos nossos pais, dando ares de moço cosmopolita. Eles desconfiarão. Mas vale a pena tentar.