Bruno Calado

Já fomos ao cabaret de José Avillez - mas não estragamos a surpresa toda

Algures dentro do Bairro do Avillez nasceu (mais) um conceito de restaurante saído da cabeça do chef. O Beco é um cabaret inspirado pelo Maxim’s do seu trisavô.

“Vimos para o Beco." Avançamos, pela calada da noite, à procura da entrada, seguindo um homem misterioso. Tinham-nos avisado que a porta estava escondida mas que, de certeza, haveria espectáculo nessa noite. E o homem que nos guia parece confirmar que, efectivamente, alguma coisa acontece hoje no Beco.

O Beco – Cabaret Gourmet é o novo restaurante que José Avillez acaba de abrir numa “rua” escondida do seu Bairro no Chiado. A primeira vez que viu aquele espaço do “bairro” pensou imediatamente na ideia de um cabaret. Mas confessa que hesitou. Era, afinal, entrar por uma área diferente da restauração. Bailarinas? Música? Entretenimento?

Mas a ideia não abandonava a cabeça do chef. E havia um detalhe decisivo. Em 1908, o trisavô de José Avillez, José Ereira, abriu no Palácio Foz o cabaret Maxim’s, onde havia comida e bebida, mas também entretenimento e jogo e foi esse ambiente que inspirou Avillez a abrir o Beco.

Todo o projecto fez com que os últimos meses tenham sido no mínimo originais para o Grupo Avillez. De repente, já não havia apenas entrevistas para empregados de mesa ou cozinheiros, mas também para bailarinas, cantoras e mágicos, além das provas de guarda-roupa ou a descoberta de que uma das cozinheiras, Carla, tem voz de cantora.

A ajudar na montagem do espectáculo esteve Maria Cerveira, assistente pessoal de Avillez que passou pela companhia de Olga Roriz. O design de interiores é de Ana Anahory e Filipa Almeida, com detalhes concebidos por Joana Astolfi, e o mural, por trás do bar, foi desenhado por Henriette Arcelin e pintado por Patrícia Braga.

Sigamos, então, o homem de chapéu e barba e entremos no Beco. A porta fecha-se atrás de nós e estamos num mundo muito diferente do que acabámos de deixar para trás. Revelar muito seria estragar a surpresa, mas podemos dizer que há veludos vermelhos e rosas, verdadeiras ou nem por isso, há carabineiros e colares de pérolas, guardanapos marcados por beijos e truques de magia. E até diamantes – tão verdadeiros como algumas rosas.

O menu tem 12 momentos e, se o quisermos situar no universo Avillez, o mais correcto será dizer que fica algures entre o Mini Bar e o Belcanto, mas que tem como linha principal o divertimento. Ou seja, também no prato há truques de ilusionista, coisas que não são o que parecem e várias surpresas.

Quem vier jantar ao Beco – só é permitida a entrada a quem tiver comprado o bilhete para o jantar-espectáculo – não deve esperar uma refeição calma ou íntima. Vai haver muita coisa a acontecer, mas o ritmo do serviço (os clientes chegam todos mais ou menos à mesma hora) e o equilíbrio entre os momentos de entretenimento e aqueles em que estamos apenas concentrados na comida ou na conversa está bem conseguido. Tanto a equipa de sala como os artistas vão avaliando o ambiente em cada mesa para perceber até que ponto podem ou não criar mais momentos de interacção.

A certa altura é o próprio José Avillez quem passa pela nossa mesa e conta como descobriu esta sua ligação familiar aos cabarets. Sabia que o bisavô tinha estado ligado aos casinos do Estoril e da Figueira, mas há uns tempos foi contactado por um historiador que lhe falou da ligação do trisavô ao Maxim’s e do papel importante que teve nos esforços para tornar o jogo legal na cidade.

O Maxim’s era um espaço muito importante na capital no início do século XX. “Foi o primeiro club a aparecer em Lisboa, com dancing, salas de jogo e roleta, bar e restaurante onde se podia comer pela madrugada dentro”, recorda o blogue Restos de Colecção. Antes da I Guerra Mundial, este tipo de espaços funcionavam como casinos mas, sendo o jogo proibido, diversificavam a sua oferta “de modo a conquistar mais público e, de certa forma, a camuflar a sua actividade original.”

Os anúncios da época reproduzidos pelo Restos de Colecção apresentam-no como “o único dancing de Portugal”, “célebre pela sua magnífica arquitectura”, com “lindos efeitos de luz”, “números de variedades” e “orquestras de jazz e tangos” e ainda “jantares e ceias de mesa redonda e à carta por preços excessivamente baratos”.

No primeiro andar, conta ainda o blogue, “havia um cubículo que durante algum tempo serviu de abrigo para um empregado que […] estava ligado por um fio a uma campainha de alarme instalada na zona secreta do jogo”. Quando a polícia chegava, ele avisava e tudo mudava na sala de jogo, “a própria mesa da roleta não estava visível, os clientes estavam sentados em sofás fumando, tomando bebidas e conversando descontraidamente […]”. Se, por acaso, a polícia tinha sorte e chegava antes da transformação, o Maxim’s acabava por ter que encerrar por tempo indeterminado.

Um século depois, o trineto de José Ereira soma ao seu vasto universo de restauração um espaço inspirado nesse Maxim’s que, segundo a imprensa da época, atraía “o que de melhor há em Lisboa”. No Beco, que se saiba, não há jogo clandestino e não há o perigo de a polícia aparecer de repente e mandar fechar a casa. Mas há bailarinas e mágicos e tudo o resto.

Acreditem, este jantar é um cabaret. Mas, afinal, a vida também – não é o que dizem?

 

Beco – Cabaret Gourmet
Bairro do Avillez – Rua Nova da Trindade, 18
Tel.: 210 939 234
Becocabaretgourmet.pt
Preço do jantar-espectáculo (sem bebidas): 130 euros (lugar à mesa), 100 euros (balcão). Após o jantar, o Beco passa a funcionar como bar.
Horário: encerra às terças e quartas; às sextas e sábados há dois turnos para jantar; domingo, segunda e quinta apenas um turno. Bar abre às 23h (com espectáculo).