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À procura de si próprio na Serra de Monchique

No meio do Algarve, um oásis de paz propõe a comunhão com a natureza para uma harmonia pessoal.

Quando se entra na Awakeland, as convenções sociais, o stress e até a rede de telemóvel ficam à porta. Aqui não há barulho de aviões a passar, de carros a apitar e o ritmo do dia é imposto à velocidade de cada um – ainda que com alguns guias e programas a cumprir. O ruído de fundo é o silêncio, mas a proposta é bem sonora: três dias de música, dança e meditação em plena serra de Monchique. Quem nos recebe é Ashik, o criador do projecto e espaço da Awakeland.

Nesta comunidade, “cada um vem à procura de si” e para cada um há um papel. Até para quem está de visita. O objectivo é conseguir uma relação de consciência, presença e responsabilidade com a natureza que abriga o espaço. A paisagem é dourada, cortada apenas por um azul forte e com apontamentos verdes de uma vegetação que cresce ainda tímida, depois de ter sido destruída por um incêndio no último Verão. Completamente renascido, o espaço dispõe de estadias para todos os gostos. Das tendas mais simples aos dormitórios e é até possível ficar mais isolado, em casas afastadas, num caminho que conduz à zona dos três lagos naturais na região e que convidam a um mergulho.

O que se vê agora é resultado de um projecto que começou por acaso. Ashik, de 52 anos, planeava apenas "devolver à Terra o que ela lhe deu". A ideia inicial era a plantação de árvores e “fazer com que o solo fosse recuperado”, mas atrás do combate à desertificação dos solos, veio o combate à desertificação de pessoas. “Alguns amigos ofereceram-se para ajudar na plantação, mas depois perguntaram-me se ia organizar umas meditações. Começou por aí e percebi o potencial do projecto. E assim foi crescendo”, contextualiza o terapeuta, que recebe agora um grupo de cerca de 40 participantes. Das vozes que se ouvem no espaço identificam-se portugueses, brasileiros, holandeses, belgas e italianos. As idades viajam em igual diversidade, entre os 20 e os 60 anos.

Ashik, que na última década se especializou na área do tantra e tem um doutoramento em sexologia, defende a pertinência de projectos e espaços como este para que se viva em plenitude. “Vivemos dominados pela cabeça. Somos educados nas universidades a usar a cabeça de uma forma muito agressiva”, analisa. “E precisamos de nos desligar, de pensar o resto do corpo”, continua. “A cabeça é um óptimo escravo, mas um péssimo mestre”, acrescenta.

Para o terapeuta, de uma forma geral, “nos últimos tempos há mais contacto com o corpo, que foi uma coisa perdida nas três gerações anteriores”. “As pessoas andavam mais, montavam a cavalo, mexiam-se, cavavam e tinham um contacto mais com a natureza e com elas próprias e o corpo e perderam essa relação mais física com o corpo”, assinala. “Agora estamos a voltar a isso, na meditação, através da dança, através da sexualidade”, exemplifica, citando alguns dos eventos de ioga, massagem, dança e até respiração que o espaço tem programado para os próximos meses.

Um estilo de vida alternativo

Foi nessa procura que Sumero e Padma se encontraram. O casal na casa dos 60 anos destaca-se do grupo em todas as sessões de meditação. O olhar que trocam, a curta distância que mantêm um do outro e o abraço longo e apertado com que encerram cada meditação de grupo denunciam uma cumplicidade especial. “É uma relação de anos”, atira um. Não é. Na realidade, o casal conheceu-se no último ano, num encontro tântrico na Irlanda. Então, quando se olharam, sentiram uma ligação imediata, conta-nos Padma, de origem holandesa, enquanto procura o olhar de Sumero. O português escuta-a com atenção e pousa suavemente a sua mão na dela.

“Perdi-me ao longo dos anos e quis perceber quem sou”, explica Padma, que pelo caminho abandonou o nome com que nasceu. “Quis fazer meditação não para me sentir a voar, mas porque queria voltar a sentir a terra debaixo dos meus pés. Tinha muita coisa na minha vida, mas por não parar, não me permitia viver essa felicidade”, continua. Para Padma a dança transe, um dos programas que experimentamos neste festival, é uma das melhores terapias.

Nem sempre é fácil fechar os olhos e conseguir parar de pensar na lista de compras, nos horários para ir buscar os miúdos, no e-mail que ficou pendente ou se comprámos comida para o gato. Por isso, a dança surge como uma solução (ou ajuda) para obrigar o cérebro a parar de pensar – ou pelo menos a pensar menos. O ritmo apodera-se do corpo e a mente expressa-se com ele. Com a meditação de dança transe, o exercício é feito de olhos vendados e somos conduzidos por um professor, que entre sons da natureza e gritos de animais reproduzidos bem alto no interior da tenda onda dançamos nos força a explorar todos os limites do nosso corpo.

Sumero confessa-nos, com alguma tristeza, que “acordou” tarde para a meditação. Felizmente, ressalva, “aqui há muitos jovens". "Para mim, isso é a garantia de que o mundo não é, nem pode ser, um lugar mau”, sorri enquanto olha à sua volta, fixando os olhos num grupo de participantes que vai cantando e dançando.

Vishwas é um deles. Tem 36 anos e formou-se em contabilidade. Ainda trabalhou na área financeira alguns anos, mas a vida agitada de Lisboa empurrou-o para o Awakeland, onde é o grande responsável pelo cultivo das plantas. Nada é feito ao acaso e a variedade de espécies, mesmo tropicais, exige técnicas de permacultura e um conhecimento profundo das características do terreno.

Papaia, tamarilho, líchia e goiaba são alguns dos frutos mais exóticos. Depois existem os legumes e verduras mais clássicas: alface, tomate, pepino, couves. Além disso, o que não dá para comer não se desperdiça: é possível fazer óleos ou utilizar para sabonetes. “Só a presença delas funciona como inspiração”, acrescenta Vishwas. E quem visita o espaço pode aproveitar para aprender mais sobre esta arte, vinca.

“É o maior especialista nas redondezas”, garante quem ali trabalha. E esse é um trabalho importante: tudo começa nas plantas. A energia aplicada na agricultura é devolvida já com o alimento e é encarada como uma das bases de bem-estar necessário à meditação – e até a alimentação é totalmente vegan. “Para mim a verdadeira medicina é eu poder comer a minha energia. Uma semente tem de estar húmida quando vai para a terra. Por exemplo, eu coloco a semente na minha boca antes de a plantar e quando a abóbora vem para a mesa eu estou a comer um alimento que tem a minha energia”, exemplifica o antigo contabilista, para quem agora a economia apenas acontece nas trocas de produtos com a vizinhança (uma vez que a comunidade ainda não consegue ser auto-suficiente).

Também Avibhasha, outro dos membros da organização, chegou à comunidade por “acaso”. Especializada em Ciências Farmacêuticas, a passagem pelos laboratórios mudou a perspectiva como via a medicina convencional. Depois de conhecer Ashik numa viagem, visitou o espaço em Monchique e nunca mais saiu. Hoje com 29 anos, funciona “como uma ponte” entre a comunidade e o mundo lá fora.

“Se uma pessoa se sente bem a ouvir a música e a mexer-se, mesmo que não esteja a fazer com a coordenação certa deve continuar a ir, porque é através dos sentimentos e da vibração que sem querer se acabam por aprender as coisas”, convida Arantxa Joseph, a professora de danças tribais que coloca toda a gente a ferver no mesmo movimento, num dos exercícios mais exigentes do festival.

“Há uma conexão com o corpo, desde o ritmo dos pés, ao movimento das mãos, a coordenação dos pés com as mãos. Estás atento ao corpo”, justifica, com o olhar posto no horizonte da paisagem. “Não é fácil entregares-te. As pessoas demoram algum tempo, mas aqui esse trabalho é mais fácil”, sublinha Arantxa.

E os participantes concordam. “Para começar somos recebidos pelos donos do espaço e as pessoas são próximas. É uma dimensão familiar. Pelo menos foi isso que eu senti”, conta José, um dos participantes que veio para o festival de dança. Toda a comunidade “tem uma certa leveza”, completa Padma. O balanço não podia ser mais positivo. Este éden a nascer no Algarve é para procurar – e para se encontrar. 

O Life&Style viajou a convite da Awakeland