• Nuno Ferreira Santos
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VII Feira Alternativa de Lisboa

Três dias num mundo à parte

O Jardim Botânico Tropical de Belém foi o cenário da VII Feira Alternativa em Lisboa, promovida pela empresa Terra Alternativa, que apoia iniciativas ambientais e de desenvolvimento pessoal. Ao longo do fim-de-semana, mais de 25 mil pessoas visitaram um espaço que, sob o mote do bem-estar e da sustentabilidade, ofereceu um pouco de tudo, desde leitura da aura a lições de tango.

Assim que se entra no recinto da feira, o cheiro a incenso envolve e convida a desacelerar. De imediato, o público depara-se com um mundo à parte. Entre árvores exóticas, caminhos de pedra e o lago, dezenas de stands emolduram o percurso adiante, parecendo borrões de tinta branca na paisagem verde. O jardim vibra com músicas do mundo, enquanto decorrem demonstrações, palestras e workshops um pouco sobre tudo e um pouco por todo o lado.

No auditório, as palestras somam-se e o público vai circulando de acordo com as temáticas abordadas. São tantas como os sabores numa gelataria: xamanismo, hipnoterapia, tarot, astrologia, permacultura urbana ou alimentação saudável. São tantas as demonstrações e experiências à disposição que a única dificuldade é escolher.

Em frente ao auditório, um grupo de pessoas optou por fazer um tratamento chamado HidroLinfa e abandonaram as mãos e pés em bacias com água durante meia hora. “A HidroLinfa consiste numa desintoxicação do corpo através da electrólise da água”, esclarece Ana, que está sentada há vinte minutos com os pés de molho. “Tudo o que ficar a boiar na bacia é toxina”, explica, acrescentando que aprecia o esoterismo e a espiritualidade inerente à feira, mas que não crê em “leituras de aura feitas em cinco minutos”. As que fez em Inglaterra demoraram horas, assegura.

Mais abaixo, não muito longe de Ana, está o espaço da Aura-Soma, onde se dão consultas sobre a energia que envolve cada indivíduo. Após a selecção de três cores da palete iridiscente de óleos essenciais – ao todo são 106 frascos –, é feita uma avaliação cromática da aura. João Almeida é terapeuta energético e psicoterapeuta, e tira há dez anos fotografias à aura das pessoas. Defende que há mais portugueses em busca de terapias alternativas e de auto-cura, tal como a cromoterapia, “que usa a cor para estabelecer a sintonia entre corpo, mente e emoções.” Há, pois, a possibilidade de se fotografar a aura e, entre astrólogos, cartomantes e tarotistas, de se ler o mapa astral, ou de se conseguir pistas sobre o futuro próximo.

Tomás é casado com Ana e partilha da sua incredulidade quanto às opções esotéricas da feira. “Não acredito em cartomantes nem em gurus”, diz o psicoterapeuta, afirmando que o profissionalismo é a chave para ganhar a sua credibilidade. Contudo, não considera ser “errado recorrer-se a psicoterapeutas e astrólogos, ou mesmo a cristais e massagens.”

Ana espanta-se com a adesão à feira, mas principalmente com o à-vontade demonstrado pelas pessoas nos stands das massagens: “há uns anos estas feiras tinham um público muito restrito, e agora os portugueses parecem ter aberto os horizontes. Era impensável alguém tirar a roupa e deitar-se no chão para receber uma massagem.”

Dão-se massagens japonesas, de reiki, de shiatsu ou embalados pelas vibrações de gongos. Aqui, todos os sentidos são usados para despertar novas sensações. E as propostas foram pensadas de forma a não deixar ninguém de parte. Se muitos dos visitantes são famílias, muitas são as actividades desenvolvidas para crianças.

Enquanto a mãe faz a limpeza de toxinas, Joana e Beatriz, gémeas com oito anos, só conseguem entusiasmar-se com as grutas naturais, as raízes superficiais das árvores e falam divertidas sobre esquilos e cisnes. Apenas quando perguntamos pelas actividades da feira é que referem o stand Sonorizar-te como favorito. É todo um imenso mundo de instrumentos musicais, onde se demoram muitas das crianças. Há paus-de-chuva, feitos à base de cactos secos. Há didjeridoos, instrumentos indígenas australianos feitos à base de eucaliptos ocos, comidos por térmitas. Descobrem-se taças tibetanas, fabricadas na Índia, e utilizadas em meditação e terapias de som. Vêem-se kazoos, maracas, gongos, xilofones e sinos tibetanos, e no meio de tudo isso um shruti box, instrumento indiano cujo som lembra em simultâneo um acordeão e o choro de um palhaço.

Não muito longe, no stand do Guarajá Esotérico, além de incensos, budas, fontes de resina, jardins zen e pedras semi-preciosas, descobrem-se amuletos. É Débora quem explica o significado de todos eles, tocando-os para que tilintem ou dancem: “isto é um espanta espíritos, e isto é um caça sonhos” que, com a forma de uma teia de aranha, “atrai sonhos bons e afasta pesadelos” e espíritos maus. Ao lado está um difusor energético. À medida que o rodamos, a esfera de cristal parece subir ou descer, e é assim que capta e limpa energias, tal como o fazem os cristais e as pedras semipreciosas, só que estes precisam de ser limpos e energizados. Como electrodomésticos para limpeza interior.

Vendem-se produtos ecológicos ou naturais perto da exposição fotográfica LoveTrees, de Zito Colaço, que revela a fotogenia da paisagem da Reserva Botânica da Mata Nacional dos Medos, na Costa da Caparica, enquanto no palco a programação oferece danças orientais, latinas, africanas e urbanas, havendo também demonstrações de artes marciais ou pilates.

Shayna é sueca, tem 36 anos e dá um workshop sobre comida crua, que defende ser mais saudável. Aconselha as pessoas a comprarem produtos biológicos e a preocuparem-se com a riqueza nutritiva dos alimentos. Entre os truques que conquistam os mais jovens, fazer chocolates sem açúcar é um deles e torna-se simples quando é Shayna a ensinar. A receita exige “pó de cacau cru, manteiga de cacau e stevia”, um adoçante natural que pode ser substituído por açúcar de coco.

“Existe de tudo para agradar a toda a gente”, diz Kula, de 42 anos, que é percussionista e participa na feira como membro da organização Rit’Mundo. Está sentado à sombra e fala com um sorriso nos olhos e na boca: “as pessoas têm aqui a oportunidade de experimentar perspectivas e realidades diferentes daquelas que conhecem. Só têm de decidir até que ponto estão dispostas a mergulhar na toca do coelho”. Surge-lhe então a analogia perfeita. A feira funciona como o país das maravilhas de Lewis Carroll, onde cada stand equivale a uma toca de coelho, “podendo uma pessoa deixar-se cair dentro dela, mergulhando centímetros ou metros”, ou apenas espreitar, curiosa, lá para dentro.