Stefano Rellandini/REUTERS

As curvas de Itália

O mercado dos tamanhos grandes está a crescer. Mas Milão continua a excluir do calendário oficial da semana de moda as marcas que representam as mulheres maiores. A colecção Elena Mirò para o Outono-Inverno 2010/2011 é uma resposta a esta atitude: a moda italiana começou com as mulheres curvilíneas e carnudas do cinema dos anos 40 e 50. Elegantes e femininas.

Um mini-croissant com queijo, outro com doce, uns quadradinhos de chocolate, um shot de mousse. A rapariga loira tem a cabeça cheia de rolos e usa um roupão branco e chinelas de quarto. Tem fome, que pode ela fazer? E é gulosa. Os bolos têm tão bom aspecto! Mais um para o caminho, sendo o caminho a passerelle.

A meia hora do início do desfile da marca de tamanhos grandes Elena Mirò, ainda há tempo para comer, para beber um chá quentinho, para conversar com as colegas que só se encontram de vez em quando, para dar entrevistas.

Não estamos em território estranho. Mas estamos em território diferente. A poucos quarteirões dali há outra passerelle, a da Semana de Moda de Milão. De certeza que não há bolinhos apetecíveis, generosas fatias de queijo e copinhos de mousse - talvez uns canapés, umas frutas, saladas à hora do almoço.

"Oh, eu quando tenho fome preciso de comer, não consigo passar fome."

Em 2005, a marca Elena Miró entrou no calendário oficial da Semana de Moda de Milão, tornando-se tradição que abria os desfiles. Houve louvores à entidade organizadora, o Governo de Roma teceu elogios - finalmente, todas as mulheres estavam representadas nas passerelles. No ano passado, porém, foi excluída. Por razões de "imagem", relembra Elena Miroglio, do grupo Miroglio que detém a marca Elena Mirò. "Algumas marcas não estavam em sintonia com o que o pronto-a-vestir deve ser. Queremos apregoar os valores da criatividade que reafirma o valor de Milão no mundo", disse o presidente da Câmara Italiana de Moda, Mario Boselli. Este ano, voltou a frisar a mesma ideia: "No calendário [oficial] estão presentes todos os grandes da criatividade italiana e esta é uma característica desta cidade."

Descodificando: as raparigas Elena Mirò são gordas demais para serem elegantes, a roupa para quem usa tamanhos grandes não pode ter a qualidade estética da outra.

Mulheres do mundo inteiro

O problema, como explicam (e mostram) as raparigas à beira de desfilar na passerelle instalada na escola militar de Milão, é que são elas e não as muito magrinhas que representam as mulheres do mundo inteiro (ou pelo menos do mundo ocidental) que compram roupa. Têm busto, têm ancas, têm rabiosque e belas pernas.

"É uma pena [estarmos de fora do calendário oficial]", comenta a modelo holandesa de tamanhos grandes Andrea Koolen. É a veterana da passerelle Mirò. Há quatro anos fez um casting, desde então é chamada pela marca para desfiles, catálogos e publicidade. Catálogos, publicidade e editoriais é, aliás, o mundo destas modelos de tamanhos grandes (plus size). "Desfiles, infelizmente, quase não há. Só este e um em Londres", acrescenta Anouska.

As modelos plus size - explica Andrea - estão acima do tamanho 42-44. "A diferença entre nós e as outras modelos é que elas têm de ser 32 ou 34. Isto para mulheres altas."

"Aqui temos vários tamanhos e isso permite-nos manter a forma natural do nosso corpo, não temos de contrariar as nossas formas", explica Andrea Koolen. Se há uma grande diferença entre estas modelos e as outras, é na atitude, explicam as raparigas. "Não fazemos dietas hard core, eu quando tenho fome gosto de comer. Mas preocupo-me com o que como e faço exercício físico. A nossa grande preocupação é sermos saudáveis e cuidarmos do nosso corpo. Gosto de ter tudo no sítio." (Andrea, como outras modelos plus size, admite que começou a carreira sonhando desfilar todas as grandes marcas, mas, depois de meses ou anos sem trabalho, sem serem chamadas sequer para castings, a opção pelos tamanhos grandes tornou-se no único caminho).

Resposta à exclusão

À ordem de vestir, as raparigas despem os roupões. Nos cabides que lhes correspondem estão as roupas que passarão (três coordenados para cada uma) e um kit com um soutien - outra diferença em relação a outras passerelles; os soutiens podem marcar a roupa, pelo que, por norma, são dispensados. Aqui, fazem parte do vestuário de passerelle porque fazem parte do vestuário das mulheres.

Pintadas, penteadas e vestidas, as modelos seguem para o desfile que se chama Curve d'Italia.

Porque Elena Mirò quis responder à exclusão. Se o calendário oficial quer mostrar "os grandes" da moda italiana, então os criativos da sua marca iriam relembrar como tudo começou. E quem projectou a Itália como um país de moda? As mulheres. As mulheres morenas, curvilíneas e carnudas do cinema a preto e branco do pós-guerra. Sofia Loren, Gina Lollobrigida, Lucia Bosé, Ana Magnani. Na passerelle, mais do que uma colecção, desfilou uma atmosfera.

"A colecção é inspirada nas famosas capas de revistas italianas dos anos de 1940 e 50. Nessa época surgiu um novo ideal de beleza, que nasceu com as primeiras estrelas de cinema. Quisemos criar um equilíbrio entre a elegância natural das mulheres e a vitalidade, o desejo de alegria e o dinamismo da Itália dessa época", explica Elena Miroglio, acrescentando que, há 26 anos, quando a marca foi criada no grupo Miroglio, foi feito um trabalho de pesquisa sobre a forma de assentar da roupa em corpos que usam tamanhos grandes. "Esse trabalho é fundamental, as peças têm de ser muito bem cortadas, muito bem acabadas, têm de ter boas proporções e uma boa silhueta. Tudo isso permite que as peças plus size sejam bonitas."

A colecção para o Outono/ Inverno 2011/12 é muito glamorosa. As cores escolhidas são sóbrias mas vibrantes: azul-cobalto, cinza-pérola e fúscia. Os cortes são de inspiração alfaiate, ou seja, perfeitamente moldados ao corpo, o que permitiu obter vestidos muito elegantes e femininos, com saias ligeiramente abaixo do joelho e ornamentados com detalhes femininos como laços, renda e aplicações de strass. As calças de cintura subida e perna direita alongam a silhueta e os materiais usados (seda, por exemplo) permitem figuras bastante fluidas. A completar, sapatos stiletto e pregadeiras de brilhantes. A inspiração anos 50, que já esteve presente nas passerelles em estações passadas, vai portanto manter-se não só na Primavera/Verão mas estender-se ao Inverno.

Uma fatia de bolo

"A nossa mensagem" - prossegue Elena Miroglio - "é que este tipo de beleza feminina se vai ver cada vez mais. Aliás, já há sinais disso no cinema, na publicidade, nas revistas. Já vemos todo o tipo de corpos e não só os muito magros." As curvas, está convencida, vão ser a nova grande tendência na moda. "A maior parte da indústria está a sofrer um pouco devido à crise, ao dinamismo do consumo, e à dinâmica dos preços. Mas os tamanhos maiores estão a sair-se muito bem, é um mercado que está a aumentar", revela Elena Miroglio perante a persistência das perguntas sobre a opção de Mario Boselli.

"É uma má imagem da indústria em relação a este segmento, sendo que esta é uma área que está a crescer. A maior parte da indústria está a sofrer um pouco, por causa dos preços e do dinamismo do consumo, mas os tamanhos maiores estão a sair-se bem porque o mercado está a aumentar. É uma grande oportunidade para a indústria porque estas mulheres não querem apenas ter alguma cosia para vestir, querem moda. [Os desfiles] não são só espectáculos, temos de vestir as mulheres, torná-las mais bonitas e femininas", diz Miroglio.

Na véspera do desfile - também o primeiro dia da Semana de Moda de Milão, cuja passerelle principal foi instalada na praça da catedral; quando passámos por ela, Karl Lagerfeld apresentava as propostas Fendi.

Elena Miroglio ofereceu um jantar aos seus convidados e às modelos num restaurante de Milão. Comeu-se pasta com marisco, pizza assada no forno, bifes altos e mal passados pela grelha, bebeu-se vinho branco e tinto. E na manhã seguinte, Elena deixou em cima dos lugares dos convidados do desfile uma caixa com uma generosa porção de bolo de chocolate.

Texto originalmente publicado na Pública