Low fat food para miúdos

No Reino Unido, os adolescentes compram em redor das escolas alimentos com "níveis potencialmente prejudiciais" de sal, açúcar e gordura, muito acima dos valores máximos aconselhados. Com os seus menus escolares, Jamie Oliver conseguiu uma vitória - mas ainda pequena.

Uma aluna a comer um rolo de salsicha resumiu em três frases tudo o que Jack Winkley e Sarah Sinclair tinham concluído em meses de pesquisa nas lojas que vendem comida em redor das escolas. Entrevistada por Winkley para um programa televisivo, a rapariga foi muito clara: não ia à cantina da escola porque já estava no 11º ano e tinha, pela primeira vez, permissão para sair (era aliás o primeiro dia de aulas do 11º ano, e quem não iria aproveitar uma liberdade que não tinha no ano anterior?), porque para comer na cantina tinha de esperar numa fila, e porque indo à loja ao lado da escola poupava dinheiro (na verdade poupava 27 pence).

"Em 30 segundos ela resumiu as nossas conclusões: comer fora da escola é uma opção que tem a ver com as filas, com os preços e que é vista como um sinal de maturidade, já que só os mais alunos mais velhos podem sair", explica Winkley, responsável pela Unidade de Política de Nutrição da London Metropolitan University (www.nutritionpolicy. org), numa conversa telefónica com o PÚBLICO. Winkley e Sinclair são autores do estudo The School Fringe What Pupils Buy and Eat from Shops Surrounding Secondary Schools (A Zona em Redor da Escola O Que É Que os Alunos Compram e Comem nas Lojas Que Rodeiam as Escolas Secundárias).  

Apesar dos esforços que têm sido feitos no Reino Unido desde há pelo menos cinco anos (e mais intensamente desde que Jamie Oliver lançou a sua campanha por uma melhor alimentação escolar), não se pode dizer que os resultados sejam impressionantes. "Antes da criação do School Food Trust [organismo independente criado em 2005, e financiado pelo Departamento da Educação], o número de crianças que comia nas escolas estava em queda. O que se conseguiu foi que nas primárias ele aumentasse ligeiramente (está agora um pouco acima dos 40 por cento), mas nas secundárias conseguiu-se apenas travar o declínio (está nos 36 por cento)", explica Winkler. 

"São perto de 80 por cento os alunos que compram alguma coisa fora nas lojas à volta, e dois quintos nunca foram à cantina (só seis por cento têm o hábito de comer uma refeição quente ao almoço). Ou seja, as refeições escolares são comidas por uma minoria de alunos, apesar de todos os esforços e atenção e de todo o interesse que Jamie Oliver desperta." Por isso, conclui Winkler, "seria irrealista esperar que [a melhoria da qualidade da alimentação] tivesse um grande efeito no peso das crianças.

"Existe no Reino Unido um programa que mede e pesa as crianças antes da entrada na escola primária e quando saem, seis anos mais tarde. "Os números indicam que a obesidade não aumentou, mas também não diminuiu." E mostram outra coisa: 23 por cento das crianças são já obesas ou com excesso de peso quando entram na primária; esse número aumenta para 33 por cento quando saem. Ou seja, "o problema começa antes de entrar na escola". 

E continua depois, claro. "É por volta dos nove anos que as crianças começam a comprar comida [fora da escola]. A transição de uma dieta de criança para uma dieta de adolescente começa nessa idade." O estudo (que foi feito apenas em duas escolas) mostra que é no caminho para as aulas ou quando voltam para casa que a maioria das crianças compra comida. E que a consome sobretudo no intervalo da manhã, por volta das onze horas, para ter a hora do almoço totalmente livre. 

E que "comida" é essa que os alunos compram nas lojas e cafés em redor da escola? Winkley e Sinclair identificaram os quatro principais tipos de produtos adquiridos: em primeiro lugar refrigerantes; a seguir doces à base de chocolate; em terceiro doces sem chocolate; e por fim, em quarto, batatas fritas. "O nosso estudo mostra que os miúdos estão a comprar sobretudo açúcar e não tanto gordura." Um terço dos alunos tomava o pequeno-almoço de forma irregular e 11 por cento responderam que nunca tomavam.  

A comida que os adolescentes habitualmente consomem foi analisada por iniciativa do Consensus Action on Salt and Health, abrangendo um universo de 45 zonas de Londres onde existem escolas. A conclusão não é surpreendente: estes alimentos contêm "níveis potencialmente prejudiciais de sal, gordura e calorias" e estão a grande distância dos critérios nutricionais das refeições que Jamie Oliver propôs para as escolas britânicas. 

Foram analisadas 73 amostras dos produtos mais populares entre os jovens, relata o The Observer. Muitas continham excesso de sal - 54 das 73 tinham mais sal do que é permitido nas refeições escolares, e algumas tinham 7,4 gramas, claramente acima dos 6 gramas da dose máxima diária recomendada pela Food Standarts Agency. Uma refeição comprada numa loja de frango tinha 22,1 gramas de gorduras saturadas, o que equivale a cinco vezes e meia uns McChicken Nuggets com batatas fritas grandes, do McDonald's. 

Uma guerra difícil 

Algumas das refeições continham duas vezes e meia mais do que o limite oficial para gorduras saturadas, revela o jornal. O limite diário é de 20 gramas e um dos kebabs analisados tinha 48,7 gramas. Foi também uma refeição de kebab com batatas fritas que atingiu o máximo de calorias: 1525. "Os pais deverão ficar chocados por verem que os filhos podem estar a consumir mais do que a dose máxima diária de sal antes mesmo de chegarem a casa vindos da escola", alertou Rob Rees, presidente do Food School Trust, citado pelo Observer. E lançou um apelo: "Quero menos pais a financiar a alimentação dos filhos para lá dos portões da escola."

Mas esta é uma guerra difícil. Fechar os alunos nas escolas, não os autorizando a sair - em inglês, esta medida é eufemisticamente chamada stay-on-site - ou proibir a venda de junk food em redor das escolas não são as melhores opções, acredita Winkley. Já foram proibidos vários produtos dentro da escola (desde batatas fritas a chocolates) e são precisamente estes os que mais sucesso têm nos cafés fora da escola. 

O que este especialista defende é que é preciso aumentar o tamanho das cantinas para que os alunos não tenham de perder muito tempo em filas e trabalhar com as lojas que rodeiam os estabelecimentos de ensino. E avança com algumas ideias. Pode, por exemplo, ser a própria escola a criar um pacote de comida saudável que se possa vender nas lojas - "uma sanduíche, uma sopa quente, ou um prato quente, uma peça de fruta, ou um iogurte low fat ou até batatas fritas low fat, que são cozinhadas com menos 70 por cento de gordura". É essencial não hostilizar os donos das lojas. "Temos de pensar do ponto de vista deles. O que é que uma loja local quer? Fazer dinheiro. Por isso temos de pensar como é que a escola a pode ajudar a fazer dinheiro." 

Medidas mais "duras" 

Outra proposta do professor para a escola ajudar os comerciantes é a do combate aos roubos. "Há lojistas que se queixam que 50 por cento dos Donuts que entram na loja acabam por nunca passar pela caixa registadora." Ou seja, há um elevado nível de roubos nas lojas próximas das escolas, a grande maioria dos quais parece estar ligada à população estudantil, e os responsáveis da escola podem tentar reduzi-los. 

"Nos últimos anos surgiu um movimento que é já considerável para pressionar os restaurantes de takeaway a ter comida com mais qualidade", conta Winkley. Um dos exemplos de sucesso aconteceu em Belfast, onde os takeaway mais populares são os chineses, que se têm mostrado sensíveis às pressões e estão a melhorar a qualidade. 

Por fim, há algumas medidas mais "duras", mas que podem também ser úteis, como, por exemplo, a proibição das carrinhas que vendem doces e refrigerantes perto das escolas (Winkley fala mesmo na hipótese de as substituir por carrinhas com comida saudável).

As tentativas de melhorar a saúde das crianças, combater a obesidade e aumentar a qualidade da alimentação têm desde o início deparado com obstáculos e resistências. O professor da London Metropolitan University explica que há vários anos que havia esforços nesse sentido, mas foi Jamie Oliver quem lhes deu visibilidade, ao lançar a campanha Feed Me Better, em 2005. Nos primeiros tempos, o chefe enfrentou a fúria de muitas mães, que enchiam as mochilas dos filhos de hambúrgueres e batatas fritas e que protestavam conta as receitas de Jamie. 

O próprio Jamie Oliver diz que sempre pensou que seriam necessários dez anos para começar a ver resultados, mas neste momento já há sinais de que as coisas começaram a mudar. No ano passado, surgiram os primeiros números que indicam que o investimento está a compensar. Segundo dados recolhidos em Londres, os alunos com cerca de 11 anos estão a ter melhores resultados escolares e faltam menos às aulas desde que em 2004/2005 foram introduzidos os novos menus, e os hambúrgueres, os douradinhos e os rolos de salsicha foram substituídos por receitas como peixe com molho de coco e wrap de feijões mexicano. Com as novas ementas, houve também um aumento considerável no número de crianças a frequentar as cantinas - de 2009 para 2010, mais 300 mil miúdos passaram a comer na escola. 

Apesar disso, Christine Haigh, coordenadora da Children's Food Campaign (www. sustainweb.org), acha que ainda há muito a fazer. É preciso, por exemplo, legislar sobre a publicidade a junk food, que possa ser vista por crianças. Até agora a legislação abrange apenas os programas infantis, mas Haigh defende que deveria abranger toda a televisão até às 21h.  

Na página do movimento na Internet, o grupo justifica a necessidade de medidas drásticas citando dados do National Diet and Nutrition Survey, segundo os quais 92 por cento das crianças britânicas consomem mais gordura saturada do que o recomendado; 86 por cento consomem demasiado açúcar; 72 por cento consomem sal em excesso; e 96 por cento não consomem fruta e vegetais em quantidade suficiente. 

Calcula-se que em 2050 metade das crianças britânicas tenha excesso de peso. 

Texto originalmente publicado na Pública