Sabe o que o seu filho comeu ao almoço?

Sopas, legumes, peixe - as cantinas escolares estão cada vez mais a dar comida saudável aos alunos e a ensiná-los a distinguir o que faz bem do que faz mal. Mas, quando chegam ao secundário e têm dinheiro nas mãos, os jovens saem das escolas e compram bolachas, refrigerantes e batatas fritas no supermercado. Estamos a ganhar ou a perder a guerra contra a obesidade?

Avenida da Igreja e Praça de Alvalade, Lisboa, 13h20

Corredor de um supermercado, zona dos refrigerantes: uma rapariga acabou de tirar uma bebida da prateleira e o rapaz que a acompanha já tem na mão um refrigerante e dois pacotes de bolachas de chocolate com pepitas. Param, por um instante, com as compras na mão, para responder à nossa pergunta. "Quanto custa o almoço na escola? Um euro e 46 cêntimos."

É hora de almoço. Na escola secundária Rainha Dona Leonor, em Lisboa, acabou de tocar para a saída, e uma onda de alunos sai e divide-se em pequenos grupos, espalhando-se pelas avenidas de Roma e da Igreja. Aqui no supermercado, que está neste momento a encher-se de jovens, uma sanduíche de atum ou de delícias do mar custa 1,95 euros, e as batatas fritas mais populares custam dois euros. Se juntarmos a isto o preço do refrigerante, a soma "é a tradicional nota de cinco euros que se pede aos pais", contabiliza um dos alunos que está no supermercado.

A churrasqueira, que vende um quarto de frango ou entrecosto ou salsichas, com batata, arroz e salada a três euros, não tem ainda muitos clientes, mas o McDonald's da Praça de Alvalade está cheio a deitar por fora. "Há quem venha aqui comer três cheeseburguers, que custam um euro cada", diz o rapaz. "E, às vezes, quando saem da escola à tarde, passam também aqui para comprar um."

Um grupo de amigas está sentado no chão, um bocadinho mais à frente. Duas delas têm nas mãos tupperwares com comida caseira, outra segura uma merendinha e uma bebida e outras três acabam de chegar com sacos do McDonald's instalando-se também na borda do passeio. É "raro", garantem, comer no McDonald's, porque, apesar de tudo, "sai caro". São do 11.º ano, da escola António Arroio, e estão ali porque têm ginástica no estádio do Inatel. De qualquer maneira, a escola está em obras e a cantina não está a funcionar.  

Uma das raparigas diz que costuma trazer comida de casa - "sempre a mesma coisa, carne com massa ou carne com arroz" - e outra concorda que é o melhor, porque assim "aproveitam-se os restos do jantar". Às vezes também trazem sopa, mas não têm onde a aquecer, porque não há microondas na escola. Entre as opções que existem, acreditam que a do supermercado é a mais barata, mas os 3,5 euros por um bitoque no café em frente da escola também compensam. "Para a minha mãe não compensam", diz, com uma gargalhada, a que explicara que traz sempre comida de casa. 

Num cálculo por alto, o rapaz que falou ao PÚBLICO no supermercado arrisca que "90 por cento dos alunos saem da escola à hora do almoço" e uns 10 por cento ficam a comer no refeitório. "Não é que a comida seja má", explica. "Antigamente sim, havia uns hambúrgueres que eram uma coisa branca, pálida e fria. Mas agora mudaram e a comida até é boa." Boa, mais barata do que nos cafés à volta, e no entanto... é evidente que está longe de constituir uma atracção irresistível.

A obesidade está a aumentar - "é talvez o maior problema de saúde pública em Portugal", alerta Pedro Graça, coordenador da Plataforma Nacional contra a Obesidade. Calcula-se que o número de crianças em situação de pré-obesidade e obesidade atinja os 36,2 por cento (rapazes entre os dois e os cinco anos) e os 34,8 por cento (raparigas, com as mesmas idades). Portugal é já um dos países da Europa com maior prevalência de obesidade infantil.  

Ao mesmo tempo, em quase todas as escolas o número de alunos que frequenta as cantinas está em queda. E é essa evidência que nos traz a uma sala do liceu Pedro Nunes, em Lisboa, para assistir à apresentação do Programa 100%, uma iniciativa da Unilever Food Solutions, apoiada pelos ministérios da Saúde e da Educação. À nossa volta há cartazes coloridos, com tomates, e o chef Paulo Pinto, da Associação de Cozinheiros Profissionais de Portugal, está a explicar que se pode aproveitar os caldos onde se cozem os legumes para juntar depois ao arroz para dar mais sabor - um dos objectivos do programa é precisamente dar formação às cozinheiras das cantinas escolares. 

Os jovens "geralmente rejeitam o peixe, as hortaliças, os vegetais", afirma a nutricionista Helena Cid, consultora do programa. "O que eles querem é uma alimentação monótona, à base de batatas fritas, hambúrgueres, pizzas. E saem das escolas para irem aos cafés fazer esse tipo de refeições. Nós gostávamos de mudar o conceito das refeições e conseguir que se torne um bocadinho moda irem todos ao refeitório."  

"Andas a crescer para os lados?", "Isso é um ataque de acne?" (nas casas de banho), "Não aguentas duas voltas a correr?" (no ginásio), "Queres uma ajuda para melhorar a tua média?" (na biblioteca) - os cartazes com estas e outras perguntas, e ainda com problemas de Matemática, vão ser espalhados pelas escolas (aquelas que, voluntariamente, aderirem ao programa) em provocações que se pretendem divertidas aos alunos, concluindo sempre com o slogan "Comes bem, ficas bem". Vai haver jogos, adivinhas, um site com receitas e (esperam os organizadores) muita interacção através do Facebook. 

O programa parte do princípio de que "as crianças se sentem aborrecidas a comer em refeitórios", por isso prevê também que as cantinas sejam redecoradas e que se tornem "o sítio mais divertido, com melhor 'onda'". Resultará?

Ferreiras, Algarve, 13h 

"Lasanha!" O grito é em uníssono na fila de crianças do primeiro ano que aguarda para entrar no refeitório na escola de Ferreiras, junto a Albufeira. Tínhamos acabado de lhes perguntar qual é o seu prato favorito na cantina e a resposta surgiu em coro e sem hesitação. Só depois vieram as outras escolhas. "Pizza", grita um miúdo. "Pizza", repetem alguns. "Frango assado", lembra uma rapariga. Vários outros acenam, concordando. 

"E peixe?", arriscamos. Ouve-se um "sim", tímido. E depois outro, em solidariedade. De resto, silêncio. "Sopa?" Os rostos voltam a iluminar-se. "Canja, canja, canja", gritam todos em ritmo de slogan reivindicativo. "Sopa não é só canja", lembra a professora. "E sopa de legumes?" "Canja, canja, canja", continuam. "Pronto, pronto, já percebemos", rende-se a professora.  

Hoje o almoço é arroz de frango com salada de alface e tomate. E está a sair muito bem. D. Mina, a responsável pela cozinha, e as suas ajudantes não têm mãos a medir. Vão enchendo os pratos, distribuindo as sopas de legumes, organizando os tabuleiros. Hoje é um dia bom. Ontem foi um dia menos bom: massinha com peixe. "Alguns quando ouvem o que é já nem cá aparecem, vão logo directos ao bar comer uma sandes. E muitos pratos voltam cheios, a comida tem de ir para o lixo."

Os mais pequenos, do 1.º ciclo, e até os do 2.º, têm mesmo de comer na cantina, mas os do 3.º ciclo começam a autonomizar-se, já trazem dinheiro de casa e muitas vezes vão ao bar ou ao café que fica no exterior da escola, explica o director do agrupamento de escolas de Ferreiras, António Martins.

D. Mina, na escola há 12 anos, conhece-os de ginjeira. "Do arroz de frango gostam muito. Não tem ossos, não tem espinhas, eles gostam. A sopa, quando tem folhas, também é difícil [de ser aceite por eles], mas triturada já vai." É Carla Agapito, responsável pela Acção Social Escolar, quem tenta, todas as semanas, juntamente com a D. Mina, inventar as ementas mais atraentes para os alunos, cumprindo rigorosamente as directrizes do Ministério da Educação. Não é tarefa fácil. 

Carla aparece com uma cópia das indicações do ministério na mão. Anda a dar volta à cabeça para ver como hão-de fazer a refeição de ovos que é pedida, e que deve substituir uma de carne ou de peixe - ou seja, nada de salsichas com ovos, ou bife com ovo estrelado, nem mesmo uma honesta posta de peixe com ovo cozido. Aliás, na cozinha da D. Mina já não se fazem fritos (até a antiga fritadeira desapareceu de circulação) e o ovo que um destes dias aparecerá na ementa terá de ser escalfado. Ervilhas com ovos também estão fora de questão. "Uiii, já fizemos uma vez e voltou tudo para trás", lamenta D. Mina.  

O problema é que ali mesmo ao lado da cantina (que hoje está cheia, o arroz de frango é um sucesso inegável) existe o bar. E neste momento uma funcionária está atarefada a fazer sandes de atum (sem maionese e com uma folha de alface) e de queijo e a vender aos alunos mais velhos. "Há um aluno que todos os dias vem cá e come sempre um croissant e um sumo", conta, enquanto corta as sanduíches em duas. Há sopa, mas "é para os professores, é muito raro que os alunos peçam". O mesmo acontece com as saladas. E pedem o quê? "Sandes, croissants, sumos e depois um chocolatinho."

Também aqui há regras, que Carla Agapito se empenha em fazer cumprir: os chocolates só começam a ser vendidos depois da hora do almoço, os bolos são secos, seguindo as indicações do ministério, os sumos têm 100 por cento de fruta, o pão das sandes é de mistura. 

Mas - é D. Mina quem conta - nos últimos tempos a comida da cantina está a ter clientes que geralmente não tinha. "Alguns não vinham cá, porque tinham dinheiro para ir comer as baguetes. Agora vêm aqui comer." 

"Esta é uma zona com uma população carenciada, embora isso esteja a mudar", explica António Martins. "Agora há cada vez mais gente da classe média e média-alta. Mas mesmo assim nota-se muita carência, há alunos com fome." 

Grande parte das 420 refeições diárias que se servem na escola são gratuitas ou com preço reduzido, para alunos do escalão A que provaram que o rendimento familiar não é suficiente. Alguns têm ainda direito a um copo de leite e uma sandes no bar a meio da manhã. Mas há crianças que têm vergonha de ir beber esse copo de leite e comer a sandes, conta Maria de Lurdes Azevedo, responsável pelo Gabinete de Saúde. 

São os directores de turma que identificam os alunos com problemas. "Alguns têm quedas de tensão ou de energia. E percebemos que saem de casa sem tomar o pequeno-almoço, porque os pais já saíram ou porque saem todos a correr e não têm tempo." Mas há também o contrário - pais que têm filhos com sinais de obesidade e que lhes põem nas mochilas bolachas e batatas fritas. "Tentamos sempre chegar aos pais, que são um elemento fundamental neste processo", diz Maria de Lurdes.

Porque os miúdos, mesmo que na prática continuem a comer coisas menos saudáveis, na teoria sabem já muito bem o que é bom e o que é mau. E até aderem bem a iniciativas que a escola tem, como a de, por vezes, substituir os bolos e croissants do bar por gelatinas, arroz doce ou até batata-doce assada ("Tem um grande sucesso", garante a responsável pelo Gabinete de Saúde. "Nesses dias andam todos por aí com uma batata-doce na mão") ou semanas temáticas, de cozinha portuguesa, por exemplo, ou de cozinhas do mundo (a cachupa da D. Mina é outro caso de sucesso). 

Complexo dos Arcos, Óbidos, 12h30 

No bar da escola do Complexo dos Arcos, em Óbidos, novinha em folha e com excelentes condições, quinta-feira é dia de pastel de nata. É o único dia em que os alunos podem comer um bolo que não seja seco. De resto, o que se vende no bar são arrufadas, pães-de-leite, queques integrais, pão de sementes, integral e normal. Há iogurtes, fruta, barritas de cereais e sumos 100 por cento de fruta.

Ana Sofia Godinho, coordenadora do Gabinete de Educação da Câmara de Óbidos, aparece sorridente para nos receber no refeitório cheio de cadeiras coloridas. O almoço já está a ser preparado na cozinha - aqui a câmara municipal decidiu concessionar a confecção dos almoços a uma empresa. Há hambúrguer de porco e arroz de cenoura. E sopa, claro. "Os fritos não existem, doces só muito raramente, há sempre sopa e as crianças bebem apenas água", diz Ana Sofia. 

"Vamos fazer o jogo de ver o fundo à tigela", encoraja Fátima Oliveira, da equipa de animadores culturais que acompanham as crianças à hora do almoço. Conseguir que eles comam peixe e verduras "é uma conquista diária", diz. As cadeiras estão todas ocupadas por dezenas de miúdos. A sala enche-se de vozes excitadas e os animadores empenham-se na sua tarefa - naquilo que Fátima descreve como a "negociação". Há miúdos que comem num instante, outros que se distraem em frente às tigelas de sopa. Uma menina de camisola vermelha tenta discretamente atingir o colega sentado à frente dela com o pé. Daí a bocado, uma animadora está pacientemente a ajudá-la a acabar a sopa que ficara esquecida na mesa. 

Esta escola tem uma base de trabalho: um estudo, realizado em 2009, sobre o peso das crianças do 1.º e 2.º ciclos. Conclusões: numa amostra de 426 miúdos, 87 foram considerados obesos e 100 tinham excesso de peso (só foi detectado um caso de magreza excessiva). Embora antes já houvesse preocupação em servir comida saudável, foi a partir deste estudo que se delineou uma estratégia mais completa. 

As crianças já acabaram de comer e entretanto apareceu na sala um armário improvisado cheio de escovas de dentes coloridas. Todos fazem fila para lavar os dentes. 

Escola das Galinheiras, Lisboa 12h00 

O esforço para que as crianças do 1.º ciclo tenham uma alimentação saudável repete-se em todas as escolas que o PÚBLICO visitou. Bairro das Galinheiras, periferia de Lisboa, uma zona habitualmente descrita como "problemática", uma escola reluzente de tão nova. Inaugurada em Setembro, a escola básica das Galinheiras é particularmente empenhada na questão da alimentação saudável, explica a coordenadora do agrupamento, Maria Paula Branco. 

"Queremos, na medida do possível, modificar os hábitos alimentares dos alunos", diz Maria Paula Branco. Uma das medidas foi pedir aos professores que acompanhem as crianças durante a hora do almoço. Ainda é cedo, e só os mais pequenos estão, para já, a comer no refeitório: sopa, bacalhau à Braz com salada, iogurte para sobremesa. "Está a ver? Misturamos bocadinhos de cenoura com o bacalhau para eles comerem mais vegetais", explica Conceição Bento, a sorridente responsável pela cozinha, funcionária da empresa que fornece a alimentação a esta escola. Não gostam de peixe? É preciso ajudá-los, tirar as espinhas, dar-lhes o peixe já arranjado, explica. E é preciso "fazê-lo com o coração". Como a fruta - descascada, já arranjada.  

É um trabalho de paciência, mas há sinais de que as crianças começam a perceber as diferenças entre alimentos saudáveis e os outros. "Alguns já dizem aos colegas: 'Não devias comer isso, faz mal'", conta a coordenadora. "Estou aqui [a trabalhar neste bairro] há muitos anos e o pequeno-almoço é sempre o folhado de salsicha, o pão com chocolate, o ice-tea. Vêm sempre de manhã com um saco de papel engordurado."  

É por isso que defende que se "educa a comer como se educam outras áreas do conhecimento". Os problemas que enfrentam são vários: há quem coma mal e há quem coma pouco. "Há crianças aqui que só comem o que a escola lhes dá." Mas os pais têm reagido muito bem às iniciativas, e no lanche de Natal seguiram as instruções e ninguém trouxe fritos nem refrigerantes.  

São, ao todo, 84 os refeitórios de escolas que a Câmara Municipal de Lisboa tem de gerir na cidade - em metade destes a comida é feita na cozinha da escola, na outra metade (onde as cozinhas não têm condições para confecção própria) a comida é fornecida por catering, que pode ser quente (chega à escola em contentores isotérmicos) ou frio (nesse caso é aquecida na escola). 

Escola Básica nº 1, Lisboa, 12h30 

A Escola Básica n.º 1 da Freguesia da Pena é a mais antiga de Lisboa. Nas vitrinas há livros velhinhos, usados para ensinar as crianças há um século, e na parede, numa foto a preto e branco, os professores de outros tempos, de ar austero. Ao lado funciona o jardim-de-infância e são estes meninos, os mais pequenos, que já estão a almoçar quando chegamos. Há chineses, indianos, negros, toda uma turma multicultural (apenas um terço dos alunos do jardim-de-infância é de origem portuguesa) a comer rancho com garfos e facas de plástico em pequenos recipientes também de plástico. Mas há, aqui e ali, meninos com recipientes diferentes: são os que pediram dietas especiais, seja por motivos de saúde, seja por razões religiosas ou culturais.  

A responsável da empresa que fornece comida a esta escola diz notar cada vez mais, por todo o país, pedidos especiais - "há meninos que não comem porco, outros que não comem vaca, uns que não comem nem vaca nem porco, há os que não comem peixe, os que são alérgicos ao glúten, os que têm dietas sem sal, os que são intolerantes à lactose". E há também, se bem que para já sejam poucos, os totalmente vegetarianos. 

Também aqui nesta escola do centro de Lisboa a preocupação dos professores é perguntar às crianças pela manhã se tomaram o pequeno-almoço. "Temos alguns que vêm sem tomar o pequeno-almoço", confirma Teresa Pais, a coordenadora. Mas não é uma situação que se tenha agravado desde o início da crise. "Mesmo os que vivem em pensões ou em quartos alugados geralmente vão ao café beber o galão de manhã.

"Sem a ajuda dos pais é muito difícil conseguir mudar os hábitos das crianças - esta é uma opinião unânime entre professores e nutricionistas. Há, contudo, ainda muito trabalho a fazer, diz Pedro Graça da Plataforma contra a Obesidade. "Se os pais souberem que um adolescente obeso tem uma elevada probabilidade de se tornar um adulto obeso (até 80 por cento), talvez algo possa mudar."  

"Onde a intervenção da família pode ter um peso decisivo é precisamente no secundário, quando os alunos já podem sair das escolas. "São os pais que, ao autorizarem as saídas e ao darem dinheiro aos filhos, potenciam o comer fora da escola, muitas vezes de pior qualidade e mais caro." O que é que se pode fazer? "Quanto à saída para almoçar, a escola tem autonomia para investir na educação dos encarregados de educação, inclusivamente nos alimentos que são trazidos do exterior para o interior das escolas, nos lanches e a meio da manhã, pelos próprios alunos." Já no que diz respeito aos cafés e outros estabelecimentos, Pedro Graça acha "difícil em Portugal regular essa oferta".

Depois, há trabalho a fazer envolvendo outros sectores da sociedade, desde os "ligados à agricultura e produção alimentar até ao ambiente, cultura ou qualificação profissional". É aí que entra, por exemplo, a formação dos cozinheiros por chefs, que o Programa 100% propõe. "A obesidade pode-se prevenir e combater aproximando saberes e conhecimentos intergeracionais", defende Pedro Graça. "As gerações mais velhas, em especial as mulheres, detentoras de saberes gastronómicos e patrimoniais, que durante décadas combateram situações de carência alimentar recorrendo a produtos locais e preparados culinários de baixo custo e alto valor nutricional, podem aproximar-se das gerações mais novas, necessitadas destes saberes para conjugar os conhecimentos actuais (em nutrição e tecnologia) com as necessidades básicas de baixo custo e sabor."  

"No Reino Unido, tem havido quem defenda que, para além de se ensinar a comer, deve-se também ensinar a cozinhar. "Seria uma excelente iniciativa num país mediterrânico com uma ampla cultura alimentar", acredita o coordenador da Plataforma. Tem havido algumas iniciativas pontuais, mas "deviam ser alargadas a todo o país, sempre que as escolas tenham condições para tal".  

Na escola O Nosso Jardim, em Lisboa, há pelo menos dez anos que as crianças do ensino básico têm um atelier de culinária - e é, garantem as professoras, um dos preferidos. Nem sempre é fácil encontrar receitas adequadas, explicam Teresa e Inês, responsáveis pelo atelier. É preciso ter o cuidado de não repetir, mas, ao mesmo tempo, é necessário que sejam pratos que não vão ao forno (ou que só vão ao forno em casa) e tenta-se desenvolver outro tipo de aprendizagens para além das previstas no currículo. 

É que cozinhar aqui não é só cozinhar, é escrever, é fazer contas. "Queremos fazer o dobro do que está na receita, por isso preciso de saber quanto é o dobro de 250 gramas", diz a professora. Depois é preciso saber quantas colheres de farinha se põem na tigela para se chegar aos 500 gramas de farinha. E, finalmente, chega a melhor parte: mexer, primeiro com a colher de pau, depois amassar, fazer bolinhas, brincar com a massa. Vão sair dali biscoitos com formas improváveis. Vai haver caracóis e bichos parecidos com caracóis. Os rapazes fazem bolinhas, que depois voltam a espalmar sem piedade. Duas raparigas ficam longos minutos a moldar, pacientemente, flores elaboradas. Um rapaz, dos mais pequenos, levanta a voz: "Preciso de ajuda. Quero fazer um coração." Outro anuncia triunfante: "Fiz uma estrela cadente."

Irão estas crianças ter uma relação diferente com a alimentação? Há já uma geração a beneficiar dos esforços das escolas para oferecer comida saudável e combater a obesidade. A questão é saber é o que farão quando chegarem ao secundário e tiverem dinheiro para as suas próprias escolhas. Irão ao supermercado comprar refrigerantes e bolachas ou irão escolher a cantina? 

"Acho que as pessoas não vão ao refeitório porque não é giro", diz o aluno do secundário que confessara habitualmente optar entre as sandes do supermercado ou as bifanas de um café próximo. "Mas talvez se conseguissem passar essa ideia de que agora a comida é boa..." 

Texto originalmente publicado na Pública