Adriano Miranda

O império da Zara na hora da sucessão

Em Arteixo, perto da Corunha, milhares de pessoas trabalham na sede da Inditex para que nada falhe na concepção e entrega do vestuário em 78 países. Cada montra é aqui estudada ao pormenor, tal como a exposição da roupa nas lojas. Uma viagem ao interior do maior grupo de vestuário do mundo, numa altura em que o seu fundador, Amancio Ortega, passa a presidência para Pablo Isla.

Esta é a única loja Zara que não tem clientes. E não é suposto que os haja. De resto, é em tudo igual às outras cerca de 1600 que existem no mundo.

Um outro detalhe: a roupa está muito mais arrumada, e não é por acaso: é aqui, nesta loja-piloto, que uma equipa testa a forma como as novas peças que irão chegar a 78 países devem estar expostas e em que zona. Se devem estar penduradas ou dobradas, logo à entrada ou mais a meio, qual o alinhamento de cores e que peças de roupa fazem mais sentido lado a lado.

É como se a loja fosse uma tela e a equipa, formada por uma dezena de funcionários da Inditex, o grupo que detém a Zara, estivesse a pintar um quadro em constante mudança. A base para novos acrescentos ou substituições são as peças concebidas pela equipa de designers e comerciais, que estão a poucos minutos a pé de distância da loja-piloto, tal como 11 fábricas e um enorme complexo de logística. Podíamos chamar a este local a casa da Zara, mas é muito mais do que isso. É o coração e o cérebro da espanhola Inditex, porque é aqui, na zona industrial de Sabón, em Arteixo, perto do mar e a 15 minutos de carro da Corunha, que está a sede do maior grupo de vendas de vestuário a nível mundial, fundado por Amancio Ortega.

Um local onde, até há pouco tempo, os jornalistas não entravam, mas que se vai abrindo à curiosidade de quem tenta perceber como funciona o império Inditex, que detém também a Pull & Bear, Massimo Dutti, Bershka, Stradivarius, Oysho, Uterqüe, Kiddy's Class e Zara Home (as lojas outlet Leftie's são vistas pelo grupo como parte da Zara e não como insígnia autónoma).

De todas elas, a Zara ainda é a principal marca do grupo, com um peso da ordem dos 60 por cento nas receitas globais. No ano fiscal que terminou a 31 de Janeiro, as vendas subiram 13 por cento, para os 12,5 mil milhões de euros, e os lucros cresceram 32 por cento, para os 1,73 mil milhões.

É a cadeia com maior número de lojas e a primeira a entrar em novos mercados. E foi através dela que Ortega revolucionou o mundo do pronto-a-vestir, com uma renovação constante de roupas nas lojas, a preços acessíveis. Uma fórmula que, ainda hoje, é o segredo do sucesso da Inditex, aplicada a partir de Arteixo ao resto das operações do grupo, seja em Portugal, China, Rússia, Arábia Saudita, México ou Austrália, para dar apenas alguns exemplos.

Para o grupo, as lojas são a peça-chave da estratégia, que se assume como um círculo, não vicioso, mas virtuoso. São elas, ou os seus clientes, que fornecem as informações às cerca de 350 pessoas que, entre designers (a maioria, perto de 260) e comerciais da Zara, de várias nacionalidades, ocupam um enorme espaço de trabalho aberto com mais de 40 mil metros quadrados. Por ser hora do almoço, há menos pessoas, e os tons brancos do espaço repleto de secretárias (uma das quais costuma ser ocupada pelo próprio Ortega) são quebrados pela visão constante de roupa de várias cores, tamanhos e feitios, seja no chão, em móveis ou carrinhos de compras.