Adriano Miranda

O império da Zara na hora da sucessão

Em Arteixo, perto da Corunha, milhares de pessoas trabalham na sede da Inditex para que nada falhe na concepção e entrega do vestuário em 78 países. Cada montra é aqui estudada ao pormenor, tal como a exposição da roupa nas lojas. Uma viagem ao interior do maior grupo de vestuário do mundo, numa altura em que o seu fundador, Amancio Ortega, passa a presidência para Pablo Isla.

Esta é a única loja Zara que não tem clientes. E não é suposto que os haja. De resto, é em tudo igual às outras cerca de 1600 que existem no mundo.

Um outro detalhe: a roupa está muito mais arrumada, e não é por acaso: é aqui, nesta loja-piloto, que uma equipa testa a forma como as novas peças que irão chegar a 78 países devem estar expostas e em que zona. Se devem estar penduradas ou dobradas, logo à entrada ou mais a meio, qual o alinhamento de cores e que peças de roupa fazem mais sentido lado a lado.

É como se a loja fosse uma tela e a equipa, formada por uma dezena de funcionários da Inditex, o grupo que detém a Zara, estivesse a pintar um quadro em constante mudança. A base para novos acrescentos ou substituições são as peças concebidas pela equipa de designers e comerciais, que estão a poucos minutos a pé de distância da loja-piloto, tal como 11 fábricas e um enorme complexo de logística. Podíamos chamar a este local a casa da Zara, mas é muito mais do que isso. É o coração e o cérebro da espanhola Inditex, porque é aqui, na zona industrial de Sabón, em Arteixo, perto do mar e a 15 minutos de carro da Corunha, que está a sede do maior grupo de vendas de vestuário a nível mundial, fundado por Amancio Ortega.

Um local onde, até há pouco tempo, os jornalistas não entravam, mas que se vai abrindo à curiosidade de quem tenta perceber como funciona o império Inditex, que detém também a Pull & Bear, Massimo Dutti, Bershka, Stradivarius, Oysho, Uterqüe, Kiddy's Class e Zara Home (as lojas outlet Leftie's são vistas pelo grupo como parte da Zara e não como insígnia autónoma).

De todas elas, a Zara ainda é a principal marca do grupo, com um peso da ordem dos 60 por cento nas receitas globais. No ano fiscal que terminou a 31 de Janeiro, as vendas subiram 13 por cento, para os 12,5 mil milhões de euros, e os lucros cresceram 32 por cento, para os 1,73 mil milhões.

É a cadeia com maior número de lojas e a primeira a entrar em novos mercados. E foi através dela que Ortega revolucionou o mundo do pronto-a-vestir, com uma renovação constante de roupas nas lojas, a preços acessíveis. Uma fórmula que, ainda hoje, é o segredo do sucesso da Inditex, aplicada a partir de Arteixo ao resto das operações do grupo, seja em Portugal, China, Rússia, Arábia Saudita, México ou Austrália, para dar apenas alguns exemplos.

Para o grupo, as lojas são a peça-chave da estratégia, que se assume como um círculo, não vicioso, mas virtuoso. São elas, ou os seus clientes, que fornecem as informações às cerca de 350 pessoas que, entre designers (a maioria, perto de 260) e comerciais da Zara, de várias nacionalidades, ocupam um enorme espaço de trabalho aberto com mais de 40 mil metros quadrados. Por ser hora do almoço, há menos pessoas, e os tons brancos do espaço repleto de secretárias (uma das quais costuma ser ocupada pelo próprio Ortega) são quebrados pela visão constante de roupa de várias cores, tamanhos e feitios, seja no chão, em móveis ou carrinhos de compras.

É como se fosse uma desarrumação ordenada, própria de um processo criativo disciplinado. E é aqui, neste mesmo espaço, que o insucesso ou o sucesso de uma determinada peça de roupa nas lojas serve como principal fonte de inspiração do desenho de uma outra que estará à venda nas próximas três semanas.

O modelo do cliente

Se uma peça não se vende, aprende-se com o erro, como o facto de não vestir bem ou de a cor não agradar, e tenta-se evitá-lo. Se se vende, o designer, que acompanha o impacto das suas criações, utiliza informações como o padrão ou o tipo de tecido para dar origem a outro modelo, que irá surgir como seu substituto. Ou, então, utiliza-se uma outra fonte de ideias: aquilo que os clientes procuraram mas não encontraram, como a mesma peça em outro tecido ou tom.

Nesse caso, os dados são mais qualitativos do que quantitativos. Imagine que entra numa loja e pergunta a um funcionário se existe aquele modelo noutra cor, noutro tecido ou com outro padrão. No universo Zara cabe aos empregados reportar o feedback dos clientes ao encarregado da loja. Este depois assinala ao director da insígnia ou directamente ao comercial em Arteixo, encarregue da Zara no país em causa, que partilha e verifica a informação com os comerciais de outros países.

A partir daqui, percebe-se se há ou não algo para explorar em conjunto com os designers, de modo a conseguir ter o que o cliente anseia. Uma espécie de central de informações que faz com que a sua opinião, e de outros clientes, possa determinar o que, em breve, chegará às lojas de forma extremamente veloz.

A cada duas vezes por semana, as lojas da Zara recebem novas peças e reposição de vestuário, o que não só evita que muitas pessoas andem todas vestidas de igual, como serve de atractivo aos clientes e induz o sentimento de que a decisão de compra tem de ser tomada no imediato, já que as produções da mesma peça são, por norma, limitadas (com excepção para o itens tidos como básicos, ou seja, que raramente passam de moda). Se a empresa explica que são as lojas a principal fonte de inspiração e que se produz ao longo do ano a partir do que o que cliente quer, em vez de lhe dizer o que deve comprar, a Zara é ainda assim muitas vezes vista como sendo exímia nas cópias das tendências de design de autor.

Uma ideia que, segundo Jesús Echevarría, o ex-jornalista de 48 anos que assumiu há sete anos o cargo de director-geral de comunicação e relações institucionais do grupo, não só está errada como "desvaloriza o que é feito pelos designers" da casa.

Outras inspirações há além das lojas, certamente, mas o responsável pela nossa visita guiada à sede da Inditex nega qualquer tipo de cópias, contrapondo que as ideias tanto podem vir de filmes que induzem a novas combinações, como de viagens a Tóquio, mais concretamente ao bairro de Shibuya/Harajuku, Meca das novas tendências marcadas pelos jovens japoneses. Em Arteixo, diz Echevarría, "há um processo de criação permanente", acrescentando que, além disso, "hoje as tendências são universais".

José Luis Nueno, professor na escola de negócios espanhola IESE e autor de um estudo aprofundado sobre a Inditex, afirma que, no mundo da moda, "todos olham para todos". A inspiração sempre teve como ponto de partida as grandes tendências e os designers mais vanguardistas, para depois produzir e massificar o produto final, acrescenta. "A Zara apenas adapta o que está mais 'quente'. Arrisca pouco e produz o que de facto se vende", sustenta.

Algo que a empresa certamente não faz, ao contrário de concorrentes directos como a H&M, é recorrer a nomes conhecidos para lançar colecções especiais, como Alber Elbaz (da Lanvin) ou o italiano Roberto Cavalli.

"Não funcionamos com grandes nomes, mas sim com uma equipa de trabalho. Um designer renuncia ao nome, mas está constantemente a desenhar e vê as pessoas a usar" o que criou, diz Echevarría. Isso também faz, refere, com que a empresa tenha "estruturas muito mais horizontais", o que leva a maior capacidade de decisão, embora em articulação com o departamento comercial.

Produzir perto de casa

Três semanas é o tempo que uma peça de roupa demora a chegar às lojas a partir do momento em que recebe luz verde para a sua produção. O protótipo, criado para apreciação final, desmaterializa-se por momentos num padrão industrial, que dará origem às reproduções que os clientes irão comprar.

Para que isso aconteça com a rapidez que caracteriza a Inditex, cerca de 50 por cento dos produtos são fabricados em Espanha, Portugal e Marrocos, com destaque para as subcontratações. Em 2009, havia 217 ateliers de costura e 184 fábricas no território nacional que abasteciam o grupo galego, nomeadamente com produtos de algodão. As compras a Portugal deverão rondar os 270 milhões de euros, de acordo com dados não oficiais. Embora não revele valores, Jesús Echevarría destaca que "a produção de proximidade, incluindo a que se realiza em Portugal, é absolutamente indispensável para a estratégia comercial da Inditex. E, nesse sentido, "a produção em Portugal cresce todos os anos como consequência do crescimento das várias cadeias do grupo a nível mundial".

Esta forma de estar no mercado faz com que a Inditex recorra menos do que outros grupos ao abastecimento nos mercados asiáticos, já que a distância inviabiliza a rápida capacidade de reacção e flexibilidade. Mesmo assim, cerca de 35 por cento da produção tem origem em países como a China, Bangladesh, Vietname ou Índia, destacando-se os produtos menos imediatos, como uma simples camisa que não desaparece ao sabor das estações, ou os que tenham adereços que requerem elevada mão-de-obra e uma minúcia e verdadeira paciência de chinês para os coser.

Os números dão uma ideia da dimensão do que é necessário produzir a nível global: por cada ano, são criados cerca de 30 mil desenhos diferentes, que dão origem a perto de 800 milhões de peças, espalhadas pelas mais de cinco mil lojas da Inditex (responsáveis pela maioria dos cem mil postos de trabalho que o grupo assegura).

No caso da Zara, tudo é pensado em Arteixo, e algumas peças são lançadas nas 11 fábricas que o grupo detém neste complexo industrial, incluindo a GOA, que hoje se dedica essencialmente ao vestuário para criança.

O nome GOA, visível no topo de um edifício por quem está na entrada da sede da Inditex, marcada por uma estrutura envidraçada apelidada de "cubo" e onde se reúne a administração, passaria despercebido não fosse o caso de ter sido o início do império de Amancio Ortega.

Em 1963, o empresário, nascido em 1936 filho de um ferroviário e que começou a sua via profissional aos 14 anos como empregado da camisaria Gala, criou o seu próprio negócio ao abrir uma pequena fábrica no centro da Corunha. Era o início da GOA, formada com o seu irmão, António (entretanto falecido), e com a ajuda da sua primeira mulher, Rosalía Mera, que conhecera quando eram empregados na loja La Maja. Nesta fase participaram também a irmã de Amancio, Josefa, o seu marido, Miguel Jove, e a mulher de António, Primitiva Renedo.

A componente de retalho só viria a surgir em 1975 e o domínio do processo fabril ajuda a explicar o êxito do grupo. Hoje, a empresa tem duas estratégias: ou faz ela os cortes nos tecidos e manda coser no exterior (recorrendo aos ateliers de costura) ou envia o desenho para outras fábricas produzirem em subcontratação a peça pretendida. Em qualquer um dos casos, as roupas voltam depois para as mãos da Inditex.

Volta ao mundo em 48 horas

Em Arteixo, não muito distante do local onde estão os designers e os comerciais, uma dezena de senhoras com batas verdes estão, à hora do almoço, a receber uma linha de blazers femininos cor de areia que chegaram do exterior. Recorrendo ao vapor e a pequenas máquinas, dão a forma certa à cintura, ombros e mangas, para depois retocar as golas e alisar o forro com ferros de engomar. Ao mesmo tempo, estão também a fazer controlo de qualidade, verificando se há falhas nas costuras. Mãos ágeis num processo repetitivo e olhares minuciosos que podem ver passar, num regime por turnos, sete mil a oito mil blazers por dia. A colocação dos alarmes serve como sinal silencioso para indicar que a roupa está pronta para partir, não ainda para a loja mas para o centro de logística, através de um carril aéreo.

Na área de logística, que ocupa uma boa parte do meio milhão de metros quadrados detidos pela Inditex em Arteixo, os blazers cor de areia perderam-se de vista. Chegaram através de um túnel que liga as duas infra-estruturas, cortadas por uma estrada, e estão algures embrulhados em plástico no meio de muitos milhares de outras peças de roupa, à espera da sua vez de serem chamados para uma Zara. Aqui, estamos na zona das peças com cabides, a cuja área da logística pertencem os casacos.

Agora, a prioridade da circulação é dada a camisas, que seguem em fila divididas por diferentes tipologias, cores e tamanhos numa linha ordenada e automatizada que se vai aproximando de nós. Mãos invisíveis vão tirando peças para o lado, de forma suave mas decidida, uma dança ao ritmo do que as lojas pediram para ser reposto e das novidades que se decidiu enviar nesta nova remessa.

Cada ramificação da linha principal vai dar a uma espécie de varão, conhecido como linear, que por sua vez corresponde a uma loja. E estas mudam duas vezes por dia. De manhã, são umas. À tarde, serão outras. Neste momento, estão a ser preparadas as remessas para países como o Japão e a Rússia, mas uma pesquisa mais atenta permite perceber que também Portugal está representado, através dos Açores e da Madeira. Uma camisa de quadrados onde impera o tom vermelho, para homem, viajou desde a China até aqui, tal como uma camisa branca, também a pensar no sexo masculino, que foi produzida na Índia e transportada até à Corunha. Dentro de poucas horas vão ser encaixotadas com os cabides postos e remetidas para os arquipélagos portugueses, a par de outras peças que ainda estão por chegar.

Noutro andar, o bailado industrial com sonoridade metálica é substituído pelo corrupio de tapetes rolantes com pás de plástico que espalham a roupa dobrada para dentro de caixotes, trazidos num movimento de carrossel. Uma vez recheados, estes são fechados à mão pelos empregados identificados com batas azuis, que se chegam a ajoelhar em cima das embalagens para conseguir acondicionar a roupa, como se fosse a mala de um mês de viagem. Daqui vão juntar-se aos seus congéneres dos cabides e expedidos de camião (a maior parte) ou de avião, conforme a localização geográfica das lojas. No máximo, as encomendas chegam em 36 horas à loja mais afastada por estrada, e em 48 horas por avião aos pontos de venda mais longínquos, como Sidney, na Austrália. No centro de Arteixo trabalha-se, por turnos, 24 horas por dia, de modo a que os prazos sejam cumpridos, expedindo 150 milhões de peças por ano.

Toda a logística está concentrada em Espanha, e é de várias localidades deste país que saem os produtos finais para as lojas das várias cadeias do grupo. No caso da Zara, esta tem, além de Arteixo, centros de distribuição em Saragoça e Madrid. Nesta última cidade está a roupa de criança, Saragoça dedica-se à roupa de mulher e Arteixo à de homem e de mulher. É, por exemplo, do aeroporto do Porto que saem as mercadorias expedidas daqui com destino ao México.

Porto pioneiro

Na loja-piloto da Zara, duas mulheres conversam enquanto ajeitam uma camisa dobrada num móvel para depois se afastarem de modo a terem uma melhor perspectiva do seu enquadramento. Receberam as últimas novidades e estudam a melhor forma de as colocar à venda. Quando acabarem, enviam, através de um terminal informático, dados e fotografias que informam as outras lojas do que devem fazer. Um padrão que ajuda a organizar e harmonizar a cadeia de vestuário, mas que tem também alguma flexibilidade, já que nem todas as lojas são iguais, nomeadamente em termos de espaço de venda.

Antes de abrirem as portas pela manhã, depois de terem recebido uma das duas remessas semanais durante a noite ou na véspera, os empregados adequam as indicações recebidas de Arteixo, familiarizam-se com as novas peças e preparam-se para as vender. Um processo que tanto ocorre na loja de Melbourne, Austrália, inaugurada no dia 15 de Junho, como na Zara da Rua Juan Flórez, no centro da Corunha, a primeira a ser aberta por Ortega em 1975, ou na loja da Rua de Santa Catarina, no Porto, simbólica por ter sido a estreia na internacionalização.

Quando se olha para o interior da Zara da Juan Flórez, verifica-se que Ortega começou a sua ascensão no retalho com passos prudentes: o espaço, em forma de ferradura, com duas entradas e saídas, é pequeno, devendo ter 800 a 900 metros quadrados (cerca de metade do tamanho médio das lojas), e inicialmente era ainda menor, tendo ganho alguma área e mudado de aparência desde a sua abertura. Eram, é verdade, outros tempos, com menor poder de compra e dinâmica de consumo. Franco morria nesse ano e a Espanha abriu-se à democracia, entrando depois, tal como Portugal, na Comunidade Europeia. Mas houve coisas que não mudaram desde 1975, já que ali ainda trabalham algumas das empregadas que, sem o saber, estavam a fazer parte da história da moda. Hoje, chegam pessoas de vários pontos de Espanha com curiosidade pelo espaço que marcou o início da Zara e da Inditex, pedindo mesmo para tirar fotografias.

O caso da loja do Porto é diferente, já que poucos são os que sabem que foi aqui, perto do mercado do Bolhão, que o grupo galego se estreou fora do mercado espanhol em 1988. Para que isso acontecesse, teve primeiro que comprar uma pequena empresa têxtil do Norte, a Marques & Terroso, que registara a marca Zara em Portugal. E sofreu um pequeno contratempo, já que a intenção era abrir duas unidades quase em simultâneo, alargando a sua presença a Lisboa nesse mesmo ano. A abertura na capital estava prevista para os Armazéns Grandella, uma ideia que foi interrompida pelo incêndio no Chiado.

Vinte e três anos depois, a Inditex Portugal continua a ser gerida pela mesma pessoa que abriu a loja na Santa Catarina, Ana Paula Moutela, responsável pelas 289 unidades que o grupo detém no país (sem contar com a Massimo Dutti, com mais de 40 lojas e representada no mercado nacional através do regime de franchising pelo grupo Regojo). No último ano fiscal, a Inditex Portugal - excluindo as receitas da Massimo Dutti - teve um volume de vendas de 587 milhões de euros, mais dois por cento do que no ano anterior. É o país, depois de Espanha, com maior número global de lojas, embora não seja o que gera mais receitas. A loja do Porto, apesar da antiguidade, parece continuar a ter uma função pioneira. O seu interior, dividido em dois pisos, dá a ideia de ter mais roupa pendurada e menos peças dobradas do que nas outras Zara, permitindo uma maior visibilidade do vestuário e a percepção de mais espaço e capacidade de mobilidade.

No rés-do-chão, dedicado ao sexo feminino e onde circulam cerca de 20 mulheres das mais variadas idades, uma delas acompanhada por um homem, as duas caixas de pagamento, situadas a meio da loja, têm por cima um ecrã gigante onde passam imagens de modelos numa passerelle. A música ambiente, parte essencial do marketing, é envolvente sem ser intrusiva. Sobe-se ao piso de cima, por umas escadas com degraus iluminados, e verifica-se que a zona de homem, que tem à sua esquerda a área infantil, é uma espécie de reprodução do piso de baixo, mas numa menor escala. Também aqui os clientes são esmagadoramente do sexo feminino, seja na parte de homem ou na de criança. Sinal de que, mesmo se as vendas de roupa masculina já vão tendo um peso expressivo nas contas da empresa, quem decide as compras são principalmente as mulheres. Olham, mexem, desarrumam sem preocupação, como se procurassem algo sem saber muito bem o quê, tanto passando as mãos pelas camisas como pelos casacos ou por um par de calças.

Por fim, algumas atravessam a porta da rua com uma espécie de sensação de missão cumprida, simbolizada pelo saco da Zara que levam na mão. E, sem pensarem nisso de forma consciente, estão a fazer algo que se diz que o grupo galego não faz: publicidade. Não investe, e isso é um facto, em publicidade convencional, como anúncios na televisão e na imprensa. Mas cada saco na mão de uma cliente que se passeia pela rua é uma forma de vender a imagem da marca. De acordo com o director-geral de comunicação e relações institucionais do grupo, a Inditex considera que os produtos devem vender por si mesmos, ao estabelecer uma relação directa com os clientes, correndo-se o risco de a publicidade transmitir uma ideia errada ou até de não se perceber se as vendas subiram por causa das roupas ou por causa de uma determinada campanha. "Preferimos um modelo mais directo, com menos ruído", sublinha Jesús Echevarría. Com isso, a empresa ganha uma vantagem financeira: o dinheiro que não aplica em publicidade convencional é canalizado para outros fins, com destaque para as lojas. Para a Inditex, estas são mesmo o principal suporte publicitário das várias cadeias do grupo, seja através dos projectos arquitectónicos, das localizações ou das montras.

Devido à importância que assumem na comunicação dos produtos e atracção dos clientes, também as montras das lojas são pensadas a nível central em Arteixo. Uma equipa formada por cerca de uma dezena de especialistas prepara meticulosamente as vitrinas, seleccionando roupas e os materiais que as acompanham. Neste processo, podem contar com a participação de responsáveis de outros países. E, tal como no caso da colocação do vestuário no interior das lojas, as directrizes têm alguma margem de manobra para serem adaptadas localmente pelos directores de montras dos mercados onde o grupo opera. Em Portugal, existem perto de 20 pessoas a trabalhar neste departamento, cujos pontos altos são a altura do Natal, dos saldos e das duas mudanças de estação (Outono/Inverno e Primavera/Verão), com uma alteração total das montras. Fora dessas temporadas, fazem-se pequenas alterações de três em três semanas, de modo a mostrar as novidades que vão chegando.

Pablo Isla, o sucessor

A 15 de Julho, com o início oficial dos saldos e ponto de partida para a chegada das primeiras peças da nova colecção Outono/Inverno, já começou um outro ciclo de renovação nas lojas. E a Inditex está também a iniciar uma nova fase, que marcará o seu futuro. Sentado numa mesa de madeira com espaço para oito pessoas, olhando de cima para um pequeno auditório situado dentro do "cubo" em Arteixo, Amancio Ortega vai oficializar a sua substituição por Pablo Isla no âmbito da assembleia geral do grupo.

Assim, aos 75 anos, o fundador da Zara faz uma passagem de testemunho, escolhendo um gestor profissional e afastando, pelo menos para já, a hipótese de dar a liderança a Marta, a sua terceira filha. Nascida em 1987, Marta é fruto do casamento com Flora Pérez Marcote, uma ex-empregada da Zara. É a filha predilecta de Ortega e começou a trabalhar numa Bershka de Londres em 2007. O empresário teve anteriormente dois filhos com Rosalía Mera, que permanece como accionista de relevo da Inditex, sendo a mulher mais rica de Espanha: Marcos, que nasceu com uma deficiência mental, e Sandra, a mais velha, mas que, ao contrário de Marta, nunca foi falada como eventual sucessora do pai.

A decisão, histórica, foi conhecida no início de 2011, através da divulgação de um comunicado oficial, onde se anunciava que Pablo Isla, de 47 anos e actual vice-presidente e administrador-delegado, iria sentar-se na cadeira de presidente da Inditex. Tendo entrado para o grupo galego em 2005, Isla é apresentado como um gestor com grande capacidade de trabalho e profundo conhecimento da forma como a Inditex funciona.

Licenciado em Direito, casado e pai de três filhos, o ex-presidente da tabaqueira Altadis nascido em Madrid e adepto do Real não vai deixar de contar com a presença de Ortega ao seu lado. Além de ficar formalmente como administrador não-executivo, aquele que se tornou num dos homens mais ricos do mundo terá sempre uma palavra a dizer, já que controla a maioria do capital, detendo 59 por cento das acções. Não se esperam rupturas, mas antes uma mudança na continuidade.

"O modelo é sólido, quase independentemente dos seus gestores", realça o professor da IESE, José Luis Nueno. E sublinha que se Ortega achou que estava na altura de mudar a cadeira da presidência foi porque se sente confortável com essa decisão. Enquanto maior accionista, o homem que nunca deu uma entrevista e que apenas deixou que publicassem a sua fotografia em 1999 (dois anos antes da abertura da empresa ao mercado de capitais) garante que, independentemente do cargo que ocupar, a empresa manterá uma política de constantes reinvestimentos. Só em 2010 foram aplicados mais de 700 milhões de euros. Sem recorrer ao endividamento, a Inditex baseia a maior parte do seu crescimento na abertura de novas lojas e na entrada em mais mercados. Uma estratégia que irá ser mantida por Pablo Isla. Após a entrada na Austrália, o próximo mercado será a África do Sul, seguindo-se Taiwan e Peru até ao final deste ano. E Isla quer aumentar a presença na Ásia, com destaque para a China, Japão e Coreia do Sul. Actualmente, Espanha e o resto do mercado europeu ainda têm um peso marcante nas contas do grupo, mas a ideia é diminuir cada vez mais essa preponderância.

No último ano fiscal, Espanha valia 28 por cento das receitas (menos quatro pontos percentuais do que no ano anterior) e o resto da Europa 45 por cento (menos um ponto percentual). Já a Ásia teve um peso de 15 por cento (mais três pontos percentuais) e a América 12 por cento (subindo dois pontos percentuais). E ainda há muito espaço para crescer, seja por novos países, pelo aumento do número de lojas Zara em mercados menos maduros ou através da disseminação das outras marcas da Inditex.

Apesar de só recentemente ter chegado às vendas de roupa online, através da inauguração de lojas virtuais da Zara em seis mercados europeus, Portugal incluído, o grupo também quer acelerar o ritmo deste segmento de negócio. Já alargou o projecto na Europa, e em Setembro de 2011 será a vez dos Estados Unidos, seguidos pelo Japão. Na mesma altura, também a Massimo Dutti, Pull & Bear, Bershka, Stradivarius, Oysho e Uterqüe farão a sua estreia, com lojas virtuais em alguns países europeus. Mais uma vez, a Zara faz de ponta de lança para as outras insígnias do grupo.

José Luis Nueno destaca que "raramente há empresas com uma marca âncora tão forte e, ao mesmo tempo, com outras marcas sustentáveis e com potencial de crescimento". Depois de 19 de Julho, caberá a Pablo Isla assegurar que o desenho de negócio da Inditex permanece sem defeitos, impulsionando-o ainda mais a nível global. Olhando para os últimos seis anos, período em que a empresa duplicou de tamanho e o valor em bolsa cresceu cerca de 200 por cento (hoje ronda os 40 mil milhões de euros), a missão não parece difícil de cumprir. Resta garantir que a Zara e o resto do grupo são maiores do que o seu criador.

Texto originalmente publicado na Pública