Miguel Manso e Nelson Garrido

Das cassetes de Beto nasceu a zumba

Até Michelle Obama pratica na Casa Branca. A zumba - misto de festa, aula de dança e exercício -, ideia de um colombiano, é um sucesso em 75 países e já chegou aos ginásios portugueses. "As pessoas querem fazer coisas que sejam muito divertidas, onde o tempo passa a voar e que não seja nada complicado."

A sala da Academia Alcântara, em Lisboa, não está cheia. Devem ser umas oito pessoas. Vão chegando minutos antes de a aula começar. Algumas chegam já cheias de energia, outras aborrecidas ao fim de mais um dia de trabalho. Mas basta começar a música que tudo muda. Apesar de serem poucas, preenchem o espaço com uma energia palpável. Os sorrisos e as gargalhadas propagam-se. Há quem esteja a experimentar a aula pela primeira vez, mas ninguém diria. Dançam todas ao mesmo ritmo, e não há coreografia que falhem. Isto é zumba. Um misto de dança com exercício.

A modalidade já chegou a Portugal e a moda começa a pegar. Ainda não é muito fácil encontrar um ginásio ou um espaço desportivo com estas aulas, mas uma vez encontrado a diversão está instalada. Saltos, palmas e gritos marcam a diferença. Podia ser uma festa em casa de uns amigos ou até numa discoteca mas por incrível que pareça é uma aula. "Zumba é alegria" ou "Zumba é festa" são slogans espalhados por todo o lado. Os Estados Unidos e a Inglaterra já se renderam.

"As pessoas costumam arranjar desculpas para não fazer exercício, mas para uma festa têm sempre tempo. Então, por que não juntar tudo?", diz Janete Sereno, instrutora em Alcântara desde Setembro de 2010. "A zumba é a fusão do fitness com a dança. É quase um exercício disfarce, uma pessoa diverte-se e ao mesmo tempo faz exercício e nem sequer se apercebe de que está a trabalhar diferentes partes musculares, simplesmente segue o ritmo da música", acrescenta.

Utilizando ritmos latinos, como a salsa, a cumbia, o merengue, o samba, o reggaeton, a belly dancing e o flamenco, entre outros, a zumba combina o exercício cardiovascular com passos de dança simples e movimentos de tonificação muscular. "E no fim de uma aula queimam-se entre 800 e 1000 calorias", assegura Janete. O que até não seria difícil de imaginar, afinal ao fim de três músicas já todas estão suadas e vermelhas como se tivessem corrido uma maratona.

"Ai que ela hoje mata-nos", brinca uma aluna, enquanto faz uma pequena pausa para beber água. Parece difícil, mas mais difícil será passar a aula sem cantar. Aqui não entra a Zumba na Caneca, da Tonicha, mas sim a Loca ou a Waka Waka, da Shakira, o Rap das Armas, de Cidinho e Doca ou Vem Dancar Kuduro, de Lucenzo, quase tudo é válido. Todas aquelas músicas que costumam passar na rádio e que qualquer pessoa dança numa discoteca fazem parte de uma aula.

"Na zumba, as coisas funcionam ao contrário das aulas normais de grupo que os ginásios têm, onde é preciso prender o cabelo, tirar as pulseiras. Aqui não queremos nada disso. É o oposto, soltem o cabelo, ponham as pulseiras, venham à vontade, só assim se podem divertir", explica Maria Lúcia Cabaço, instrutora de zumba desde 2008. Foi a primeira a praticar a modalidade em Portugal e desde então não tem parado de promover a zumba. "Estive em Inglaterra muitos anos e foi lá que conheci a zumba, quando decidi voltar a Portugal percebi que não existia nada assim e então decidi apostar nessa área."

Já passaram três anos e, apesar dos esforços, a modalidade ainda não é muito conhecida em Portugal. Para a instrutora, é uma questão de mentalidades. "Às vezes parece que temos medo ou vergonha de nos divertir. Na Inglaterra, eles querem é descontrair e entregam-se completamente nas aulas", diz Maria Lúcia Cabaço, apontando o dedo também aos ginásios. "Os ginásios ainda não aceitam muito bem a zumba. É mais difícil convencê-los a apostar nisto do que convencer as pessoas, que normalmente ficam a adorar a modalidade quando a experimentam", atesta a instrutora.

Janete Sereno acredita que a zumba conquista terreno em Portugal. "Já começam a aparecer mais pessoas interessadas, o que prova que está a ficar mais conhecida. A Internet tem tudo e eu descobri isto lá. Por isso acredito mesmo que as possibilidades de a zumba se tornar numa grande modalidade são muito grandes." Maria Lúcia Cabaço é mais céptica: "Já temos as 'brasileiradas' e, por isso, não estamos tão abertos à América Latina, que até costumamos ver como países de terceiro mundo e por isso não gostamos tanto."

No Porto, a situação não é muito diferente de Lisboa, apesar de a oferta ser maior. "O único curso de formação de instrutores de zumba em Portugal foi no Porto, pode ser por isso", diz Ana Fernandes, instrutora desde Dezembro de 2010. As suas aulas no ginásio Body Land, em Leça da Palmeira, têm apenas quatro meses e às vezes tem muitos alunos, outras quase nenhum. "Eu noto que as pessoas não conhecem, ficam curiosas e vêm espreitar a aula porque a música lhes chamou à atenção e acabam por experimentar."

A porta da sala está sempre aberta e há sempre alguém a espreitar. Os menos envergonhados chegam mesmo a entrar e a dar um passo de dança. "É tudo muito liberal, as pessoas são sempre bem-vindas", diz Ana Fernandes, confiante de que a zumba está "nitidamente a crescer". "O problema é que as pessoas pensam que isto é mais uma aula de ritmos e não tem nada a ver. Eu não vou ensinar ninguém a dançar tecnicamente bem. A ideia é fazer exercício físico através de coreografias simples. Qualquer pessoa pode fazer, não há limites", explica a instrutora.

Basta assistir às suas aulas para perceber a ideia, sejam homens ou mulheres, novos ou mais velhos, todos batem o pé. Aqui não há lugar para vergonhas. "Depois de um dia de trabalho cansativo, esta aula é do melhor que posso fazer. Uma pessoa vem aqui, relaxa, diverte-se e não pensa em nada", diz Alexandra Duarte, aluna de zumba no Porto há cerca de quatro meses. Descobriu a modalidade por acaso. "Andava aqui no ginásio, espreitei a aula e não resisti."

Uma história engraçada

Ao contrário de Alexandra, Paula Duque, aluna em Lisboa há sete meses, descobriu a modalidade por causa do nome. "Tem piada mas é verdade. Vi um panfleto num pára-brisas de um carro e o que me despertou foi a palavra 'zumba'. Nunca tinha ouvido falar. Depois de perceber o que era, fiquei logo maluca", conta, acrescentando que os benefícios que esta prática lhe trouxe são mais que muitos. "Além de adorar dançar música latina, tenho um sopro no coração e desde que pratico zumba tem melhorado muito, vê-se nos exames."

Victoria Beckham, Natalie Portman, Shakira e Madonna já se renderam. Michelle Obama também organizou uma aula de zumba na Casa Branca. "Lá fora é mesmo a loucura. Qualquer aula tem a sala cheia, e quando há algum evento aparecem sempre milhares de pessoas", assegura Maria Lúcia Cabaço, sublinhando que esses países levam anos de avanço em relação a Portugal.

A zumba chegou aos Estados Unidos em 1999, pela mão do coreógrafo colombiano Alberto "Beto" Perez. "A história é muito engraçada", conta entre gargalhadas Maria Lúcia Cabaço. "Um dia, o Beto esqueceu-se das cassetes que ia usar na sua aula e improvisou com a música latina que tinha no carro. A partir desse dia os seus alunos pediram-lhe para passar a dar a aula com essa música. Depois disso, o Beto foi para os Estados Unidos e em conjunto com Alberto Aghion e Alberto Pearlman criaram a Zumba Fitness".

Hoje, mais de dez anos depois, a zumba tornou-se num verdadeiro fenómeno. São mais de 15 mil os instrutores que garantem cerca de 50 mil aulas, em 75 países. A febre levou à criação de uma linha de roupa própria, à venda de DVD e CD e, como acontece com qualquer fenómeno, até já existe um jogo. O Zumba Fitness - Join The Party chegou às lojas no final do ano passado e já atingiu o primeiro lugar de vendas nos tops britânicos e americanos. A Digital Bros e a editora internacional 505 Games são as responsáveis pelo jogo, que sem comandos e sem limitações de movimentos, convida o jogador a seguir os movimentos dos dançarinos nos ecrãs, que surgem como se estivessem numa discoteca.

O jogo permite ainda planear um programa de fitness semanal, acompanhando a evolução do jogador ao longo das semanas. Ao realizar os movimentos correctos, no tempo e ritmo certos do instrutor de zumba, o cenário transforma-se numa autêntica festa com efeitos especiais e múltiplos bailarinos a acompanhar. Sendo a zumba uma festa, o jogo tem a possibilidade de ser jogado por oito jogadores. Em Portugal, Zumba Fitness - Join The Party está disponível para a Playstation, a Wii e a XBox 360, o que poderá ser uma nova rampa de lançamento.

"Tenho uma aluna que ficou a conhecer a zumba através do jogo e agora não quer outra coisa. Nota-se essa diferença. Há sempre alguém que ouviu falar ou viu o jogo e ficou curioso para perceber como é ter uma aula na realidade e por isso aparecem aqui no ginásio", conta Ana Fernandes, explicando que a Internet também tem tido um grande peso na divulgação da modalidade. "Está lá tudo, vídeos, fotografias, informações."

A zumba já é um modelo de negócio mundial. Os instrutores trabalham quase numa forma de franchise. Os ginásios não têm qualquer encargo com as aulas de zumba, tendo apenas de pagar ao instrutor, que por sua vez paga uma espécie de licença pelas aulas, CD e o uso da marca registada Zumba. "Para os ginásios, este é um negócio fácil. É pena que não aproveitem", diz Maria Lúcia Cabaço, explicando a organização da modalidade. "Só um instrutor oficial tem licença para dar aulas de zumba e para isso tem de estar inscrito no site oficial (www.zumba.com). Nesse site está toda a informação sobre as aulas e os instrutores oficiais." A falta de instrutores oficiais em Portugal é um dos motivos que têm atrasado o crescimento da modalidade. Para Janete Sereno, é essencial que se comecem a organizar mais cursos de formação porque "mais cedo ou mais tarde isto vai crescer". "É uma questão de tempo", acredita.

Com o sucesso a aumentar, Beto Perez aumentou a festa e criou ainda mais quatro modalidades dentro da zumba: a zumba gold (para pessoas de mais idade); o zumbatomic (dedicado especialmente a crianças e adolescentes, dos 6 aos 15 anos); a zumba Toning (para quem quer trabalhar a tonificação muscular mais intensamente para resultados mais rápidos); e a Aqua-Zumba (criada especialmente para pessoas que têm problemas de articulações, coluna e etc.).

"Estamos a ficar grandes", conclui Janete Sereno, sorridente. Para os especialistas que analisaram este fenómeno nos EUA, o segredo está no exercício disfarçado. "As pessoas querem fazer coisas que sejam muito divertidas, onde o tempo passa a voar e que não seja nada complicado. Elas não querem pensar muito", constatou o jornal The New York Times.

"É mesmo isso. A zumba faz-nos sentir vivos e cheios de energia. Vivemos um ambiente de festa onde todos se divertem e esquecem os problemas e o stress do dia-a-dia", atesta Maria Lúcia Cabaço.

A festa está aberta a todos, e quantos mais aparecerem melhor será. Os problemas ficam nos balneários. Os resultados são notórios - basta comparar as caras dos alunos antes e depois da aula. "Saio cansada, mas alegre e mais leve, não se nota?", brinca Paula Tiburcio, praticante de zumba desde Setembro.

A zumba está em Portugal e a moda vai pegar. O que está a faltar? "Levantarmo-nos do sofá, deixarmos de ser preguiçosos e perdermos a vergonha de vez."

Texto originalmente publicado na Pública