Miguel Manso/Arquivo

Conto de fadas gay

Duarte nasceu e viveu toda a adolescência dentro do castelo. A mãe rainha e o pai rei tinham receio do que lhe pudesse acontecer fora das muralhas e fizeram de tudo para o proteger. Os professores iam dar-lhe aulas na torre maior. Foi aí que aprendeu inglês e mandarim por questões estratégicas do reino. Teve aulas particulares de representação, natação, viola, esgrima… Tornou-se um príncipe culto, fisicamente ágil e robusto. Como não frequentou a escola, os filhos dos empregados eram os seus melhores amigos.

Ao completar 18 anos foi organizado um baile em sua honra. Estava na altura de casar e o baile serviria para lhe escolher uma noiva. Foram enviados convites para todos os reinos vizinhos e no total compareceram três centenas de pessoas. O Duarte estava lindo nesse dia, mas a sua expressão facial não podia revelar maior tristeza. A mãe rainha apresentou-lhe pessoalmente duas ou três meninas de sangue azul da sua eleição. De lágrimas nos olhos, Duarte dançou toda a noite com as candidatas. Não conseguia disfarçar a tristeza e o incómodo.

O príncipe estava há muito apaixonado por Francisco, o filho do mordomo principal. Francisco era um rapaz forte e doce, muito perspicaz e com um sentido de humor extraordinário. Os olhos de um azul profundo hipnotizaram o Duarte para sempre. O Francisco fazia-o feliz.

Quando o baile terminou Duarte sentiu que chegara o momento de contar toda a verdade aos pais. Apesar de antecipar o sofrimento que lhes ia causar, não podia continuar a adiar esta conversa e fê-lo com Francisco presente.

“Mãe, pai, eu e o Francisco amamo-nos e queremos ficar juntos, constituir família. Se eu chegar a ser rei desta terra é o Francisco que estará ao meu lado.”

A mãe rainha teve uma quebra de tensão e desmaiou. O pai deu-lhe uma bofetada estridente e começou a gritar ordens. O mordomo foi despedido e o Francisco expulso do reino. Seguiram-se meses de amargura. Duarte recusava-se a sair do quarto. Emagreceu cinco quilos em poucas semanas. O rei e a rainha começaram a questionar a sua decisão, no entanto, temiam a reacção dos demais reinos. Tinham receio de que um rei homossexual – era assim que Duarte seria conhecido – poderia colocar a credibilidade e independência do reino em xeque. A avaliação das agências de rating iria com certeza cair a pique… O reino chegaria a lixo…

Exactamente um ano depois Duarte decidiu enfrentar novamente os pais e renunciar ao seu título. Não herdaria o trono caso não aceitassem o seu amor por Francisco e essa condição era irrevogável. Nesse momento, os reis deram-se conta do erro que estavam a cometer. O casamento aconteceu dia 1 de Abril de 1900, tendo a festa durado sete dias. Duarte e Francisco viveram felizes para sempre, com as dez crianças órfãs que adoptaram em conjunto.

Socióloga, autora do blog super-mulher