REUTERS/Kim Kyung-Hoon

Saltos altos, para que vos quero!?

Aquilo que consideramos belo e feio é profundamente dependente da cultura em que crescemos. Podem facilmente identificar-se traços gerais, mas igualmente várias nuances. Por exemplo, os mais jovens são muitas vezes mais arrojados. Saias mais curtas, calças rasgadas ou pelas nádegas. Nuances à parte, a verdade é que a maior parte de nós esforça-se por se enquadrar dentro daquilo que entende como bonito e atraente, não é?

A natureza é impiedosa e não distribui de igual modo os atributos mais valorizados em termos de curvas, magreza, músculos, cor dos olhos, formato do nariz, altura…por isso, consegui-lo é mais fácil para uns do que para outros. Para além dos atributos físicos existe todo um conjunto de vestimentas, calçado e adereços que podemos usar para enfeitar e valorizar os nossos corpos. Algumas das nossas escolhas suscitam em mim sentimentos contraditórios. É o caso dos saltos altos.

Cresci com a imagem da mulher-adulta, da mulher-fatal e da mulher-independente a desfilar-se pelas ruas de saltos altos. Cedo quis começar a andar em cima deles. Era adolescente e queria projectar tudo aquilo que, para mim, eles representavam simbolicamente. Ainda hoje os aprecio. Gosto, compro e depois uso-os com parcimónia. Na verdade calçá-los e andar em cima deles exige muita perícia e consiste numa prova de esforço que na maior parte dos dias não estou disposta a fazer. Ao primeiro tropeção na pedra da calçada lá se vai toda a elegância que eles são capazes de conferir a quem assim se passeia. Os saltos altos tolhem também a agilidade, prejudicam o conforto e danificam a coluna. E não vou explorar os incidentes cómico-trágicos que um salto partido ou preso num buraco da calçada podem proporcionar…

Se o extraterrestre daquela galáxia longínqua viesse ao nosso planeta e visse uma mulher descer a Avenida da Liberdade, tentando equilibrar-se nos seus bonitos saltos altos com dificuldade, o que pensaria? Provavelmente o mesmo que nós pensamos ao ver aquelas imagens de homens e mulheres, de tribos distantes, com o queixo perfurado. Ou das mulheres-girafa que usam dezenas de argolas no pescoço, como acontece na Tailândia. Ou dos corpos escarificados.

Pergunto-me porque consideramos um sapato com uma espécie de espeto debaixo do calcanhar bonito. Não encontro respostas.

Beleza a quanto obrigas.

Socióloga, autora do blog super-mulher