AFP PHOTO / LOUISA GOULIAMAKI

Há cada vez mais gays!

A primeira vez que vi um casal de homossexuais de mãos dadas na rua, foi em Praga há cerca de 15 anos. Lembro-me que a imagem me deixou de sorriso rasgado, um pouco eufórica até. Na altura eu era uma miúda, vivia em Bragança e, mesmo nas estadias na capital, nunca tinha visto casais de gays ou lésbicas a passear-se descontraidamente e de forma anónima no meio da multidão, manifestando carinho entre si. Mesmo em ambientes mais abertos como o eram as escolas e as universidades que frequentei, não recordo alguma vez ter visto pessoas que não heterossexuais expressar o seu amor tórrido no bar ou no pátio. Desse tipo, pelo contrário, já vi muito. Talvez tenha protagonizado alguns deles.

Agora sei por que os casais de homossexuais eram invisíveis, apesar de se cruzarem comigo na rua e comigo terem partilhado a secretária.

Felizmente, hoje, nas ruas de Lisboa é cada vez mais comum ver-se pares de namorados homossexuais a trocar carícias e beijos em público. Tal como vemos casais heterossexuais. Exactamente da mesma maneira. Estas expressões de amor e carinho causam desconforto e estranheza a algumas pessoas, mas são muito importantes para que se entranhem de tal maneira nas nossas vidas que deixemos de dar por elas. Por isso continuam a arrancar-me sorrisos. São sinais de que a humanidade está a evoluir no sentido certo, no sentido da igualdade e da compreensão em relação ao que se considera diferente.

Eu que vivo uma relação com um homem e o posso beijar na boca sempre que me apetece, ou quase, pergunto-me como seria não o poder fazer. Conter o beijo, o abraço, a carícia fora de casa, a todo o momento, em qualquer circunstância. Quantas pessoas vivem as suas relações amorosas deste modo, em plena contenção de emoções, sem exprimir o que sentem?

Posso imaginar que são cada vez menos, pois as mudanças sociais a que temos assistido em termos dos direitos dos homossexuais têm sido positivas, embora lentas, na minha opinião. Sei que Roma e Pavia não se fizeram num dia, mas… No entanto, ainda são muitas, demais. Se assim não fosse, porque não nos cruzamos com mais casais de gays e lésbicas no nosso dia-a-dia? No trabalho, no café lá do bairro, no prédio, na escola e até no grupo de amigos? Que eles estão lá, ao nosso lado, a usar a máquina das fotocópias ou a beber café é indesmentível. Talvez ainda não se sintam suficientemente confiantes de que não vão sofrer qualquer tipo de represálias ou discriminação para o assumir…

Socióloga, autora do blog super-mulher