Pedro Cunha/Arquivo

A água Melgaço é pura, selvagem e heroicamente ferruginosa

Há blogues tão apetitosos que, quando vão de férias, causam ansiedade aos viciados. É o caso do magistral Restos de Colecção, de José Leite.

Mas até nisso tem pinta. Numa nota aos leitores, escreve: “Caros leitores, Por me encontrar ausente do país a publicação de novos artigos está suspensa até à segunda quinzena de Abril”.

O blogue é tão procurado que quando escrevo “Água das Lombadas” no Google aparece logo o belíssimo trabalho de José Leite, datado de 6 de Outubro de 2011, sobre a lendária água mineral de São Miguel.

A Água das Lombadas era a minha água mineral preferida mas desde a catástrofe de 2008, em que uma derrocada destruiu a unidade de captação e engarrafamento, que deixou de existir.

Como escreveu Adelino Mota Oliveira no glorioso Açoriano Oriental — o mais antigo jornal português — a água mineral das Lombadas “é uma riqueza que existe e que está, simplesmente, votada ao abandono”.

Vale a pena ler a crónica toda, com a ironia melancólica mas realista do autor.

Num dos anúncios da Água das Lombadas reproduzidos nos Restos de Colecção lê-se (com as maiúsculas originais) que “O ácido carbónico é NATURAL – Não é, como em algumas águas, introduzido artificialmente. É ÁGUA CARBO-GAZOSA NATURAL”.

Hoje as águas minerais que jorram da nascente já com bastante gás (mais concretamente com anidrido carbónico superior a 250 miligramas por litro, segundo o site da Unicer) chamam-se águas minerais naturais gasocarbónicas.

As melhores águas minerais gasocarbónicas pertencem à Unicer: a Vidago, a Água das Pedras e a Melgaço. São também excelentes as duas águas lisas da Unicer: a água Mineral Vitalis (da serra de São Mamede e da serra das Águas Quentes ,em Mação) e a água de nascente Caramulo.

A água de Melgaço é porventura a última água mineral gasocarbónica que é engarrafada tal e qual é captada. Tem um sabor formidável a ferro, como tinha a Água das Lombadas, e tem as mesmas propriedades restauradoras.

Apenas existe em garrafinhas impecáveis de vidro de um quarto de litro. Mas apetece beber logo duas de seguida. A água de Melgaço, tal como a das Lombadas, é uma água de amar ou odiar.

Numa prova recente, houve três pessoas que odiaram (a Maria João, a Sara e a Tristana) e duas que adoraram (o meu neto António e eu). O António apreciou o carácter “vulcânico” da água de Melgaço. A água das Lombadas era genuinamente vulcânica mas a de Melgaço tem a mesma alma de ferro e fogo.

A Água das Pedras também era uma água de amar ou odiar. Havia quem bebesse só pelo efeito digestivo, sem gostar do sabor. Hoje em dia vai sendo difícil encontrar quem a deteste com a paixão do século passado.

Suspeito que a Água das Pedras tenha sido aperfeiçoada pela Unicer. Continua a ser uma água deliciosa mas não é a Água das Pedras de antigamente. A Unicer esclarece no rótulo e na ficha técnica que ambas as versões da Água das Pedras (a Pedras Salgadas e a Levíssima) foram “submetidas a um método de adsorção autorizado”.

Claro que continuam a ser naturalmente gasocarbónicas. Nada têm a ver, por exemplo, com a Perrier que, apesar de muito boa, é “uma água mineral reforçada com gás proveniente da mesma nascente”.

Fazem o mesmo com a Vidago. A Vidago é outra belíssima água gasocarbónica mas também foi aperfeiçoada. É diferente da Vidago do século XX, mais agradável e ligeiramente mais gasosa talvez.

Estou tão agradavelmente habituado às versões com “método de adsorção autorizado” que ficaria escandalizado se alterassem o método. No entanto, gostaria muito se houvesse versões da Água das Pedras e da Vidago originais, tal qual jorram da nascente, sem serem submetidas a qualquer método que não o engarrafamento.

A Água de Melgaço é, por isso, um monumento gasocarbónico que deve ser celebrado e mantido a todo o custo. Tem toda a força ferruginosa das origens.

É bom ter em casa uma garrafeira de águas minerais naturalmente gasocarbónicas, começando pela mais levezinha (a Vidago), passando pelas duas versões da Água das Pedras e acabando na Água de Melgaço que, por ser original, é a que parece ter menos gás.

As águas minerais e de nascente que não são gasocarbónicas são outro campeonato, sejam mais ou menos gaseificadas. Algumas são muito boas, outras menos agradáveis. Ficam para outra altura. Bom proveito!