Maria João Esteves Cardoso

Um protesto violento contra a supressão sistemática do feijão frade na restauração lisboeta

Imagine que, quando come favas num restaurante, elas vêm sempre de uma lata. Seria inaceitável, não seria?

Mas é isso que acontece com o feijão frade e, cada vez mais, com o grão. O feijão frade de conserva até é bastante bom. Mas basta comer feijão frade demolhado e cozido para nunca mais querer outra coisa.

Para mais, o feijão frade cozido dura, bem arrumado no frigorífico, cinco ou seis dias. Basta cozê-lo uma vez por semana (35 minutos na panela de pressão com uma cebola) e fica-se com feijão frade para todos os dias.

É nas saladas, sobretudo, que o feijão frade mais brilha, como acompanhamento ou prato principal. A mais simples salada leva apenas bocados de tomate descascado, cebola, azeite e vinagre.

Todos os anos há uma curtíssima quinzena em que o tomate sabe mesmo a tomate. Acho que já passou a primeira semana e que ainda falta a segunda — depende do lugar onde está.

O feijão frade e o tomate foram feitos um para o outro mas, durante esta quinzena, comemos o tomate, aqui em casa e nos restaurantes aonde vamos, só com cebola, sal, azeite e vinagre. Nem os mais deliciosos orégãos se podem aproximar.

É sorte minha ter leitores como a Isa David e o Abílio Tavares da Silva. Ambos me escreveram a oferecer-me uma caixa de tomates coração de boi, a Isa David de Pernigem, na freguesia de São João das Lampas, vizinha de Colares, e o Abílio Tavares da Silva do Pinhão. Se os conhecem, peçam-lhes um ou dois tomates das “minhas caixinhas” e agradeçam-lhes a grande generosidade.

É um escândalo nacional os restaurantes não servirem feijão frade e grão por eles cozidos. Os arrozes e as batatas fritas são indispensáveis mas os clientes merecem poder escolher feijão frade ou grão como acompanhamento. Até em casas especializadas em bacalhau cozido quando pedimos grão fazem uma careta e vão abrir uma lata.

Os portugueses tratam o grão e os nossos muitos feijões como se fossem luxos caríssimos que só se podem comer de vez em quando. Exclamam “hoje fiz um arrozinho de feijão” como se o feijão fosse lavagante.

Sem ser nas feijoadas e nas dobradas, é raro verem-se os feijões sozinhos, devidamente respeitados. Se for uma lebre com feijoca disparam-se fogos de artifício, ficando qualquer forasteiro que assista a pensar que as feijocas são ainda mais raras do que as lebres.

É inconcebível para um brasileiro comer um churrasco ou uma feijoada sem o feijão preto cozido — à parte, para misturar com o arroz branco, também à parte. Porque é então tão difícil encontrar-se nos restaurantes uma oferta decente de feijões nacionais?

Não vou falar nos baixos preços nem nos valores nutritivos das leguminosas. Falo apenas na falta que fazem à nossa variedade alimentícia e aos prazeres da nossa mesa.

É preciso não ter preconceitos quanto às origens dos feijões. Já apanhámos óptimo feijão frade de proveniência peruana. Mas, tal como sabemos que o feijão catarino é melhor quando é fresco e está na época dele — não obstante dar para durar o ano inteiro —, também há-de ser o mesmo com o feijão frade.

No grão já fiz a comparação e não há dúvida que o grão cultivado localmente, numa horta artesanal, é muito mais saboroso do que o de granel. Os produtores pedem, com toda a razão, um preço mais caro, como 5 euros o quilo. Mas um quilo de grão é muito grão e são muitos os pratos portugueses e estrangeiros que se podem fazer com ele, mais uns fiozinhos de azeite, uns dentes de alho e uma varinha mágica...

Voltando ao feijão frade, é quase verdade dizer que, pelo menos no Verão, uma salada de feijão frade substitui o habitual arroz nos melhores pratos que acompanha (até os pastéis de bacalhau). Até a velha salada de atum com feijão frade merece um bom atum e muito mais cuidado do que entornar duas latas para uma travessa.

É um escândalo ter à mão tanta coisa boa para comer e comermos tão monotonamente, sempre as mesmas poucas coisas, sempre servidas da mesma maneira.