Peso e medida
Estas calças não me entendem!
O caminho da desvalorização, da diminuição e insatisfação corporal, pelo contrário, não parece levar a lugar algum.
Há dias fiquei intrigada com o comentário de uma jovem no provador de uma loja de roupa. Despertou a minha atenção pelo seu teor. Depois de uma experiência menos entusiasmante com a prova de uma peça de roupa, a jovem partilhava com uma amiga: “Nós encontramos sempre boas roupas nesta loja, mas este novo modelo de calças simplesmente não nos entende!”. De certa forma, este comentário deliciou-me e... deixou-me a pensar. É tudo uma questão de forma, de perspectiva.
Reparemos na forma como aquela jovem interpretou a sua experiência. Não é que o seu corpo não coubesse na peça de roupa que experimentou; esta é que não assentou no seu corpo como devia! Parece a mesma coisa, mas na realidade não é. E o impacto psicológico que tem na pessoa também não.
Esta visão invulgar retrata uma mudança de atitude, ou no mínimo, a adopção de uma atitude diferente da habitual. Habitualmente, quando as pessoas (especialmente as mulheres) não gostam da sua aparência, procuram formas de a alterar e, raramente, ponderam mudar a sua perspectiva. Importa perceber porquê.
A atmosfera cultural das últimas décadas tem vindo a objectificar o corpo feminino, destacando a aparência física como um aspecto central da feminilidade e convidando as pessoas a escrutinar o corpo da mulher sem suficiente consideração pela sua identidade, pelas suas características e sentimentos. Reparemos na forma como, tantas vezes, o corpo feminino é exposto nos meios de comunicação social: magro, belo e, frequentemente, fragmentado em pedaços cuidadosamente seleccionados (ex. coxas, nádegas, seios, etc.). Ou seja, as mulheres são socializadas de modo a olharem para o seu aspecto físico segundo uma lente que o perspectiva como “corpo-objecto” e que prioriza a sua aparência em detrimento da sua função, capacidades e outras características (para além da forma).
Adicionalmente, as pessoas são levadas a acreditar que a sua aparência é um aspecto central e que os julgamentos que as outras pessoas fazem da mesma determinam a forma como são tratadas e o sucesso que alcançam nos diferentes domínios da sua vida. Não só, mas em particular as mulheres. Uma consequência deriva naturalmente desta circunstância. A identidade e auto-estima de muitas mulheres torna-se profundamente dependente do alcance dos ideais corporais que vão interiorizando e construindo.
Mas, como referi, é tudo uma questão de perspectiva. De mudar a óptica da máquina. Substituir a óptica da depreciação pela da valorização. Não colocando tanto peso no que está em falta, mas mais no que se tem e no que o seu corpo lhes permite fazer. E, com efeito, a evidência científica sugere que valorizar o corpo em termos do que ele é capaz de fazer, e menos em termos da sua forma ou aspecto visual, parece ter um impacto positivo na saúde e bem estar, bem como na adopção de comportamentos mais saudáveis. Por exemplo, um grupo de adolescentes do género feminino que manifestaram apreciar a funcionalidade do seu corpo e a forma como este atendia às suas diversas necessidades (ex. fome, sede, sono/descanso), reportaram uma imagem corporal mais positiva, níveis de auto-estima mais elevados e menores níveis de afecto negativo. Muitas delas referiram ser fisicamente activas e consideraram o exercício agradável e salutar. Num outro estudo, jovens universitárias com uma imagem corporal positiva davam menos importância às mensagens distorcidas dos media, tinham uma relação mais saudável com a alimentação, praticavam exercício, e apresentavam níveis de auto-estima mais elevados e menos dependentes de ideais corporais irrealistas.
O caminho da desvalorização, da diminuição e insatisfação corporal, pelo contrário, não parece levar a lugar algum. Como já dizia Mark Twain, “A pior solidão é não estar confortável consigo mesmo”.
Lembre-se! Não é o seu corpo (ou você próprio/a!) que tem algo de errado; as calças é que não são compatíveis consigo, com as suas características (físicas ou outras) e com os seus gostos! São as calças que não o/a entendem!
Investigadora
Faculdade de Motricidade Humana, Universidade de Lisboa