Peso e medida
O Mistério das Pessoas Determinadas (parte 2)
A primeira parte deste artigo terminou com a misteriosa expressão “faz sem fazer e tudo fica feito”... Pretende-se agora concretizar uma visão que assentava na falácia de expressões como determinação, esforço ou força de vontade.
A primeira parte deste artigo terminou com a misteriosa expressão “faz sem fazer e tudo fica feito”... Pretende-se agora concretizar uma visão que assentava na falácia de expressões como determinação, esforço ou força de vontade. Em substituição, propusemos uma nova atenção à (natureza da) vontade, à capacidade e à oportunidade.
Dos três, a vontade – o conjunto das motivações – é talvez o mais decisivo. Contudo, como o tema já foi abordado nesta secção (por exemplo, aqui), passemos a um exemplo real: a mudança que algumas pessoas fazem de uma alimentação dita normal (omnívora) para uma alimentação vegetariana. Independentemente do seu valor para a saúde, o vegetarianismo é bom exemplo porque representa uma mudança substancial na dieta, com implicações na organização de quase todas as refeições, na escolha de locais para comer, no que comprar no supermercado, até na forma como os outros vêm os vegetarianos e como estes lidam com isso.
A pergunta que se coloca é: são os vegetarianos pessoas especialmente determinadas? Ou ainda: Terá sido necessária uma capacidade de sacrifício acima do normal para mudarem o seu regime alimentar? Vivem os vegetarianos em permanente esforço para assim se manterem, em muitos casos para o resto das suas vidas?
Embora se trate de uma mudança com muitos desafios, é adquirido que um fator que distingue os que adoptam o vegetarianismo com sucesso dos outros é a natureza dos motivos que os movem. Por exemplo, a preocupação com o meio-ambiente e os recursos usados na produção animal, ou a repulsa em comer certos (ou todos) animais e os seus derivados. Pelo contrário, é quando as convicções são pouco amadurecidas ou superficiais (p.ex, baseadas em modas ou influência de terceiros) que mais dificuldades irão ser sentidas em manter o novo regime. Sobre a diferença fundamental entres estes dois tipos de motivação – um revela uma “assinatura pessoal” forte; o outro uma vontade ainda “mal digerida” – já aqui falámos. Passemos por isso aos outros fatores.
No caso da oportunidade, trata-se sobretudo de valorizar o contexto em que as mudanças acontecem. Em linguagem popular, verificar se as “estrelas estão alinhadas”. Mudar algo na nossa vida é por vezes uma equação complexa. O que é simples visto de fora pode revelar-se um mistério insondável quando “experimentamos os sapatos” da pessoa que quer mudar e não consegue. Parte dessa dificuldade pode ter origem em fatores externos e, por isso, vale a pena perguntar(-se): é este o momento certo? Estão criadas as condições para o fazer? Navegar com vento contra é possível mas ainda melhor pode ser tentar criar melhores condições, aproveitar uma qualquer oportunidade, ou simplesmente esperar por um contexto mais favorável. Em suma, pormo-nos a jeito para mudar em vez de tentarmos arrepiar caminho (claro, com muita determinação!).
Pormo-nos a jeito pode significar conversar com a pessoa certa ou arranjar mais tempo só para nós; partilhar ou escrever o que nos preocupa; ler um livro ou ver um documentário sobre o tema que nos interessa; esperar pelo verão (ou pelo subsídio de férias!) ou então pela energia mobilizadora do regresso ao trabalho. Pode ser aproveitar as férias para fazer algo diferente (três dias sem comer carne ou peixe? passar a caminhar sozinho na praia?); aproveitar uma mudança imposta no horário no trabalho para mudar mais qualquer coisa; aproveitar o momento em que as “coisas em casa” acalmaram (seja lá o que isso for). Pode ser experimentar a classe de dança que alguém próximo recomenda; ou aproveitar que a ansiedade baixou, seja lá porque razão, e finalmente temos mais energia. Ou pode significar algo completamente diferente...
Cada vida é um conjunto particular de relações e circunstâncias e é difícil saber à partida o que significa criar condições para empreender uma mudança. Há até quem proponha que as teorias do caos se aplicam bem à mudança comportamental, tal a sua aleatoriedade. Mas voltemos à pessoa que passou a ser vegetariana. Ou, por exemplo, ao nosso colega que passou a maratonista com peso saudável depois de ter sofrido com obesidade. Em qualquer um dos casos vamos encontrar um vento que soprou a favor a par de boas razões para mudar. Oportunidades que se criaram ou se aproveitaram. Em pouco tempo, o que era difícil tornou-se acessível; o improvável passou à mais natural das realidades. Do without doing...
Falta falar do último dos três fatores: a capacidade. Aqui é habitual mencionar-se que é preciso conhecer, se não mesmo dominar a realidade em causa, seja ela qual for. Adquirir alguma mestria. Se falamos de dieta é importante conhecer os nutrientes e saber planear refeições; se falamos de peso, é essencial saber onde estão as calorias, como as equilibrar, ou como interpretar o número na balança; se falamos de exercício, é importante saber como o monitorizar, como progredir, como evitar lesões, etc. Mas há um outro tipo de conhecimentos e capacidades que importa reconhecer: aquele que nos ensina sobre nós próprios e sobre o papel dos afetos que vamos sentindo. Também este tema já foi abordado nesta seção, aqui.
Conhecer as nossas emoções, estados de humor, estarmos atentos ao que sentimos em geral, é um desafio para muitas pessoas que querem mudar de hábitos e não conseguem. Pode estar em causa perceber o que provoca ansiedade e reações de stresse que, por sua vez, retiram energia para outros desafios. Ou ir compreendendo padrões e ligações entre a vivência dos afetos no dia-a-dia e as opções que vamos fazendo. Perceber porque o que sentimos é às vezes “o nosso maior inimigo” pode ser tarefa a fazer com ajuda profissional mas um bom ponto de partida é explorarmos os relacionamentos mais importantes das nossas vidas... Verificarmos se nos dão ou retiram energia. Se nos fazem sorrir e aligeiram o peso dos dias; ou se mais parecem sorver os nossos nutrientes essenciais sem que disso demos conta. Pode ser uma área delicada, mas a importância para a motivação e para o bem-estar das relações sociais, das afiliações e das emoções associadas não é nenhum segredo. E está a ser explorada em vários projetos de investigação de dimensão considerável, como este e este, ambos com a participação da Faculdade de Motricidade Humana.
Podemos ser levados a pensar que só quando conseguirmos mudar nos vamos sentir melhor. Por exemplo, quando perdermos aqueles quilos a mais, ou deixarmos de fumar... O paradoxo é que, para conseguirmos mudar podemos ter, primeiro, de nos sentir suficientemente bem pois isso ajuda à vontade, a sentirmo-nos mais capazes, talvez até a gerar a melhor oportunidade. Mesmo quando o que nos ajuda a sentir melhor nada pareça ter a ver com a mudança que procuramos.
Investigador
Faculdade de Motricidade Humana