Peso&Medida
O Mistério das Pessoas Determinadas (parte 1)
Quem não gostava de ser mais determinado? Quem não admira alguém que parece ter essa poderosa qualidade?
Quem não gostava de ser mais determinado? Quem não admira alguém que parece ter essa poderosa qualidade? Pois eu pensei um pouco e percebi que não sou uma dessas pessoas... Mais estranho porém, cheguei facilmente à conclusão que não conheço alguém verdadeiramente determinado. Ou melhor, alguém sempre determinado. E conheço muita gente. Um mistério, portanto.
Se há palavra em voga, ela é ‘determinação’. Todos os dias a ouvimos, da boca de jornalistas e comentadores, em anúncios do género “tu tens a determinação – só te falta (inserir produto/serviço)”, no discurso de gestores de sucesso e em muitos outros contextos incluindo a respeito da nossa saúde e estilos de vida. Afinal de contas, não ‘somos o que escolhemos ser’? Talvez, mas nunca sem a omnipresente e reforçada dose de determinação! Serve para tudo. E frases como “fulano encarou o tratamento com muita determinação” ou “foi precisa muita determinação para perder estes 15 quilos” já não causam surpresa, gerando fáceis consensos sobre este suposto elixir do sucesso.
Determinação é também palavra-chave em discursos motivacionais de todo o tipo, desde os políticos (p.ex., os dois últimos moradores de São Bento) aos dos prosélitos apóstolos do “poder da mudança”: os coaches de tudo e o resto, os infalíveis gurus de auto-ajuda ou “programadores da neuro-linguagem” (todos muito bem pagos), e muitas outras versões do mesmo, que em comum têm o facto de muito raramente se sujeitarem ao escrutínio científico.
Para não fugir muito ao âmbito desta secção, situemo-nos no contexto dos comportamentos que nos ajudam (ou desajudam) a gerir o peso e a saúde: fazer exercício, comer bem, dormir o suficiente, ou gerir o stress. Certamente que já sentiu dificuldade em alguma ou em várias destas áreas e pensou que há de certeza gente mais determinada, para quem tudo parece ser mais fácil... Na verdade, quando lemos histórias de quem conseguiu perder peso (ou deixou de fumar, ou...), sobretudo aqueles que partilham publicamente o seu sucesso e querem ajudar outros no mesmo caminho, invariavelmente ouvimos uma qualquer descrição do seu processo, seguido de... “mas foi precisa muita determinação!”.
Passemos então a tentar esclarecer, através da bitola que rege habitualmente estes textos, o conhecimento científico, que representa não mais do que o acumular lento e progressivo de pequenas “verdades”, testadas de forma empírica e controlada (mas tantas vezes inconvenientes nas áreas da saúde, nutrição e bem-estar).
Primeiro, deve clarificar-se que a palavra determinação (nota: não confundir com auto-determinação), tão útil para a pessoa comum e para tantos “especialistas da mudança”, simplesmente não se encontra na literatura científica. Já nos devia fazer pensar. E os termos técnicos que mais se aproximam (p.ex., ‘força de vontade’) são tudo menos consensuais, não aparecendo na maioria das revisões científicas sobre os fatores de sucesso na mudança comportamental (por exemplo, para a gestão do peso).
Segundo, a crença que a determinação é uma característica da personalidade, que uns têm e outros, coitados, nem por isso, também não tem expressão nas teorias da personalidade mais reconhecidas. Alguns destes traços estão de facto associados a melhores resultados (p.ex., conscienciosidade e menor impulsividade, novamente para a gestão de peso), mas parecem ter pouco a ver com determinação.
Terceiro (porque não há argumento sólido sem pelo menos três pontos!), assumindo que determinação não é um imutável traço de personalidade mas algo que podemos desenvolver, porque é que nunca ninguém explica como isso se faz? Lembra-se de algum curso para ‘aumentar a determinação depois dos 40’?! É aliás um tema quase tautológico: temos de ser mais determinados. Como? Exercendo mais esforço, empenho e capacidade de sacrifício. Mas não é tudo um pouco a mesma coisa?!
Quantas vezes tomamos iniciativas no sentido das metas que tanto desejamos, com autoproclamada força de vontade e dedicação (ainda faltava ‘dedicação’ a este texto) tal como fazer uma inscrição num ginásio ou comprar um livro de receitas saudáveis? Infelizmente, sabemos que na maioria dos casos é sol de pouca dura e a iniciativa acaba no nosso triste repositório de planos falhados. O caso das dietas abortadas a meio-caminho é sintomático apenas por ser dos mais frequentes. Na verdade, a questão-chave neste discurso parece ser porque uns conseguem ser ‘determinados’ e outros não. Embora este caminho seja ótimo para gerar sentimentos de culpa e atentados à autoestima, se o percorrermos damos com um beco daqueles que só mesmo saltando o muro. Neste caso, para além das lamentações, teremos de saltar também o do bom-senso.
O que está errado nesta história? Que mistério alguém se esqueceu de nos revelar? Se não é de determinação que é feita a matéria-prima do sucesso, de que é então? Se há esperança para todos nós – os determinados em doses homeopáticas – onde a podemos encontrar?
Sendo a culpa um sentimento tão habitual na área dos hábitos de saúde, é curioso que encontremos resposta à nossa questão nas três condições necessárias para que alguém seja culpado de um crime. Que coincidem na perfeição com as áreas onde os investigadores mais procuram – e mais encontram – o que diferencia os ‘determinados’ dos outros. Em síntese: tal como na condenação justa, para a determinação nos sorrir mais vezes tem de haver oportunidade (acesso viável, um bom contexto, bons recursos); tem de haver capacidade (possuirmos alguns skills e algum conhecimento); e sobretudo tem de haver vontade. Usando linguagem mais técnica, e como no caso da lei, tem de haver um bom motivo. Ou vários bons motivos. Há até quem lhe chame uma boa “salada de motivos”!
Se formos diligentes nesta procura, perceberemos onde pode estar a ‘determinação’ que tanto desejamos. E teremos uma pista para conseguirmos explorar, nutrir e emancipar a nossa vontade, talvez o verdadeiro fulcro deste mistério.
No próximo artigo tentaremos explicar porque refletir (e agir) sobre estas três condições é suficiente para tornar obsoletas as discussões sobre ‘esforço e determinação’, ‘capacidade de sacrifício’, ‘disciplina férrea’, e outras vacuidades pseudomotivacionais tão em voga. Até lá, sintamos o conforto de um aforismo antigo, talvez demasiado simples e até pouco lógico, mas que parece conter parte da resposta que procuramos. Ao que parece, teve origem do Norte e no frio, o que parece apropriado quando (aparentemente) se discutem questões de ‘fibra e de têmpera’.
Do without doing and everything gets done.
Investigador