Miguel Manso/arquivo

Peso&Medida

Eu e a minha saúde

Os apelos à adopção de estilos de vida saudáveis são hoje uma constante na nossa sociedade.

Os apelos à adoção de estilos de vida saudáveis são hoje uma constante na nossa sociedade. As campanhas de sensibilização – quer por parte das instituições públicas, da comunidade médica e científica, quer pela comunicação social – têm-se multiplicado de tal forma que muitas vezes estes apelos “entram a 100 e saem a 1000”. Dizemos para nós mesmos: “Já sei que devia, mas...”

Todas as iniciativas que aumentem a nossa consciencialização sobre o efeito destes comportamentos na nossa saúde são importantes, mas os avanços na investigação na área da Mudança Comportamental em Saúde sugerem que a capacidade destas campanhas para produzir efeitos é limitada. Em geral, pretendem aumentar a nossa intenção de adotar um determinado comportamento. No entanto, está hoje bem documentado que nem sempre as intenções – “Tenciono começar a ir ao ginásio” –, se traduzem em ações – “Hoje inscrevi-me no ginásio e já experimentei uma aula." Mudar hábitos de saúde e, mais ainda, manter novos comportamentos é um caminho complexo, que é influenciado por múltiplos fatores.

Pense, apenas durante uns instantes, sobre a sua experiência pessoal. Quantas vezes tentou mudar a sua alimentação (comer menos doces, por exemplo), fazer mais atividade física, ou perder peso? Se refletir sobre as razões que contribuíram para realizar os comportamentos desejados sem os interromper ou desvirtuar, é provável que identifique mais do que uma razão. Por exemplo, no caso da atividade física, razões pessoais, como os conflitos entre esta atividade e outras atividades desejadas, ou o tipo de motivação para a praticar, podem ser facilitadores ou inibidores deste comportamento. Para além disto, ter boa companhia para fazer atividade física (fatores sociais) ou a acessibilidade a locais de prática (fatores ambientais), são também razões que influenciam as nossas práticas.

As escolhas e as experiências vividas nos processos de mudança em saúde são individuais, mas o percurso não tem de ser solitário, nem repleto de curvas ou cruzamentos perigosos. Os avanços na investigação em Psicologia da Saúde e outras disciplinas que procuram compreender os fatores psicossociais associados aos estilos de vida saudáveis, e o esforço que tem sido feito para traduzir este conhecimento em estratégias de atuação eficazes (por exemplo, por parte dos profissionais de saúde), permitem a construção de caminhos menos sinuosos e promotores de experiências positivas. A título de exemplo, foi recentemente realizado na Faculdade de Motricidade Humana, da Universidade de Lisboa, um Seminário Internacional onde se pretendeu estimular o debate e a reflexão em redor de questões que nos inquietam: “Porque é que algumas pessoas querem, conseguem e mantêm comportamentos saudáveis e outras pessoas não?”, “O que é que já sabemos e o que nos falta saber para melhor promover estilos de vida saudáveis?”

Voltando, como exemplo, à intenção de praticar atividade física, uma estratégia simples, amplamente testada e que tem revelado ser eficaz na promoção de novos comportamentos, é a implementação de intenções que, como o próprio nome indica, corresponde ao estabelecimento de planos de ação/objetivos concretos: “A partir de segunda-feira, vou fazer caminhadas, três dias por semana, ao final da tarde. Planeio caminhar durante 30 minutos, no parque junto a minha casa”. Esta é apenas uma estratégia possível que certamente não servirá a todos. Para outras pessoas, outras estratégias serão mais úteis.

Procurando contribuir para o processo de auto-gestão de cada um, queremos, com esta nova série de artigos publicados na rubrica “Peso & Medida”, no Life&Style, trazer ao leitor informação científica atual sobre os factores e estratégias associadas aos comportamentos de saúde e gestão do peso, bem como estimular uma reflexão sobre a sua relação com a sua saúde. Pode começar por perguntar-se: “O que é para mim ser saudável?”.

Marta M. Marques é psicóloga da Saúde e investigadora na Faculdade de Motricidade Humana, Universidade de Lisboa, e escreve segundo o Acordo Ortográfico. martamarques@fmh.ulisboa.pt