Peso & Medida
Até onde é que o equipamento pode levar o seu treino?
Quando o ano começa e existe uma agenda nova a estrear, a vontade de a usar é imediata. Mas será que acontece o mesmo com a roupa de desporto? Será que comprar um par de ténis novos é capaz de despertar o corredor adormecido que há em si? Ou um novo relógio com GPS estimular treinos mais intensos?
A exposição sistemática a um determinado objecto faz com que a pessoa memorize a sua utilidade e a forma indicada de agir. Este processo ocorre porque os pensamentos e comportamentos funcionam muitas vezes através de automatismos que condicionam a acção, servindo os estímulos de pistas inconscientes que indicam qual o comportamento associado.
Mas será que esta influência comportamental também acontece com o vestuário? Segundo investigações recentes, a roupa que vestimos influencia a forma como nos comportamos. Por exemplo, os participantes de um estudo que vestiram uma bata branca estavam bastante mais atentos durante a realização de uma determinada tarefa do que aqueles que não tinham vestido a bata, especialmente quando lhes era dada a informação que se tratava de uma bata de médico. As roupas influenciam os nossos comportamentos, sendo este fenómeno designado em psicologia por “cognições de vestuário” (enclothed cognition). E para que ocorra é necessário que a pessoa tenha a experiência de vestir a roupa e se tratem de peças com significado simbólico, como uma farda ou uma toga de juiz. Assim, ao vestir uma roupa a pessoa veste também o seu significado simbólico e tende a comportar-se de acordo com a roupa que enverga.
Será então de esperar que vestir um fato de treino aumente a vontade de fazer actividade física? E irá este fenómeno ocorrer de igual forma em todas as pessoas?
Na verdade, não se trata de um processo linear e é preciso ter em conta as características individuais, pois a escolha da roupa traduz a identidade do sujeito e é um reflexo da forma como este se sente em relação a si próprio. A satisfação com a imagem corporal é um aspecto que pesa bastante nesta relação pois, tendencialmente, aqueles que se sentem mais satisfeitos com o seu corpo gostam de se ver com diversas peças de roupa, ao passo que as pessoas mais insatisfeitas desenvolvem atitudes mais negativas em relação ao vestuário, nomeadamente menor confiança na escolha. Assim, uma roupa de treino pode ter diferentes significados e gerar diversas emoções, consoante as características individuais, a satisfação com a sua imagem, a experiência desportiva prévia e a prática regular de actividade física ou sedentarismo.
Apesar de a roupa não ser o único factor a ter em conta, esta pode aumentar a vontade de se comportar de acordo com o que se tem vestido. No entanto, é importante lembrar que se trata de um factor externo e provavelmente não o aspecto-chave capaz de motivar a prática por um longo perído de tempo.
Ter roupa de treino com a qual nos sintamos bem e confortáveis ajuda a praticar actividade física e a reforçar a nossa “identidade atlética”, mas mais importante do que isso é a forma como a pessoa se sente quando está a treinar e todos os significados e atribuições que a actividade lhe desperta e reforça.
Se estas conclusões se aplicam ao uso do GPS de pulso, banda para frequência cardíaca, ou demais acessórios fica por ora em aberto. Voltaremos ao tema...
Madalena Mascarenhas,
Psicóloga e Mestre em Exercício e Bem-estar
Faculdade de Motricidade Humana da Universidade de Lisboa