Eliseo Fernandez / Reuters

Peso&Medida

Correr contra o tempo

Numa altura em que muitas pessoas se ajustam a novas rotinas após o período de férias de Verão, encontrar tempo para fazer actividade física pode ser um desafio.

A falta de tempo é mesmo uma das razões mais frequentemente apontadas para optarmos por um comportamento em detrimento de outro: algumas sessões de exercício canceladas, refeições menos conseguidas, noites interrompidas antes da hora. O tempo, ou a presumível falta dele, tem as costas largas.

O que distingue os indivíduos que encontram tempo para fazer actividade física e comer equilibradamente dos que estão demasiado ocupados para tal? O que está por detrás das nossas decisões relacionadas com a gestão do tempo dedicado à nossa saúde e bem-estar?

As decisões quotidianas são muitas vezes tomadas com base no resultado esperado das mesmas. Algumas teorias relacionadas com o tema dos objectivos postulam que o indivíduo inicia ou modifica o seu comportamento para se dirigir a metas pessoais relevantes e também para reduzir a discrepância entre o seu estado actual e o desejado. 

Face à mutação do contexto, novas metas podem ser traçadas. Como linhas mestras a montante desses objectivos encontram-se, na melhor das hipóteses, os valores pessoais. Agir de acordo com estes valores pode traduzir-se em bem-estar, satisfação pessoal e estabilidade comportamental. Porém, é comum tomarmos decisões que não correspondem inteiramente ou contradizem mesmo os nossos princípios. Por exemplo, a inscrição num ginásio quando não se gosta ou valoriza suficientemente o exercício nesses locais. Ou optar continuamente por restaurantes de fast food mesmo não concordando com o que eles representam. 

A incongruência entre o comportamento e os valores de vida pode também levar à procrastinação em parte porque o comportamento em causa tem menor significado pessoal. Por outro lado, a tomada de consciência deste desfasamento pode ser um potente motivador para a adopção e manutenção de um dado comportamento ou, mais genericamente, para reforçar o auto-controlo.

Finalmente, os motivos inerentes à prática de actividade física podem também influenciar a satisfação que se obtém durante a prática e a sua estabilidade no tempo. Motivos relacionados com o divertimento, desafio, desenvolvimento pessoal e saúde estão relacionados com maior autonomia na prática, enquanto metas relacionadas com a aparência, perda de peso, e reconhecimento externo impõem um maior sentimento de pressão e mais baixa adesão . Em correspondência, valores mais relacionados com a qualidade de vida, em oposição a questões mais relacionadas com a imagem e com o estatuto social, encontram-se associados a uma maior adesão comportamental. 

Se considerar importante para si realizar actividade física, provavelmente a melhor forma de encontrar tempo para a fazer, mesmo quando ele escasseia, será fazê-la corresponder às suas reais expectativas e objectivos, procurando as que melhor se enquadram com os seus valores e aspirações pessoais.

 

Fisiologista do exercício e Personal trainer
Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa

hpereira@fmh.utl.pt