Reuters/ Andrew Kelly

Peso&Medida

Perco peso se me pagarem

E se o seu médico de família lhe oferecesse uma recompensa financeira para perder cinco quilos até à próxima consulta? Ou se a empresa onde trabalha criasse um sistema de penalizações financeiras para trabalhadores com obesidade reincidente? Parecem ideias ridículas mas este tipo de acções está a ser ponderado, e testado, como uma possível solução para o problema da obesidade.

Em parte por desespero face à ineficácia de outros métodos; em parte pelo efeito novidade e pelo apelo intuitivo (o dinheiro motiva tanta coisa, porque não o emagrecimento?); e em parte pela crescente popularidade de algumas teorias económicas, o uso de incentivos financeiros para impulsionar o emagrecimento é uma das últimas tendências a serem testadas por cientistas do comportamento e da saúde.

Os incentivos podem ter a forma de recompensas, depósitos a reaver mais tarde ou mesmo penalizações e cortes em certos benefícios. Podem ser propostos a uma pessoa individual ou a um grupo de pessoas. Serão estes métodos eficazes? Serão defensáveis do ponto de vista ético? E serão comportáveis para a sociedade considerando, por exemplo, a elevada prevalência da obesidade? 

Relativamente à eficácia de sistemas de incentivos financeiros para reduzir o peso (em voluntários de estudos), o que sabemos  é que estes podem resultar enquanto estão presentes mas que a estratégia é ineficaz  a partir do momento que estes são interrompidos. Ou seja, o peso perdido tende a ser recuperado e não se vislumbra um mecanismo para o resultado poder vir a ser diferente. Sabe-se também que incentivos negativos, como o caso de um  depósito inicial que se perde em caso de insucesso, parecem ser mais eficazes que recompensas positivas (um bónus em caso de sucesso, por exemplo).  

De igual forma, incentivos associados a metas de um grupo parecem funcionar melhor do que incentivos atribuídos individualmente. Apesar destas tendências, existem tão poucos estudos neste momento que não é possível ainda tirar conclusões definitivas. Por exemplo, não se sabe de todo como funcionariam os incentivos em pessoas que não têm intenção de perder peso; nem se sabe qual o valor mínimo eficaz dos incentivos. 

Existem também questões éticas a enfrentar por quem contempla oferecer incentivos financeiros para as pessoas gerirem melhor o seu peso. Talvez a mais importante seja saber se todas as pessoas têm condições comparáveis à partida (genéticas, familiares, económicas) para conseguirem perder peso. Se assim não for, será provavelmente injusto oferecer um incentivo sabendo que algumas pessoas de um dado grupo ou população terão sempre uma probabilidade menor de dele beneficiarem. Outro aspecto a considerar é o facto de os incentivos, mesmo se eficazes inicialmente, não contribuírem para a pessoa compreender melhor porque desenvolveu o obesidade originalmente. E poderem até afastar a pessoa dessa procura.

De facto, existem possíveis consequências negativas do uso de incentivos, que se relacionam com o tipo de motivação fornecido por um reforço prioritariamente externo, seja ele positivo ou negativo. Como temos explorado nesta secção, existem inúmeras vantagens de agirmos com base primordialmente na nossa vontade e em motivos internos e bem reflectidos. Pelo contrário, a motivação associada a contingências externas – por via de um incentivo, exigência, ou fonte de coação ou sedução – tende a ser mais superficial, menos duradoura e pode mesmo diminuir o interesse e o envolvimento pessoal nas actividades “incentivadas”.

Existe também ampla evidência de que os sentimentos de pressão e a ansiedade associados a contingências externas podem ser prejudiciais ao nosso bem-estar mental. É por isso fundamental compreender melhor como cada pessoa interpreta e “vive” psicologicamente a existência de um incentivo, pressão ou fonte de sedução externa. O mesmo sistema de recompensas ou punições pode ter efeitos e consequências muito diferentes de pessoa para pessoa. 

Por último, devemos questionar se será o número de quilos na balança o melhor indicador para determinar a obtenção de um incentivo? Sendo o peso corporal o resultado complexo de muitos factores, nem todos sob o controlo da pessoa, não serão os comportamentos de alimentação e actividade física (não o peso em si) um alvo mais apropriado? Se sim, nunca é tarde para tentarmos entender melhor porque fazemos o que fazemos, por exemplo, quanto à nossa nutrição e exercício físico. Qual será o melhor “incentivo” para tal missão?

 

Pedro Teixeira
Professor e investigador
Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa

pteixeira@fmh.utl.pt