Peso&Medida

É preciso passar fome para perder peso?

Será o jejum intermitente o “último grito” ou o primeiro de muitos suspiros?

Desde épocas ancestrais que o ser humano tem sido exposto a períodos de restrição alimentar (vulgo fome). As causas mais comuns eram - e continuam a ser - a escassez de alimentos ou motivos religiosos (por exemplo, o Ramadão). Contudo, o jejum voluntário tornou-se hoje moda entre aqueles que procuram perder peso.  

O jejum intermitente é a dieta em voga no momento e consiste na restrição severa das calorias ingeridas (até 80% das necessidades diárias), durante 1 ou 2 dias por semana, retomando-se a alimentação habitual nos restantes dias. Nos EUA, cerca de 14% da população reportou recorrer a dietas de jejum intermitente, sendo a “Fast Diet” (também chamada “5:2 Diet” ou “Dieta dos dois dias”) a mais utilizada actualmente pelas celebridades.

Em Portugal, cerca de 4% dos adultos afirma que utiliza períodos de jejum como estratégia para controlar o peso e cada vez mais surgem nos media alusões a este tipo de dieta. Mas como para qualquer solução de perda de peso, três questões precisam ser esclarecidas à luz da ciência: Quão eficaz é o jejum intermitente na perda de peso? Qual o seu impacto na saúde física e psicológica? Resulta no longo prazo? 

Apesar da escassa evidência e do reduzido número de indivíduos estudados, a literatura científica aponta para alguma perda de peso como resultado destas dietas - como, aliás, seria de esperar. Um estudo recente revelou que indivíduos com obesidade perderam em média 5,8% do seu peso (cerca de seis quilos) em oito semanas com uma dieta restrita em 75% das calorias. Contudo, um outro estudo em mulheres com excesso de peso e obesidade concluiu que o jejum intermitente (restrição de 75% das calorias) é tão eficaz quanto a restrição calórica moderada (restrição de apenas 25%) no que diz respeito à perda de peso. Em ambos os estudos observou-se uma ligeira perda de massa gorda (cerca de 3%) e uma melhoria de biomarcadores metabólicos: diminuição do colesterol total, colesterol LDL e triglicéridos, entre outros. 

Estes resultados podem ser vistos como promissores, mas “não há bela sem senão” e o jejum intermitente pode também acarretar consequências negativas. Um estudo de revisão sobre esta temática concluiu que a fome aumenta em resposta ao défice energético, e que no dia seguinte ao jejum as pessoas optam por comer alimentos com elevada densidade energética (ou seja, mais calóricos e ricos em gordura), talvez como mecanismo compensatório. A fome sentida durante o dia de jejum pode também levar algumas pessoas a comer compulsivamente e a fazer escolhas menos saudáveis. Um aspecto claramente negativo deste tipo de dieta é que o peso perdido na balança corresponde em grande parte a reduções de massa muscular e não de gordura, o que não acontece com dietas mais moderadas e mais equilibradas nutricionalmente. Finalmente, o risco de fadiga nos dias de jejum poderá limitar a realização de diversas actividades do quotidiano e, potencialmente, diminuir a actividade física e o gasto energético. 

Os efeitos a longo prazo de dietas de jejum intermitente ainda não foram estudados, o que levanta muitas dúvidas quanto à sua utilidade no controlo do peso e ao seu impacto na saúde física e psicológica. Sabemos, por agora, que esta dieta não é considerada (nem pode ser recomendada) como uma estratégia generalizada de combate à obesidade. E, provavelmente, nunca virá a sê-lo, como tantas outras dietas da moda que surgiram um dia e noutro dia desapareceram.

Para algumas pessoas será mais apelativo restringir tudo o que comem durante um ou dois dias por semana do que reduzir gradualmente as calorias ingeridas. Porém, tudo o que sabemos hoje não aponta para o uso desta estratégia como solução eficaz e com riscos desprezíveis. Pelo contrário, sabemos o que fazem muitas pessoas que conseguiram perder peso com sucesso e o jejum intermitente não surge nessa lista.  

É bem provável que o jejum intermitente não seja a resposta para se ver livre de uma vez por todas do peso que poderá ter a mais. Porém, como todas as estratégias para perder peso, as contas fazem-se em anos e não em semanas ou poucos meses. Enquanto não é possível fazer essas contas, recomenda-se uma atitude prudente. 

 

Inês Santos
Dietista e Investigadora
Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa

isantos@fmh.utl.pt