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Peso&Medida

Correr ou caminhar para perder peso?

A questão “qual o melhor exercício para perder peso?” coloca-se muitas vezes às pessoas que querem emagrecer e aos profissionais que as aconselham. Mas a questão está mal colocada e por isso acaba muitas vezes por ser um “tiro no pé”... de ambos.

Nos EUA, um estudo acompanha milhares de corredores habituais e também milhares de “marchadores” (pessoas que praticam a caminhada regularmente, com objetivos de saúde) desde há vários anos. Neste cenário, a tentação dos investigadores é grande para comparar ambos os grupos e avaliar quem se dá melhor a gerir o seu peso. Respostas simples, do tipo a corrida é melhor que a marcha para a perda de peso ou a marcha bate a corrida na melhoria de fatores de risco cardiovascular são frequentes mas a verdade é que têm aplicação limitada à generalidade da população e podem até induzir em erro.

Por exemplo, estes grupos são auto-selecionados, um termo técnico que designa amostras escolhidas de forma não aleatória. Isto significa que as pessoas escolheram caminhar ou correr por sua iniciativa e antes do estudo de iniciar. Este facto pode implicar que os benefícios que obtêm das actividade que escolheram fazer (corrida ou marcha) podem não ocorrer em pessoas que não escolheriam fazer a actividade mas que para ela foram “motivadas”. Quem escolhe correr pode ter características de partida diferentes (metabólicas, morfológicas, sócio-económicas, etc.) de quem escolhe caminhar. A mesma lógica aplica-se a outros comportamentos como o alimentar ou de gestão de stress, que podem diferir bastante entre as pessoas à partida, influenciando mais tarde as consequências do exercício no peso e na saúde.

Um outro problema, relacionado, é que mesmo que se confirme, em estudos experimentais, que a corrida é mais eficaz para perder peso do que a marcha – pelo simples facto de exigir um gasto energético superior para o mesmo tempo de actividade – isso não significa que a devamos aconselhar preferencialmente às pessoas que querem perder peso. As preferências pessoais e a aptidão física de cada pessoa, a sua idade e género, bem como o seu grupo de amigos ou a zona onde vivem são factores que podem influenciar a adesão, o prazer e o compromisso com a actividade física – e os resultados desta no peso e na saúde – bem mais do que o tipo de exercício recomendado pelo fisiologista do exercício ou pelo médico. O melhor exercício para gerir o peso é aquele que é praticado de forma livre e é fonte de interesse e satisfação ao longo de meses ou anos. 

Por último, a questão “Correr ou caminhar para perder peso?” está mal colocada porque enfatiza a instrumentalização da actividade física como meio para atingir uma finalidade específica – perder peso (para a qual aliás nem é especialmente eficaz, como já explicámos aqui) – desvalorizando assim outros aspectos motivacionais com maior potencial, como também já explicámos aqui.

Provavelmente, se perguntássemos aos milhares de corredores dos estudos citados em cima quais as razões que os levam a correr, perder ou manter o peso seria apenas uma delas e talvez não a mais importante. Infelizmente, em cerca de 70 estudos publicados com o grupo de corredores citados (National Runners' Health Study), não foi possível encontrar um único estudo que tivesse feito a pergunta: “porque é que corre?” 

Contudo, quando questionamos pessoas que perderam peso de forma duradoura, praticamente todas fazem actividade física regular. E quando lhes perguntamos que actividade física preferem, a maioria prefere caminhar. Algumas correm. Outras vão ao ginásio. Outras pedalam. E algumas dançam e se calhar já nem precisam de perder peso!

 

Pedro Teixeira
Professor e investigador
Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa

pteixeira@fmh.utl.pt