Reuters/Jason Lee

Peso&Medida

Vai um empurrãozinho?

Por vezes, sem nos darmos conta, tomamos decisões acerca do que comemos ou acerca da nossa actividade física sem nos darmos conta de que estamos a decidir. Chegamos a ficar zangados com as opções que acabamos por seguir, pois contrariaram aquilo que, conscientemente, estávamos a procurar cumprir como por exemplo, uma dieta ou um plano de actividade física.

Estas situações têm intrigado investigadores, especialmente porque colocam em causa a racionalidade que se espera imperar nas nossas decisões, onde medir prós e contras, sermos consistentes na procura de certas metas e uma cuidada análise das consequências das nossas acções seriam elementos fundamentais no processo de tomada de decisão.

A economia do comportamento (behavioral economics) é uma área do conhecimento que tem procurado contribuir para a compreensão destes fenómenos. Hoje, começamos a perceber que muitas das nossas decisões resultam em grande medida de pistas sócio-contextuais que nos "empurram" para (ou facilitam muito) uma determinada decisão em detrimento de outra. São os chamados nudges, uma daquelas palavras que resistem à tradução. 

Nudges podem ser aqueles "toques de cotovelo" que um amigo nos dá para chamar a atenção para um aspecto especialmente interessante, a iluminação do balcão dos bolos na pasteleria que incita à sua visão e desejo ou a disposição de cadeiras numa sala que promove uma dada disposição dos alunos. São pistas para a acção de que nem sempre temos consciência. Em alguns casos, tratam-se apenas das condições pré-existentes (default conditions) num dado contexto e sem propósito aparente (por exemplo, o toque definido por defeito num telemóvel novo), mas que acabam por determinar a nossa realidade. Noutros, o meio ambiente foi propositadamente alterado para nos induzir num determinado sentido.

Estes “empurrõezinhos” podem ser extremamente poderosos, levando a que empresas os usem no sentido de promover a compra dos seus produtos e governos os considerem em políticas públicas. Por exemplo, já reparou que num supermercado há uma maior probabilidade de escolher os produtos que estão à altura dos seus olhos ("longe da vista, longe do coração", lá diz o ditado)? Ou que alguns dos produtos que interessa escoar mais rapidamente são colocados próximos das caixas registadoras, onde tendencialmente passará algum tempo à espera, levando-o a fazer uma compra menos consciente? Ou, num exemplo mais positivo, que a existência de ciclovias leva a que se sinta mais motivado para ir de bicicleta para trabalho?

Os nudges estão interligados com a ideia de "arquitectura da decisão", ou seja, com a possibilidade de, através da alteração das pistas sócio-contextuais, podermos aumentar a probabilidade de uma dada decisão. Alguns estudos já mostraram a eficácia dos nudges, quando, por exemplo, em supermercados próximos de escolas colocaram fruta perto das caixas registadoras, elevando a quantidade de fruta comprada por estudantes em 70%. No entanto, nem todos os nudges parecem proporcionar o mesmo efeito pois os que incluem algum tipo de informação (por exemplo, um aviso como "use as escadas em vez do elevador"), não originam resultados consistentes. Usando o mesmo exemplo para demonstrar o tipo de nudges que funcionam melhor, umas escadarias agradáveis, luminosas e espaçosas (versus elevadores escuros e antigos) certamente levariam a mais escolhas pelas escadas. Infelizmente, como seguramente já reparou, não é esse o cenário mais comum nos nossos edifícios, "empurrando-nos " tendencialmente para o elevador…

Encontramo-nos, então, numa situação em que a regulamentação parece fundamental para que o poder dos nudges seja utilizado numa perspectiva de ganho público e interesse geral. Até lá, resta-nos estar alerta para os melhores e piores nudges que nos vão surgindo, cientes do seu poder sobre as nossas decisões e treinando-nos para resistir aos menos bem-intencionados. Talvez ainda mais importante, podemos também melhorar o nosso próprio envolvimento sócio-contextual (quais  "arquitectos de decisão") para que as nossas próprias escolhas, grandes e pequenas, sejam mais facilmente aquelas que realmente valorizamos. 

 

Professor e Investigador
Faculdade de Motricidade Humana e Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias