Reuters/Rupak De Chowdhuri

Peso&Medida

Basta de força de vontade!

O meu desejo para 2013 é que de uma vez por todas abandonemos a ideia de que, para perder peso, o importante é ter muita força de vontade e auto-disciplina. Não é. Há estudos que o desmentem. É por isso altura de explorar outras hipóteses para compreender o por quê de algumas pessoas conseguirem reduzir o seu peso e outras não.

Passou recentemente na rádio o comentário de dois especialistas – um psiquiatra e uma psicóloga – relativamente às questões colocadas com maior frequência no Google em 2012. Para as mulheres portuguesas, a questão vencedora na categoria “como fazer” foi “como emagrecer?”. Este facto não surpreende e vai ao encontro da elevada prevalência das tentativas de gestão de peso em Portugal verificada em estudos científicos recentes. Mas este tema fica para outra oportunidade.

O que espantou na análise feita por estes especialistas acerca da estatística do Google foi, por um lado, a superficialidade na explicação (supostamente técnica) da dificuldade em perder peso e, por outro, o recurso exagerado a ideias feitas - algumas das quais sem suficiente fundamento científico. Dizia a psicóloga que, como “toda a gente sabe”, perder peso tem tudo a ver com “adiar a gratificação” e “ser persistente” e que as pessoas procuram “soluções mágicas” para algo que, definitivamente, não se atinge “sem esforço”.

É lógico, racional e produtivo à luz da economia comportamental escolhermos a via mais fácil e rápida para o que desejamos atingir. Poderá eventualmente até ser verdade que a maioria das pessoas acredita que existe realmente uma via rápida para perder peso, método esse que apenas precisam de descobrir (na Internet, por exemplo). Já o facto de ser necessário muito esforço, enorme auto-controlo e uma disciplina à prova de bala para manter perdidos os quilos indesejados parece ser um conceito generalizado. Como veremos, não é mais do que um mito. E um que importa desmontar pois é causa de desnecessário sofrimento e de ineficiências várias no tratamento da obesidade.

Em primeiro lugar, devemos saber que este tema é objecto frequente de estudo científico, numa linha de investigação denominada "preditores de sucesso no tratamento da obesidade". Não é por isso matéria em que seja preciso adivinhar (ou “achar”), ou ter de recorrer apenas ao senso comum. Temos participado nestas investigações desde há vários anos e delas não se conclui que valores acima da média ao nível da auto-disciplina ou da capacidade de adiar a gratificação sejam aspectos particularmente importantes para o sucesso no tratamento da obesidade. Ao invés, características como manter uma boa imagem corporal, preservar o bem-estar psicológico (apesar do excesso de peso), ter uma atitude flexível na restrição alimentar e no processo de emagrecimento (como evitar pensar na perda de peso como um “tudo ou nada”), bem como querer perder peso por razões internas, reflectidas e associadas a aspirações centrais na vida da pessoa, são comprovadamente preditores de sucesso.

Note-se também que auto-disciplina e força de vontade não devem ser confundidos com auto-motivação. Esta sim, é uma característica positiva que indica conhecimento do que nos motiva de forma estável e revela uma boa gestão individual da energia que nos impele para agir (fazer uma caminhada ou escolher melhor à mesa, por exemplo). Motivação que vai variando e que está sujeita a muitas influências externas, mas que devemos conhecer o melhor possível na procura das nossas metas. E aqui está um bom tema para uma consulta de obesidade: ajudar o utente a conhecer e a saber “cuidar” (tornar-se num perito) da sua motivação, motor essencial da regulação do seu peso e da sua saúde. Diz-nos a experiência e também a ciência que, com a motivação adequada e a aquisição de algumas competências, não é preciso um esforço desmedido para conseguir perder peso e/ou mantê-lo.

Em segundo lugar, há que analisar as implicações morais da questão da “disciplina de ferro”. Quase sempre associado ao uso dos termos “disciplina” e “determinação” adivinha-se nos discursos (lê-se nas entrelinhas) um conjunto de outros atributos positivos do carácter humano, como ser cumpridor, rigoroso e persistente. Alguém em quem podemos confiar. Pelo contrário, quem aparenta menor “determinação” – por exemplo, para “se controlar” e não comer demais – é vulgarmente tido como preguiçoso, desleixado, guloso e menos confiável. Assim, a magreza e a obesidade parecem possuir informação implícita sobre traços da nossa personalidade. Só que tudo isto é uma falácia, já que a investigação não revela que os mais pesados e os mais magros difiram marcadamente em traços psicológicos estáveis ou relevantes. A casuística do nosso dia-a-dia confirma também a existência de muitos magros menos recomendáveis a par de “menos magros” do mais dedicado, rigoroso e persistente que existe.

Finalmente, volto a frisar que poucos preconceitos são mais prejudiciais no tratamento da obesidade do que a crença generalizada de que a pessoa com esta condição é menos persistente, mais desleixada e globalmente menos capaz de se auto-regular do que a média. “Se assim não fosse, não estaria na consulta”: noção errada mas muito frequente que, como já aqui mostrámos, é co-responsável pela elevada discriminação que grassa – incógnita ou, pior, aceite como natural – contra as pessoas com obesidade. 

Quando, na função de especialistas, dizemos publicamente que as pessoas que procuram perder peso recorrendo à Internet o fazem porque não estão para se darem ao “trabalho árduo” de “adiar a gratificação” e “manter a disciplina”, estamos na prática a perpetuar estigmas prejudiciais, a ignorar a investigação científica sobre o tema e a contribuir para tornar algo que já é difícil – porque o meio-ambiente actual nos “empurra” de facto para ficarmos mais pesados – num desejo ainda mais longe de se realizar. 

Pedro Teixeira
Professor e investigador
Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa
pteixeira@fmh.utl.pt