Peso&Medida
Posso ser o seu coach?
Alguns estudos sugerem que pode trazer benefícios no tratamento do colesterol, diabetes, redução de peso, aumento da actividade física e na melhoria de indicadores psicológicos. Mas afinal, o que é o coaching?
A máxima “faz o que eu digo, não o que eu faço” é facilmente aplicável à área da saúde. Sabe-se a importância da componente comportamental na promoção da saúde, assim como os benefícios da actividade física e alimentação saudável. Porém, muitos optam por alternativas menos saudáveis, criando um hiato entre o que se entende por estilo de vida saudável e o que se concretiza.
Nos últimos anos, tem sido feito um esforço no sentido da educação da população e criação de condições físicas para a adopção de alternativas saudáveis. Parece que estamos a assistir a um aumento da prática de actividade física, quer em ginásios quer ao ar livre. Contudo, estudos recentes sobre a população portuguesa revelam uma fraca adesão à actividade física ao longo da vida em ambos os sexos. Paralelamente, a consciência colectiva da alimentação saudável parece estar a aumentar, mas os números do excesso de peso em Portugal já se encontram entre os 58% e os 75% da população com mais de 18 anos de idade.
De acordo com alguns autores, a solução para este desafio passa por uma abordagem mais centrada no indivíduo. Nessa lógica, o coaching valoriza o papel individual no processo de modificação dos comportamentos. As práticas de coaching remontam à década de 1970, quando Werner Erhard conduziu seminários e workshops de empowerment e auto-motivação. O processo pretende dotar os indivíduos de competências psicológicas como a autoconsciência, responsabilidade, auto-eficácia e auto-motivação. Alguns estudos sugerem que a sua utilização pode trazer benefícios no tratamento do colesterol, diabetes, redução de peso, aumento da actividade física e na melhoria de indicadores psicológicos (stress, integração, satisfação, percepção de qualidade de vida e suporte social), podendo por isso representar uma intervenção útil no auxílio da modificação do comportamento.
Na literatura, o coaching é usado para descrever qualquer abordagem menos diretiva à mudança do comportamento. Hoje chama-se coaching a muitos tipos diferentes de intervenções, desde programas educacionais, a intervenções baseadas na entrevista motivacional ou a qualquer abordagem que dê alguma liberdade (i.e. poder de decisão e escolha) à pessoa ao paciente. De facto, não existe uma recomendação consensual quanto a um método preferencial de estruturação desta intervenção e mesmo nos casos em que coaching se traduz por uma abordagem baseada na responsabilidade do paciente, estabelecimento e foco em objectivos claros e numa melhoria da qualidade da motivação, as intervenções possuem características e processos muito díspares. Torna-se assim difícil aferir neste momento a eficácia e a segurança deste método.
Não obstante, a atenção dada à perspectiva do utente/cliente/ consumidor, encarado como agente activo no processo de mudança, é um dos grandes benefícios desta nova tendência que permite aproximar as palavras dos actos. Colocando o indivíduo no centro do processo de tomada de decisão e garantindo a sua percepção de autonomia em todas as fases do processo, poder-se-á facilitar a adopção de novos comportamentos ou reforçar a sua manutenção no tempo. A tomada de consciência do que realmente é importante para cada um e quais os valores que mais se acarinham pode permitir perceber a discrepância entre a vida que se vive (as decisões individuais quotidianas) e aquela que se quer viver, originando o desejo de se aproximar da realidade pessoal redescoberta.
Sem padronizar os procedimentos de forma demasiado rígida, o que levaria a uma perda de flexibilidade e da naturalidade da consulta, é necessário delimitar consensualmente o enquadramento teórico, a estrutura base, os procedimentos, e o âmbito de aplicação do coaching. Assim, este método poderá ser replicado e ver a sua segurança e eficácia testadas. Espera-se que breve, fruto da união da ciência da modificação comportamental com a sua aplicação prática dentro de parâmetros de ética profissional inatacáveis, todos possam usufruir dos benefícios desta abordagem.
*Fisiologista do exercício e personal trainer
Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa