Reuters/Jason Reed

Peso&Medida

Quem sabe do meu peso sou eu

Um dos mitos mais frequentes relativamente à perda de peso é que existe uma receita para o conseguir, receita essa que “toda a gente sabe” (genericamente, comer menos e mexer-se mais) mas que poucos têm a força de vontade e disciplina para aplicar de forma constante.

Como quase todos os mitos na área da obesidade, também este foi construído com base num fundo de verdade, depois convenientemente embrulhado num pacote (leia-se: conjunto de argumentos e “conselhos práticos” associados) irresistível pela sua simplicidade, mas com um problema grave: não funciona. Na verdade, passou a ser uma daquelas prendas que preferíamos não ter recebido pois, no mínimo, são inúteis (e ficam na gaveta, como tantas dietas ao fim de algumas tentativas). Outras vezes são presentes envenenados, como rapidamente descobrem pessoas que gostariam de perder peso.

Nos EUA, desde há 18 anos que um grupo de investigadores responsáveis pelo Registo Nacional (Americano) de Controlo do Peso (ou NWCR) reúne informação detalhada sobre um conjunto de pessoas – são já mais de 5000 – que apresentam a particularidade de terem perdido, em média, 30 kg do seu peso e que conseguiram manter-se assim por muitos anos. A questão essencial que motivou e tem ocupado os investigadores deste estudo é a mais óbvia: como o conseguiram?

Dezenas de artigos têm sido publicados no NWCR que traçam um retrato cada vez mais fiel destes “mestres” ou “peritos” da perda de peso. Descobertas que têm, aliás, sido usadas para a formulação de muitas recomendações para perder peso por parte de governos e outras instituições. Por exemplo, conselhos como privilegiar o pequeno-almoço regular, reduzir as gorduras, ver poucas horas de televisão, monitorizar o peso regularmente e – talvez a faceta mais importante – fazer exercício físico várias vezes por semana. Parecia pois estar traçada a "receita” para quem deseja perder peso definitivamente. E na cabeça de muita gente, inclusive muitos especialistas e técnicos desta área, é assim que permanece, como que “escrito em pedra”.

Mas, na ciência como nas nossas vidas, aquilo que é verdade hoje... continua muitas vezes a ser verdade amanhã, mas com nuances e qualificações que fazem toda a diferença. E o mais recente artigo do NWCR revelou uma dessas nuances, usando uma metodologia que identifica não as tendências gerais do grupo (por exemplo, que a maioria das pessoas toma o pequeno-almoço todos os dias; que a maioria faz exercício, etc.) mas sim diferentes perfis de participantes. A técnica chama-se análise de clusters e confirmou que, embora todos os participantes tenham atingido o mesmo objectivo – reduzir substancialmente o seu peso e de forma duradoura –, nem todos seguiam “a receita” que o seu próprio estudo parecia vir a construir há quase duas décadas!

Foram, neste estudo, identificados quatro perfis distintos. Os denominados “típicos” (51%) tentaram muitas vezes perder peso antes de terem êxito, geralmente fizeram-no sozinhos (mas muitos usaram programas comerciais), mantém alimentos saudáveis em casa, apresentam melhor saúde e gostam particularmente de fazer exercício. Logo de seguida, os “lutadores” (27%) têm maiores variações de peso, indicam que têm de se esforçar bastante para conseguirem perder ou não ganhar peso, recorrem mais a medicamentos, dietas e produtos comerciais, e apresentam pior saúde. Os “sucesso imediato” (13%) caracterizam-se por raramente terem tentado perder peso antes, terem o peso bem estabilizado e manterem-no sem ajuda externa e sem grande esforço, têm ainda pouca história de obesidade na família e apresentam a maior percentagem de homens e de pessoas com educação superior. Finalmente, os “sedentários” (10%) são mais velhos que a média, com menos anos de escolaridade, reportam menor número de refeições por dia e dizem conseguir comer pouco sem sentir fome, e muitos (menos de metade) não usaram exercício para perder peso nem o valorizam especialmente.

Se já tentou perder peso – e estima-se que mais de metade dos adultos portugueses estarão nessa situação – com que grupo de identifica mais?

A lição central deste estudo é claramente que a melhor receita para a perda de peso... são várias. E que cabe por isso a cada pessoa, sozinha ou com apoio especializado, encontrar aquilo que realmente funciona para si. Porque, em última análise, o melhor especialista sobre a nossa perda de peso somos nós próprios. 

A partir de agora, a quem nos quiser convencer do contrário, fazendo-nos crer que “já sabe” o que devíamos fazer para perder peso, podemos falar-lhe deste estudo e alertar que, se a nossa individualidade não for tida em conta na “receita”, o resultado será provavelmente o mesmo de muitos milhares pessoas que não conseguem regular o seu peso, nem param de tentar.

Se isso não resultar podemos, em último recurso, fazer um pequeno brilharete e citar Samuel Butler, em Hudibras: “he who complies against his will is of the same opinion still” (quem se submete contra a sua vontade não muda por isso de opinião). Esta sim, uma verdade simples, sem “embrulho” que a esconda, e especialmente útil nos tempos que correm.

 

Nota: Em Portugal existe desde 2008 um estudo similar ao NWCR, que conta já com 300 participantes e muitas histórias de sucesso. Se perdeu 5kg ou mais durante a idade adulta e o conseguiu manter por pelo menos um ano (ou conhece alguém nestas condições), a Faculdade de Motricidade Humana gostaria de conhecer essa história. Para melhor identificar perfis de sucesso com sabor tradicional português clique aqui

 

Pedro Teixeira
Professor e investigador
Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa
pteixeira@fmh.utl.pt