Peso&Medida
Segredos da magreza feminina na Nova Zelândia
Os neozelandeses são conhecidos pela sua paixão pelo desporto e actividade física. Ao mesmo tempo, a obesidade é bastante prevalente naquele país. Estudos recentes desvendam como muitas mulheres na Nova Zelândia conseguem remar contra a maré e manter um peso saudável.
Embora seja comum perguntar a participantes em estudos científicos o que comem ou quanto comem às refeições, já não é tão habitual perguntar “porque motivo escolhe alimentar-se assim?” ou “qual a velocidade a que come habitualmente?”. Foram precisamente estas questões que investigadores na Nova Zelândia decidiram estudar num grupo representativo da população (feminina) de meia-idade daquele país, talvez suspeitando que nas respostas encontrariam dados novos sobre como manter a linha de forma eficaz. Assim foi.
Quanto à velocidade às refeições, as conclusões foram que quanto menor o tempo à mesa das mulheres neozelandesas, maior o seu peso. Outros estudos similares nos EUA e no Japão tinham já chegado a conclusões semelhantes, sugerindo que mastigar mais lentamente, fazer pausas entre cada garfada, assim como perder (ganhar?) mais tempo durante as refeições são estratégias a preservar e a recomendar.
Curiosamente, dados preliminares da população portuguesa não verificaram qualquer associação entre a velocidade de ingestão alimentar e a obesidade. Mas observou-se que a velocidade média das refeições em Portugal é mais lenta do que em vários outros países, pelo que poderemos estar (ainda) parcialmente protegidos contra os efeitos nocivos da fast food nas rotinas alimentares, tal comer no carro, comer sem interromper o trabalho ou comer “à pressa”. Que assim nos mantenhamos!
Quanto aos motivos que levam as mulheres da Nova Zelândia a escolher o seu padrão alimentar, este estudo foi inovador ao dividir os motivos avaliados com base no grau de volição (“vontade própria”) e compromisso pessoal das pessoas face às suas escolhas. Algo que em língua inglesa é por vezes referido como “ownership” face aos nossos comportamentos. Exemplos de questões no estudo aferindo um maior compromisso pessoal nas escolhas alimentares são:
- porque me divirto a preparar refeições saudáveis
- porque comer saudavelmente é parte integrante da forma como decidi viver
- porque comer de forma saudável é coerente com outras escolhas na minha vida
Exemplos de questões medindo motivos de ordem mais exterior (menor compromisso):
- porque me sentiria envergonhado/a se não comesse de forma saudável
- porque pessoas próximas (cônjuge; pai/mãe) ficariam aborrecidas se não o fizesse
- não sei, sinceramente; não vejo o que ganho com isso
Os resultados mostraram que mulheres com valores mais expressivos no primeiro tipo de questões, denotando por isso uma melhor motivação revelaram menor risco de obesidade e também um perfil de comportamento alimentar mais positivo: menos crises de voracidade alimentar (binge eating) e menor ingestão de alimentos como hambúrgueres, snacks fritos e produtos de pastelaria e uma ingestão superior de frutas e produtos hortícolas. O contrário verificou-se para quem apresentava motivos mais externos: além de pesarem mais, indicaram gastar menos tempo às refeições. Também à mesa, parece que “depressa e bem, não há quem”.
Não será preciso viajar aos antípodas para aprender a comer pausadamente. Mas salienta-se nestes resultados algo por vezes desvalorizado no nosso país, local de “brandos costumes” e doses abastadas de conformismo. Trata-se do incentivo a aprofundarmos as razões das nossas escolhas e a fazermos exercer de forma mais assumida a nossa vontade. Neste caso, nas opções alimentares do dia-a-dia. Para usar um termo em voga, poderíamos chamar-lhe assertividade alimentar: eu escolho alimentar-me assim porque é realmente importante para mim; faço-o de forma assumida e ponderada; e tenho prazer nisso. Não porque “sempre fiz assim”, para “agradar a terceiros”, para “não destoar”, ou porque “olhe, nem sei bem... porque sim”.
Nestes casos, alertam-nos do outro lado do mundo – e suspeitamos que é universal – que talvez mais valha não fazer.
Pedro Teixeira
Professor e investigador
Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa
pteixeira@fmh.utl.pt