O maratonista Stefaan Engels mostrou em Lisboa que é adepto da música para correr.
O maratonista Stefaan Engels mostrou em Lisboa que é adepto da música para correr. Nuno Oliveira

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Música para correr mais longe

Em 2007, a comissão organizadora da maratona de Nova Iorque proibiu o uso de música durante a prova e centenas de corredores uniram-se na desobediência, arriscando a desqualificação do evento. Do outro lado do Atlântico, na meia maratona de Londres, músicos tocavam ao vivo ao longo do percurso na iniciativa “Run to the Beat”. Porque será a música tão importante para estes corredores? Como pode usar a música a seu favor na corrida?

Há quem corra enquanto conversa com um amigo ou se reúne com um colega, alguns fazem-no enquanto meditam e muitos enquanto ouvem música. Os leitores portáteis de música evoluíram bastante desde os walkman até aos leitores de mp4 que se encontram hoje no mercado, o que permitiu a facilidade e generalização do seu uso. Na verdade, a música está presente em muitos momentos da vida e representa um estímulo acrescido para o deleite dos corredores.

A noção de escape associada à música pode ampliar o efeito meditativo e de redução do stress durante o jogging ou a corrida e julga-se que será esse um forte motivo para a sua utilização. A música tem um efeito benéfico no exercício pela sua capacidade de captar a atenção do ouvinte e aumento do trabalho produzido, especialmente em movimentos rítmicos como a corrida. Para além do ritmo, também a musicalidade, o impacto cultural e a associação a outras experiências são factores importantes no aumento das sensações positivas, da dissociação da dor e fadiga, bem como na redução da percepção de esforço. A música é por isso um elemento motivador que pode levar a aumentos da intensidade e/ou duração em exercício autorregulado. A curto prazo, resulta habitualmente em níveis de resistência, potência, produtividade ou força acima do esperado. A longo prazo pode resultar numa maior fidelização ao hábito do exercício pelo prazer obtido durante o mesmo.

Como o cérebro possui uma limitada capacidade de processamento de informação, o estímulo auditivo da música impede a chegada de feedback sensorial associado à fadiga física. Esta concorrência ocorre até níveis de intensidade elevados, altura em que as sensações de fadiga parecem ter dominância sobre a música. A música provoca também uma resposta emocional, que pode ser causada por alguma memória associada a essa faixa, por empatia com o sentimento expresso pelo cantor ou pela letra. Alguns estudos realizados sugerem um efeito da música no aumento da presença no momento (“flow”), que é um dos expoentes da motivação intrínseca na atividade. Outro aspecto interessante é que o efeito da música parece ser ampliado quando a seleção do exercício e da playlist é realizada pelo próprio e não imposta.

A busca da música perfeita para correr tem motivado acesso debate. Alguns acreditam que é uma questão de gosto pessoal, enquanto outros defendem que a escolha de músicas para correr nem sempre tem de ser consistente com o gosto musical do praticante.

Finalmente, alguns conselhos para escolher a playlist para a corrida neste verão:

• Escolher uma grande variedade de música conhecida que tenha ritmo forte e enérgico, letras positivas e eventuais associações com desporto.
• As primeiras músicas não devem ser particularmente rápidas (80 a 130 bpm) para dar tempo para o aquecimento.
• Depois do aquecimento, escolher um ritmo concordante com a intensidade do exercício e as variações na frequência cardíaca, entre os 125 a 140bpm.
• Escolher um tempo total da playlist um pouco mais longo do que o tempo habitual de corrida.
• As músicas devem transmitir boas sensações ou recordações e as melhores músicas devem ser colocadas a partir da 4ª posição e alternadas.
• Incluir algumas músicas que são reservadas exclusivamente para ouvir durante a corrida.
• Actualizar regularmente algumas músicas na playlist, considerando cada corrida um teste à sua eficácia.

Algumas notas de precaução:
• Em certas condições, a música pode desviar a atenção de informação importante como a presença de carros na estrada ou tráfego em geral.
• O uso regular da música leva a uma dessensibilização e perda do seu efeito.
• O volume demasiado alto pode danificar as estruturas do ouvido interno.

Para os que sempre amaram correr, mas também para os que se iniciam neste momento, a corrida pode ganhar um novo colorido com uns headphones colocados no ouvido!

*Fisiologista do Exercício e Personal Trainer