Will Burgess / Reuters

Peso&Medida

Correr pela minha saúde?... Não me parece!

Quem pretende promover a prática de exercício ainda não aprendeu a lição do Marketing. Para motivar, é preciso estabelecer ganhos a curto prazo.

Há frases, expressões e objectivos que, de tão repetidos, acabam por perder o sentido - se é que alguma vez o tiveram. Dizer que é importante fazer algo “pela nossa saúde”, mais do que um lugar-comum, pode mesmo configurar uma abstracção com pouco potencial para motivar alterações de comportamentos.

Nietzsche afirmava que a objecção, o desvio e tudo o que é particular e específico de cada um são sinais de saúde, encarando o absoluto (o massificado) como pertencente à patologia. No entanto, poucas aspirações humanas são encaradas de forma tão absoluta como a saúde, aliás definida pela Organização Mundial de Saúde (OMS) também em termos genéricos como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de doença”. Esta velhinha definição, apesar de ter tido o grande mérito de considerar a saúde muito mais do que a ausência de doença, tem sido frequentemente criticada pelo seu carácter idealista e pouco útil operativamente. De facto, não existe uma saúde. Questões ligadas ao contexto pessoal e social (e até histórico), às aspirações, objectivos e valores individuais podem trazer significados diferentes ao que se entende por “ter saúde”.

Na área do exercício físico, por exemplo, a investigação indica que metas relacionadas com o bem-estar no dia-a-dia - como ter mais energia, vitalidade, flexibilidade ou capacidade para gerir melhor o stress - traduzem-se em mais minutos por semana de actividade física, do que quando o mesmo objectivo é colocado em termos genéricos como “ter saúde”, ou “envelhecer com menos factores de risco”. Parece então fundamental que cada um possa reflectir no que significa a saúde para si, no seu dia-a-dia, residindo aí uma das chaves para olhar para o exercício com outros olhos, passando a dar-lhe prioridade sobre outros pontos da tão apertada agenda quotidiana.

Objectivos colocados de forma abstracta não parecem ter força suficiente para se sobrepor aos pequeninos (muitos) compromissos e tarefas mundanas, levando ao adiar constante da prática de actividades físicas (quase à segunda, quase à terça…). Os especialistas apontam para a relevância do fenómeno de utilidade instantânea, chamando a atenção para a importância de benefícios concretos e em tempo real. Importância há muito percebida no terreno do marketing mas que, no que toca aos comportamentos de saúde, parece ficar esquecida…

Caminhar não tem só que ser a promessa de um amanhã com mais equilíbrio, pode ser já um presente com uma noite de sono mais tranquilo e reparador, configurando uma oportunidade para pensar melhor (ter uma ideia criativa!) ou sentir-se com mais energia para um dia de trabalho. Muitas serão as utilidades instantâneas possíveis (por exemplo, “é o único momento do dia em que posso estar sozinho” dirá alguém).

Deverá a saúde ser considerada como um objectivo em si? A este respeito importa considerar a própria evolução operada pela OMS ao entender hoje a saúde como a extensão em que um indivíduo ou grupo de indivíduos é capaz de realizar as suas aspirações, satisfazer necessidades e mudar ou enfrentar o ambiente. Ou seja, a saúde como um recurso para a vida, não como um objectivo de vida! Um recurso essencial para uma vida completa, mais “viva”, um respirar em comunhão com aquilo de que se gosta e valoriza.