Miguel Madeira

Peso & Medida

É possível ser-se "activo" e "sedentário" ao mesmo tempo?

Passamos cada vez mais tempo sentados e concentramos a actividade física em poucos momentos do dia ou da semana. O ideal parece estar no equilíbrio entre o sedentarismo e a chamada "vida activa".

Se quisesse diagnosticar o risco para a saúde de alguém, onde colocaria uma pessoa com excesso de peso relativamente a uma pessoa sedentária? Provavelmente diria que a pessoa com excesso de peso apresentaria uma maior probabilidade de ter problemas de saúde do que a sedentária. Mas não é essa a interpretação que a Organização Mundial da Saúde (OMS) faz destes dois riscos para a nossa saúde, pois refere que os comportamentos sedentários apresentam um risco superior ao excesso de peso e obesidade. 

Faz, então, todo o sentido procurarmos compreender melhor esta "epidemia escondida", muito menos mediática do que outras, mas potencialmente mais perigosa para a saúde pública. O efeito prejudicial do sedentarismo prolongado foi inicialmente assinalado num estudo feito em Inglaterra nos anos 1950, quando um investigador de nome Morris comparou a saúde cardiovascular dos condutores com a dos revisores dos tradicionais autocarros de dois andares em Londres. A conclusão foi que os condutores tinham pior saúde cardiovascular presumivelmente porque passavam a maior parte do tempo sentados, enquanto os revisores, que tinham de subir e descer escadas várias vezes e permanecer muito tempo em pé e a caminhar, tinham melhor saúde.

Mas então, pode o leitor pensar, se o meu trabalho me exige estar sentado - portanto sedentário - grande parte do meu dia, estarei eu a colocar em risco a minha saúde? Eu até vou ao ginásio três vezes por semana e ando duas horas de bicicleta ao fim-de-semana…

Este é um cenário relativamente comum nos dias de hoje, visto que a nossa sociedade criou o que se tem denominado de "envolvimento obesogénico" - promotor da obesidade -, exigindo que o nosso trabalho, deslocações e lazer sejam realizados numa postura relativamente recente no nosso percurso evolutivo e que parece colocar em risco a nossa saúde: estar sentado… Por outro lado, alguns de nós procuram compensar esta situação concentrando a sua actividade física numa parte específica do dia, realizando-a com intensidades moderadas a vigorosas - aquelas que as linhas orientadoras para a saúde referem trazer os maiores benefícios. Para muitos, é a melhor oportunidade que é proporcionada para se manterem activos.

Estes são momentos em que somos "activo-sedentários", uma situação paradoxal que começou recentemente a ser estudada. O que é que já se sabe sobre ela? Se usarmos uma metáfora de um pódio de uma competição desportiva, seria assim:
1.º lugar do pódio - mais de 150 minutos de actividade física moderada a vigorosa (“exercício”) por semana e não atingir os 120 minutos sedentários (sentado) por dia
2.º lugar - mais de 150 minutos de actividade física e mais de 120 minutos sedentários (os "activo-sedentários")
3.º lugar (mas sem direito a medalha…) - menos de 150 minutos de actividade física e mais de 120 minutos sentado por dia… Sei que o 1.º lugar é complicado de atingir face às exigências dos dias de hoje (só para escrever esta peça passei mais do que 120 minutos sentado…). Mas podemos procurar potenciar o 2.º lugar e mesmo amenizar o 3.º.