Arthur Jones Dionio/Reuters

Peso&Medida

Da satisfação na sociedade da insatisfação

A quem já não aconteceu desejar muito algo e, quando tal se alcança, a satisfação não ser a esperada? De facto, muitas vezes o cumprir de determinadas metas vem apenas acompanhado de um fugaz momento de euforia, após o qual tudo continua mais ou menos na mesma (ou pior, porque se percebe que a felicidade não estava no atingir aquele objectivo).

Assim é muitas vezes com a perda de peso e atribuições relacionadas. No início de um processo de gestão do peso são comuns expressões do tipo: “Tenho mesmo que perder peso, custe o que custar, a minha felicidade e equilíbrio dependem disso” ou “Se eu nem o meu peso consigo controlar, como posso esperar evoluir no meu trabalho ou noutras áreas da minha vida?” ou até “Espero finalmente voltar a gostar de mim, ganhar algum amor-próprio, voltar a fazer amigos”… e o rol de metas a alcançar continua, tendo como denominador comum a atribuição à perda de peso de um conjunto de “conquistas” que, não fosse um certo estigma e pressão social, pouco ou nada teriam que ver com… o peso.

De facto, se olharmos para as mensagens implícitas em muitas formas de comunicação social, encontramos a ideia (ainda que não expressa abertamente) de que um determinado corpo será passaporte para a felicidade, sucesso e relacionamentos positivos, especialmente se vier acompanhado de uma determinada forma de vestir, locais a frequentar, objectos a possuir, etc.. Enfim… vida a viver!

Não admira portanto que, mesmo quando a perda desejada é atingida – às vezes à custa de esforços impossíveis de manter no longo prazo (eles sim agentes que minam a flexibilidade e o bem estar individuais porque da sua restrição e rigidez nasce muitas vezes a compulsão e o desequilíbrio) –, a satisfação que se esperava não acontece, permanecendo a insatisfação, muitas vezes até aumentada. Insatisfação que pode ditar renovados objectivos, cada vez mais longe do real, numa escalada permanente de procura, achando-se sempre que é a conquista seguinte que vai trazer a satisfação (“faltam-me só mais 2 kg”).

A chave para este aparente paradoxo parece estar na natureza das metas (neste caso de perda de peso) que colocamos. De onde vêm? Alguma vez nos perguntamos realmente? “Porque quero realmente isto”? “Que significado tem para mim este comportamento/ conquista/ número na balança”? Será que alguma vez já tentámos “despir” os nossos próprios objectivos e metas daquilo que é social, moda, pressão? Vivemos rodeados de insatisfação. Nunca nada está bem e há sempre um ideal a atingir. É fácil perceber o muito que determinadas indústrias (por exemplo, da moda, cirurgia estética, suplementos alimentares, entre tantas outras) têm a ganhar com uma população literalmente insatisfeita.

Como fazer caber a nossa auto-estima num número da balança?! Não reflectirá tal uma procura de preencher determinados vazios internos com conquistas de valor externo? A investigação (e a nossa própria experiência quotidiana também!) tem demonstrado que quanto mais internas são as nossas metas, mais podem contribuir para emoções positivas, vitalidade, amor-próprio, muitas vezes independentemente até da sua consecução, neste caso puramente pelo sentido de nos encontrarmos no “nosso caminho”.

Segundo vários estudos, alguns deles realizados em Portugal na Faculdade de Motricidade Humana, uma motivação para a perda de peso e comportamentos associados (actividade física, por exemplo) que seja menos instrumental e mais próxima daquilo que de forma mais reflectida e verdadeira queremos para nós, bem como fiel aos nossos valores e interesses mais estáveis, é um dos preditores mais consistentes do sucesso na perda de peso a longo prazo. Tal como o associar a perda de peso a objectivos de vida ditos mais “intrínsecos” como a saúde, o crescimento pessoal ou o desenvolvimento de competências, e o reforçar sentimentos de pertença (ex. a um grupo de dança, culinária, ou de caminhadas).