Peso&Medida
O peso ideal para tocar violino e comer bolachas
São frequentes as alusões ao “peso ideal” ou “peso saudável” desta ou daquela pessoa. Em ambos os casos, a ideia é a de um valor de referência para classificar como bom ou menos bom aquele número "mágico” de quilogramas na balança. Número que devíamos supostamente conhecer e procurar alcançar. Mas será que existe, para cada pessoa, um peso mais saudável ou ideal? Se existe, como o calcular?
Usando a linguagem da epidemiologia, a ciência que estuda as doenças, as suas causas e consequências na população, o peso ideal seria aquele associado ao menor risco possível de contrair uma das várias doenças associadas ao peso “não ideal” (seja a mais ou a menos). Ou seja, seria o peso, para cada pessoa, que garantiria mais saúde ou até mais longevidade.
Infelizmente, a epidemiologia da obesidade não conseguiu até hoje identificar um valor de peso corporal (ou do Índice de Massa Corporal, o IMC*) que esteja associado ao menor risco de doenças como a diabetes e doenças cardiovasculares. Existe até controvérsia devido a estudos que sugerem que o peso que mais promove a longevidade está algures entre um IMC de 25 e 30, valores que a OMS já classifica como “pré-obesidade”! (Note-se que este e outros estudos também revelam que a magreza excessiva – IMC inferior a 18,5 – é o pior cenário de todos para a saúde). Do outro lado deste debate temos a evidência de que o risco de ter diabetes aumenta a partir de pesos relativamente baixos, dando razão aos que defendem que quanto mais baixo for o peso (acima da magreza excessiva), melhor. Em que ficamos então?
Parece claro que o melhor que conseguimos definir, e por isso o que devemos utilizar, é um intervalo saudável. O que afasta desde logo a ideia de que existe um certo valor na balança que seja ideal ou preferencial para cada pessoa. Na verdade, a ciência nunca conseguiu encontrar uma fórmula de o calcular, mesmo que muitas pessoas jurem que o peso que tinham quando casaram ou antes de terem o primeiro filho é inquestionavelmente o seu “peso ideal” – podem até ter razão, mas nenhum especialista o poderá confirmar!
Um intervalo é também uma boa solução porque permite flexibilidade dentro dos seus limites, lembrando que podemos ser saudáveis com pesos bastante diferentes. Por exemplo, uma pessoa com 1,70m de altura está dentro do seu intervalo saudável quer tenha 54kg ou 72kg de peso, o que corresponde a um IMC de 18,5 ou 25 (respectivamente os limites inferior e superior do intervalo saudável definido pela Organização Mundial de Saúde). Parece também ser o caso que para a maioria das pessoas apenas acima do IMC de 30 (e, muito especialmente, acima de 35), é claramente maior a probabilidade do peso afectar a saúde e a qualidade de vida associada.
Por último, é importante não esquecer que a saúde é mais do que não estar doente. E que apenas cada pessoa sabe realmente o que é “ser mais saudável” para si. A epidemiologia apenas revela o risco na população. O risco individual é uma equação bem mais complexa e que envolve a saúde física mas também a saúde mental, as expectativas, crenças e o contexto social e cultural, entre muitos outros factores. Como dizia alguém: “... para mim, ser saudável é ser capaz de tocar o violino as horas que quiser. É o que nasci para fazer. E o que espero estar a fazer quando morrer.”
É altamente improvável que a ciência venha algum dia a prescrever uma equação para o peso ideal adaptada a todas as pessoas quer gostem de tocar violino, de comer bolachas com chocolate ou de correr à beira-rio.
Até esse dia, aqui fica uma definição possível: o peso saudável de uma pessoa é um que está dentro do intervalo saudável da OMS (e poderá ir até ao IMC de 30 como limite superior); que lhe permita viver a vida que deseja, ou razoavelmente próximo dela; que é considerado como aceitável ou “normal” pelo próprio; e que não envolve um esforço psicológico continuado nem práticas agressivas para o atingir ou manter. Qual é o seu?
*O IMC calcula-se dividindo o nosso peso (em kg) pelo quadrado da nossa altura (em metros), uma fórmula habitualmente difícil de memorizar e utilizar. Felizmente, encontram-se na Internet milhares de calculadores de IMC. Um exemplo em www.pesocomunitario.net/imc.php
Pedro Teixeira
Professor e investigador
Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa
pteixeira@fmh.utl.pt