Eric Thayer/Reuters

Tiroteio em Newtown

Estou em estado de choque por causa do tiroteio na escola do Connecticut. Acho que a culpa é dos pais do assassino. Se eles tivessem criado melhor o filho, nomeadamente mantendo-o longe de armas, tudo isto podia ter sido evitado. Por que é que não podemos retirar os filhos a pessoas assim e fazer com que sejam criados por pais mais cuidadosos e carinhosos?

Tal como você, acho que o homicídio de 26 pessoas é uma tragédia terrível, terrível. Mas discordo do resto.

Adam Lanza era um solitário, teve poucos amigos. Mas o que o faz pensar que os pais dele não eram bons pais ou que não o amavam? Ao longo dos próximos meses, teremos debates importantes a nível nacional sobre diferentes modos de se ser pai e sobre o controlo do armamento. No entanto, preocupa-me que na nossa pressa de arranjar bodes expiatórios, vamos descurar um assunto muito mais importante: dezenas de milhares de pais lutam diariamente para criar crianças que sofrem de doença mental grave. Infelizmente, em vez de os apoiarmos e de lhes garantirmos que terão a ajuda de que precisam, dizemos-lhe que se eles tivesse amado mais os filhos, ou feito isto ou aquilo de forma diferente, os seus filhos estariam bem. A sério?

Viram o filme The Bad Seed, de 1956? É a história de Rhoda, de oito anos, uma criança angelical que vive numa bela casa com pais amantíssimos. Mas a doce Rhoda afoga um colega de escola porque quer a sua medalha de caligrafia, empurra e mata uma idosa para ficar com o seu enfeite de Natal e mata um encarregado que descobre a verdade. O filme, e o romance em que se baseia, explora uma simples questão: as ovelhas negras, as crianças que simplesmente nascem más, existem?

Claro que The Bad Seed é ficção e só podemos desejar que o que aconteceu no Connecticut também o fosse. Mas têm um elemento em comum. Tal como Liza Long. Num ensaio intitulado Eu sou a mãe de Adam Lanza, Long fala corajosamente das suas experiências com um filho com doença mental, que a atacou, que a ameaçou com uma faca e muito mais. “Amo o meu filho”, escreve. “Mas ele aterroriza-me.”

No filme, a mãe de Rhoda tinha tanto medo que tentou matar a criança, mas acabou por se matar. E estou certo de que a mãe de Adam Lanza teria ficado aterrada se soubesse o que estava para vir.

A minha amiga Sam Feuss adoptou duas crianças do Cazaquistão. O orfanato mentiu sobre as idades delas e encobriu o facto de sofrerem de graves distúrbios de ligação afectiva. Sam fez o melhor que pôde durante anos, lidando com crianças que espalhavam as próprias fezes nas paredes do seu quarto, que a atacavam repetida e violentamente e que disparavam para todos os lados de formas dolorosas para eles e para os outros. Sam e o marido consultaram especialista atrás de especialista, gastaram milhares em todas as terapias imagináveis e ouviram terceiros questionar o seu método parental e o seu amor pelas crianças. Finalmente, incapazes de lidar com o comportamento cada vez pior das crianças e temendo pela sua segurança – e pela dos outros na sua comunidade, Sam levou-os para uma instituição residencial terapêutica especializada em distúrbios extremos onde finalmente estão a receber a ajuda de que precisam.

Neste percurso, Sam encontrou outros pais com experiências semelhantes com os seus filhos, incluindo os sussurros, as acusações e as insinuações.

Nada do que estou a dizer aqui se destina a minorar a tragédia de Newtown. Mas culpar, envergonhar e dizer “deviam ter”, “podiam ter” nada faz para ajudar as crianças com doença mental que fazem coisas tão horríveis. E faz ainda menos para ajudar os pais que precisam tão desesperadamente de ajuda. Se vamos mesmo ultrapassar esta tragédia, teremos de confrontar realmente a doença mental infantil. Ignorá-la como temos feito até aqui não fará com que desapareça.

 Exclusivo Público / McClatchy-Tribune News Service