Reuters/Michaela Rehle

Um pai com os “baby blues”

A minha filha tem apenas cinco dias e hoje tive de voltar ao trabalho. Durante todo o dia senti uma tristeza persistente que só tem vindo a piorar. Tudo o que quero é estar em casa com a minha família. Tenho de ser responsável e trabalhar, mas não consigo sacudir esta horrível sensação.

Cerca de 85% das mulheres que são mães pela primeira vez passam por aquilo que os especialistas chamam de “baby blues”, ou seja, episódios de tristeza e depressão que duram alguns dias ou semanas, mas que eventualmente se vão desvanecendo. Parece que, sendo homem, está a viver algo semelhante. Na verdade, este é um dos maiores desafios que os pais enfrentam actualmente: criar um equilíbrio entre a vida familiar e a profissional.

Comecemos pelos “blues”. Os níveis de testerona dos homens caem a pique logo depois do nascimento dos seus filhos. Pesquisas recentes confirmam que as suas hormonas flutuam ao ritmo do das suas parceiras ao longo da gravidez e imediatamente após o parto. É estranho, mas muito giro.    

Este decréscimo de testosterona vai fazer com que naturalmente perca alguma da sua energia habitual – nem lhe vai apetecer mexer-se! – e pode afectar de forma negativa o seu estado de espírito. Esta pode ser a forma de a Mãe (ou o Pai)  Natureza  dizer-lhe para se manter perto da sua família, apoiar a sua mulher e tomar conta do recém-nascido. Mas a Mãe e o Pai Natureza não tomaram em consideração que algumas pessoas tinham de voltar ao trabalho logo depois do parto. De forma que levou consigo os “baby blues” para o escritório.

Aposto que essa tristeza vai desaparecer com o tempo. Terá dias bons e dias maus, mas, se dentro de algumas semanas não voltar ao seu estado normal, o melhor será procurar ajuda junto de um terapeuta. Toda a gente sabe que as mulheres que foram mães há pouco tempo podem sofrer de depressão pós-parto, mas os homens também podem desenvolver este problema.

A segunda parte da sua pergunta está relacionada com a procura de equilíbrio entre os seus instintos de pai e a responsabilidade de pôr o pão na mesa. Não há dúvida de que o conflito entre o pagar de contas e o mudar de fraldas (uma situação que considero que não é devidamente apreciada enquanto forma de estabelecer laços com o recém-nascido) pode ser muito stressante.

O que agrava a situação é o facto de a nossa sociedade ainda atirar muita da responsabilidade de pôr o trabalho em primeiro lugar sobre os ombros dos homens, o que não tem em consideração a vivência deste tipo de sentimentos. Felizmente, cada vez mais pais estão a descartar esta pressão mostrando-se disponíveis para prescindir de uma parte do seu salário e de avanços na carreira em prol de poder passar mais tempo em casa. Ainda assim, há um longo caminho a percorrer.

Um dos passos mais importantes que pode tomar é partilhar esta situação com a sua mulher. Muitos homens guardam a tristeza pós-parto para eles mesmos porque sentem que é suposto estarem a tomar conta da sua parceira e não o contrário. Isso é parcialmente verdade – ela definitivamente precisa de um apoio extra nesta altura – contudo, a sua mulher pode interpretar o conflito trabalho-família como um sinal de que está a levar a paternidade a sério e que estará lá para o que ela e o bebé precisarem.

Claro que dizer-lhe como se sente é apenas parte da conversa. Pode aproveitar para também falar com ela sobre um reajustamento nos papéis que cada um desempenha em casa. Se se puder dar ao luxo de sofrer o embate financeiro, talvez possa reduzir um pouco o seu horário de trabalho para que possa passar mais tempo em casa. Se precisa mesmo do ordenado, talvez dentro de alguns meses ela possa começar a trabalhar em part time. Ou, caso algum de vós já tenha pensado em fazer consultoria ou em começar um negócio a partir de casa, esta pode ser a altura perfeita para passar da teoria à prática.

 

Exclusivo Público / McClatchy-Tribune News Service